sexta-feira, 29 de junho de 2012

Espaços interditos

[Poemas a uma ausência]

O ESPAÇO

O espaço que vai
das mãos
ao cimo dos meus joelhos

Das tuas mãos
aos meus lábios

Dos teus lábios
aos meus seios



OS PULSOS

Os pulsos

São os pulsos que se esquecem
guardando das mãos
os movimentos

poços fechados também
do pensamento
onde se perdem os dedos da paixão

Piscinas não de sangue
mas ternura
onde deixamos a boca mergulhada

Se neles cravamos com doçura
os dentes    sem febre    nem vergasta
logo no corpo se acende esta loucura

onde os pulsos bebem
sugam
e devastam


Maria Teresa Horta, As palavras do corpo: antologia de poesia erótica, Lisboa, Dom Quixote, 2012.

8 comentários:

  1. Olá Leitora Andarilha,

    ... espero que isto da andarilha não signifique que está em vias de se pôr a andar, agora que aqui voltou...

    Gostei imenso das suas escolhas de hoje.

    Maria Teresa Horta é uma das Poetas (ou Poetisa? Como se deve dizer? Eu prefiro dizer sempre Poeta mas não sei se é o mais curial)de que muito gosto, é uma mulher-mulher, muito segura de si, dos seus sentimentos, pensamentos, muito orgulhosa do seu corpo e das vontades do corpo e que, apesar da muita poesia que tem escrito, consegue sempre ter uma frescura original na forma como escreve.

    Um beijinho, Leitora Andarilha.

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  2. Estou a descobrir Maria Teresa Horta, e estou a gostar muito. Quando era mais nova, achava-lhe graça, mas não compreendia a sua escrita, especialmente a sua poesia. Idades.

    Poeta? Poetisa? Também hesito no termo, uma vez que gosto da sonoridade do feminino, que segue as regras da língua e está fixado nos dicionários e no uso. Todavia, os estudos literários e a crítica preferem o primeiro termo, que eu também uso mais, porque "poetisa" está conotado com a escrita de salão ou de "boudoir", versos mulheris de escassa ou nenhuma qualidade. Muitas vezes serve para depreciar as mulheres que escrevem, relegando-as, assim, para a sala de chá, já para não dizer para a "nursery".

    A leitora andarilha não se quer ir embora, o epíteto revela, em vez disso, a vontade de percorrer muitos caminhos e chegar a todos os lados. Mas é difícil porque, ao contrário de si, não consigo fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Sou muito concentrada,em quase tudo, especialmente na escrita...

    Um beijinho e um sábado feliz

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  3. Boas notícias então no que se refere ao andarilha.

    Eu não é que faça mais coisas que os outros, acho eu. Sou talvez mais irreflectida, não penso antes de fazer, não penso enquanto faço e desligo e parto para outra depois de ter feito. Ou seja, não me preocupo muito com o que estou a fazer pois faço-o com grande gosto enquanto a coisa se está a fazer e depois quero é ficar disponível para o que hei-de fazer a seguir. Ou seja, não volto atrás para ver se ficou bem, não penso antes nem depois na perfeição da coisa. sou muito de me deixar levar pela intuição e pelo gosto que sinto no momento. Não sei se isso transparece em quem me lê.

    No entanto, gosto imenso de ler textos que vejo que foram amadurecidos, burilados, previamente auto-avaliados. Vejo os seus textos, por exemplo, e são sempre muito bem escritos, bem fundamentados, vejo que pesquisou. E aprecio imenso isso.

    Uma palavra ainda para a questão da Poeta ou da poetisa: gostei mesmo do que escreveu. Uma vez mais descreveu, fundamentou, opinou. Dá gosto ler.

    E eu, assim sendo, vou manter-me mesmo, e agora com segurança, no termo Poeta.

    Obrigada.

    Beijinhos e bom fim de semana.

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  4. Cara Leitora, não deixa de ser curiosa essa sua referência à conotação "menor" dada à palavra "poetisa"...
    Recordo-lhe que a própria Maria Teresa, usa a palavra "poetisa". Poderá conferi-lo passim, por exemplo na entrevista que ela deu à TSF em Janeiro de 2012, onde, depois de referir que deixou o poeta à solta no texto de As Luzes de Leonor, diz abertamente "a poetisa que eu sou". (Pode encontrá-la na net)
    Em Outubro, se tudo correr bem, sairá outro livro dela, sob égide da Marquesa de Alorna, Poemário de Leonor. Também ela escreveu, a dado passo, "Poetisa das Luzes" e é bem sabido que a não considerava autora de "boudoir", nem lá perto.
    A crítica literária não prefere o termo: tem o hábito de o usar, o que é bem diverso.

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  5. Cara Ivone Costa, muito gostei da sua réplica ao meu comentário.
    Não ouvi a entrevista de Maria Teresa Horta, mas não estranho que ela se refira a si mesma como "poetisa", ou à Marquesa de Alorna. O uso de tal termo também se inscreve na afirmação da escrita feminina (no feminino), que me parece presente na obra e nas intervenções públicas de MTHorta.
    Numa perspectiva ou noutra (machista ou feminista, atrever-me-ia a dizer), creio que a palavra "poetisa" convoca discussões exteriores à escrita, o que o nome "poeta" evita. Será por esta razão que a crítica o usa, e não por mero hábito.
    E a Ivone Costa, que designação prefere? (Poeta, Poetisa, autora de excelente poesia...)

    Bom fim-de-semana

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  6. Cara Leitora, aceito que crítica prefira "poeta" a "poetisa" para evitar discussões exteriores.
    Sophia, por exemplo, sempre reclamou para si a designação de "poeta" e sempre se respeitou o modo como ela gostaria que a referissem.
    Eu desvalorizo a questão ideológica neste tema, prefiro a resolução ditada pela morfologia. Há, em português, palavras que são variáveis em género, outras não o são. O feminino de autor é autora. O feminino de poeta é poetisa. É essa a designação que prefiro.
    (O excelente é uma hipérbole, claro, mas obrigada.)

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  7. Olá, quero felicitá-la pelo belo blogue que tem. Tenho lido e apreciado imenso o conteudo que cá vai postando.

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