terça-feira, 1 de maio de 2012

Preparação das aulas

Manuel Gusmão, "Linguagem e História segundo José Saramago", Vida Mundial, Novembro de 1998:

Dois tópicos:

- modos da escrita;
- modo das configurações da historicidade.

A linguagem:

Neste artigo, Manuel Gusmão salienta dois "gestos verbais" da obra romanesca de Saramago: a forma da frase e a sua pontuação característica; a "apropriação activa da herança literária, cruzada com a invenção e a imitação de formas da coloquialidade mais comum".

Características da frase saramaguiana: várias frases contidas numa, ditas por duas ou mais personagens, frases estas separadas por vírgulas, sendo os seus limites indicados apenas pela letra maiúsculas inicial de uma palavra que vem depois de uma vírgula - "frase plurivocal".

"Este modo de frasear produz efeitos rítmicos e prosódicos, percepcionados por uma espécie de ouvido mental, e coopera com a construção de uma imagem ou de um efeito de narrador oral, participante activo naquilo que conta. Entretanto, pela sua dimensão plurivocal, e sobretudo quando a ligamos a outros traços do universo romanesco que ela ajuda a construir, esta forma de frase produz um outro efeito particularmente importante: ela mostra a radical socialidade da linguagem, de qualquer língua e de qualquer acto de fala. [...] Por outro lado, falamos sempre com "as palavras dos outros", deformando-as é certo; e por aí passa a possibilidade da individuação e da singularidade. É neste sentido, também, que o diálogo é a forma básica da fala, e que numa só frase se podem ouvir várias vozes. A plurivocalidade é também polifonia." (12/13)

Uso das palavras dos outros: exemplos: provérbios, citações. Neste últmo caso, há uma "correcção" da imagem do narrador oral, que amiúde se revela erudito, apropriando-se de registos discursivos e estilísticos da tradição literária.

A história:

"ficcionalização da matéria histórica" (13)

"Vários dos romances posteriores [a Levantado do Chão] procederão assim: supõem um texto ou textos prévios, nos quais descobrem ou inventam uma lacuna, textos que corrigem, ou que vão voltar uns contra os outros. Assim, em Memorial do Convento - a historiografia oficial [...]" (14)

Notas importantes para a leitura de Memorial do Convento (Manuel Gusmão o conjunto da obra romanesca e não apenas sobre este livro):

- "ficcionalização irónica, rapsódica e polémica da história já escrita" (14);
- "Esta ficcionalização tende a mostrar sempre, na enunciação narrativa, o presente histórico em que se escreve, criando a unidade de uma contradição, pela qual o narrador se simula contemporâneo da acção passada que conta e, ao mesmo tempo, alude à contemporaneidade do autor empírico." (14);
- "configuração do espaço-tempo e das populações do mundo narrativo": acontecimentos fantásticos ou maravilhosos" (os poderes de Blimunda  eo voo da passarola), mistura de personagenes ficcionais com personagens construídas osbre indivíduos históricos (D. João V, Bartolomeu Lourenço, etc.).

Um narrativa ético-política:

"Esse ethos é uma marca ético-política [...]. Mostra-se: - no escrever a voz dos que não têm lugar na escritura; nas apresentações dos construtores do convento, na oratória e na ciência de Bartolomeu, e na arte de Scarlatti; - nas listas de nomes "próprios" de mortos anónimos e/ou históricos que em vários romances aparecem [...]" (15)

"E é, também, um princípio de relativização e deformação da perspectiva, que permite inscrever um partis pris pelas gentes que não vêm na escritura, e pela humanidade (ofendida) dos humanos"

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