quarta-feira, 16 de maio de 2012

As mulheres na aldeia (ou na vila, já agora)


Luísa Dacosta - A-Ver-O-Mar : Morrer a Ocidente. Póvoa de Varzim : Câmara Municipal : Edições Asa, 2001.
Notas: Com um ensaio de Maria Alzira Seixo: "Eu fui ao mar às laranjas"
Direcção gráfica de Armando Alves
Desenhos Armando Alves e Jorge Pinheiro
Caixa com 3 livros

As Crónicas de Luísa Dacosta, A-Ver-o-Mar e Morrer a Ocidente, bem como o livro de poemas A Maresia e o Sargaço dos Dias, mostram-nos a comunidade piscatória de A-Ver-o-Mar, no concelho da Póvoa do Varzim, que a narradora visita sazonalmente, ao longo de vários anos, até ao doloroso adeus. Esta mulher, culta e solitária, estabelece laços de amizade com vários habitantes daquele lugar, especialmente com as mulheres, as crianças e os velhos, aos quais dá voz, conforme esclarece numa longa entrevista dada a Isabel Ferreira:

"- Uma das coisas mais gratificantes para mim foi poder dar voz a essas mulheres, que não a teriam tido, se alguém não estivesse disposto a registá-la. Claro que não foram só as vozes das mulheres, há outras vozes importantes, algumas masculinas, como o caso do Serrinha, e até do Gueral, que era um homem mais letrado: tinha Garrett na peniqueira... Foi igualmente gratificante (e talvez por isso pense que não tem importância escrever muitos livros) escrever A-Ver-o-Mar, Morrer a Ocidente e Maresia e o Sargaço dos Dias. Ainda que tivesse só escrito essas três obras, isso bastava. Não quer dizer que bastasse para que ficasse nas letras, mas bastava-me a mim como consolação, por ter sido capaz (não quer dizer que eu tenha conseguido inteiramente) de dar maior vivaciadde, maior veracidade também, à vida daquelas mulheres. E acho que é um conhecimento que não se perde, porque quando se quiser fazer a história das mulheres portuguesas, mesmo ainda no final do século XX, as mulheres de A-Ver-o-Mar têm qualquer coisa a dizer." (Isabel A. Ferreira, Luísa Dacosta: "no sonho a liberdade", 2006)

Ainda a propósito desta relação com aquelas gentes marítimas, a escritora refere, noutro lugar, os "tabus sexuais" impeditivos de prolongadas conversas com os homens, com excepção dos velhos, que, pela sua condição, "ganhavam um estatuto, quase mulheril, fazendo mesmo certos trabalhos, geralmente reservados às mulheres"  (Luísa Dacosta, "Autobiografia: Ego, alter-egos e outras alteridades na minha obra" in Escrever a vida, verdade e ficção - Act 16 -, 2008).

A obra desta escritora e os livros mencionados, em particular, são excelentes do ponto de vista literário e, naturalmente, não tratam apenas de questões de género (como as citações recorrentes neste blogue o evidenciam),  e mesmo estas têm uma representação mais complexa do que este breve apontamento sugere. Todavia, estas leituras são hoje um ponto de partida para uma reflexão sobre os papéis das mulheres nas comunidades rurais e para a recepção que uma forasteira pode ter nesse espaço social. A mulher que visita a aldeia nortenha cria ninho entre as gentes, pese embora a diferença socio-cultural, isto porque o respeito e a estima mútuos são uma constante, não sendo indiferente para esta convivência o reconhecimento e a aceitação das restrições sexuais locais.
Que condicionamentos são estes? Que papéis estão reservados às mulheres? Naquela comunidade, ou noutras marcadas pela ordem patriarcal, comum a toda a sociedade portuguesa, mas muito acentuada nos meios pequenos, mesmo no século XXI, são os mais conhecidos: mãe, esposa, filha, monja, meretriz. Estará esta leitora a olhar preconceituosamente para a realidade? Estará a ler Luísa Dacosta de forma pouco rigorosa, é certo, mas não crê tresler a rusticidade lusa. De facto, basta ler, ver, ouvir, estar atenta, que logo as palavras e as histórias brotam, sem freio. O trabalho feminino é ainda menosprezado, o poder que eventualmente algumas senhoras adquiram tem ainda de se mascarar, a palavra feminil é ainda recebida com escárnio ou condescendência, o comportamento sexual é ainda marcante para o respeito que uma mulher possa ter ou deixar de ter. Talvez, excepcionalmente, a sua presença e a sua voz sejam aceites na ágora; porém, nesse caso, exigem-lhe a evidência da castidade. Se ela for uma forasteira, investida de poder, usufruirá de alguma tolerância: perdoar-lhe-ão a visitação de um seu semelhante, igualmente extra-terrestre, quiçá uma representação do santo espírito, um terráqueo é que nunca, e muito menos se for ave de capoeira local. São regras, são excepções, o código é que é sempre o mesmo. "É a vida.", assim dizia o homem das boas palavras.

2 comentários:

  1. Leitora,

    Excelente texto este. Uma reflexão que vem no seguimento do seu comentário. Amanhã vou ler com mais atenção.

    De qualquer forma o que penso é que os meios pequenos, em que existe ainda uma certa moral rural (se assim se pode dizer), atrofiam quem se deixa atrofiar. Quem ousar afirmar-se, pode correr o risco de uns olhares de lado, de um falatório de viés mas pouco mais que isso, coisa que (digo eu) não é grande mal.

    Conheço alguns meios pequenos (hoje, agora que escrevo, estou num deles) e sei que a afirmação aberta de uma identidade própria e não standardizada acaba por ser bem aceite. E, se o não for, paciência.

    Mas amanhã vou ler melhor este seu interessante texto.

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  2. Haverá sempre dois lados, é verdade, assim como há duas fomas de ver o mundo: uma mais optimista e outra mais pessimista.
    De qualquer forma, estamos já longe daquela aldeia que nos revela "Zorba, o Grego", de que me lembrei ontem. Pensei colocar aqui um excerto desse filme, mas não o fiz porque não combina com Luísa Dacosta. Esta não esconde a dificuldade das vidas, todavia olha-as sempre com amor e compaixão. É generosa, o que também não é característica de todos...

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