quarta-feira, 2 de maio de 2012

Vozes de esperança




"[...] O respeito pela pessoa humana, pela sua autonomia e pela sua liberdade, a prevalência do direito comum sobre o direito individual, o respeito pela vida e pela Natureza, o respeito pela autoridade legítima existem em todas as civilizações, de uma forma ou de outra. São o fundamento da vida social e a salvaguarda contra a arbitrariedade e o uso discricionário da força. Por isso eram considerados princípios sagrados. Mas a prevalência da razão, a igualdade universal, e a exclusão do transcendental não eram compatíveis com a noção de sacralidade. A globalização veio fechar ainda mais o horizonte, ao tornar a recusa da sacralidade dos valores como um princípio sem retorno.
Fala-se ainda em civismo, ética, solidariedade, autoridade, verdade, transparência. Mas todas as noções se tornaram relativas, sujeitas à oportunidade ou dependentes da interpretação subjectiva. Perderam a força. [...]" (31-32)

"[...] Deixemos, porém, ao menos provisoriamente de considerar o futuro da Humanidade como um todo. Em vez disso não seria melhor concentrar os esforços em soluções parciais, de efeito imediato para os indivíduos e grupos que as adotam e com virtualidade agregadora? Com efeito, os sinais negativos que detetámos até aqui não revestem a mesma gravidade em toda a parte. Há lugares, países, regiões, comunidades, famílias, grupos, associações cuja existência é marcada por sinais contrários daqueles que vimos, e que parecem (e são de facto) tão ameaçadores. As motivações, os processos e as atividades de tais grupos são infinitamente variados. Podem ter objetivos lúdicos, terapêuticos, higiénicos, artísticos, religiosos, assistenciais, pedagógicos, científicos, humanitários, eu sei lá..." [...] (33)

"[...] Estamos, sem dúvida, num momento dramático da história da Humanidade. Mas enquanto houver vida no planeta e o Sol reaparecer a oriente na manhã de cada dia, enquanto os homens e mulheres se amarem e as crianças nascerem e brincarem, há ainda um resto de esperança." (35)


José Mattoso,"A luta pelos valores no fim do milénio" in Levantar o Céu: Os labirintos da sabedoria, Lisboa, Temas e Debates/Círculo de Leitores, 2012.

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