domingo, 12 de agosto de 2012

Corpo e tempo / O tempo, esse grande escultor


José Rodrigues, O sentimento trágico da vida, Porto, Asa, 2003
(textos de vários artistas e intelectuais e desenhos de José Rodrigues)


Em época estival, mas já não ao sol, eis que surge a reflexão sobre o tempo e o corpo. É um dos veios da melancolia, um tópico literário por excelência, mas é também uma preocupação quotidiana, seja a nível pessoal e íntimo, seja a nível da adequação aos códigos sociais. Haverá algum aspecto da vida mais marcado estética e socialmente do que o modo como o corpo de cada um se apresenta ao próprio e aos outros, nas várias circunstâncias e idades? De facto, o mais pequeno desvio às regras estabelecidas introduz, de imediato, o sentido de ridículo e de subversão, acompanhado de censura ou de condescendência, que serão formas de resistir à mudança, isto é, à morte.
Vejamos, por exemplo, o que se vai observando nas familiares praias portuguesas; penso sobretudo nas praias do Oeste. Se há trinta ou quarenta anos a maior parte das senhoras ainda só usava fato de banho, para não falar daquelas que não se despiam, limitando-se a um pudico levantar de saias à beira-mar, hoje vemos a generalizada afirmação do bikini. Não importa a idade nem a forma dos corpos, sejam as peles flácidas ou firmes, sejam as cinturas esbeltas ou envoltas em camadas de gordura, sejam os ventres proeminentes, lisos ou rasgados por cicatrizes de cesarianas ou de histerectomias, sejam os seios harmoniosos ou em farta queda, as mulheres estendem-se sobre a areia, caminham pela praia, banham-se, indiferentes à vergonha do passado. Por vezes, podemos pensar que o gosto deveria ser um pouco mais requintado, mas o sentimento predominante é de que a mulher portuguesa está em processo de libertação, o que, naturalmente, significa a morte de um certo mundo ancestral, de matriz rural, acompanhada de alguma estranheza.
Primeiro foram os emigrantes a trazerem os novos hábitos, agora as netas das recatadas aldeãs já não se distinguem das estrangeiras, a não ser pelas cores morenas, resplandecentes ao sol de Agosto. Talvez o topless seja a última fronteira...
E as avós? Olharão com tolerância para estes corpos jovens e esplendorosos, sentindo-os como um prolongamento de si e do seu próprio viço? Ou desnudar-se-ão para lá das suas filhas, entregando-se sem reservas ao Sol e à beleza que há em estarem, estarmos, vivas, apesar dos golpes do tempo?

[Queria desenvolver o meu texto a partir da conhecida passagem da primeira epístola de S. Pedro, mas o tempo levou-me para a praia. Todavia, aqui fica a citação bíblica: "porque toda a carne é como erva e toda a sua glória como flor de erva, erva que seca e flor que cai"]

4 comentários:

  1. Seja a carne a erva sedutora onde se esparrama o desejo e dure enquanto dure.
    Obrigado pela sua visita.

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  2. O corpo e o desejo também é um tema interessante, mas mais difícil.

    Retribuo o agradecimento pela visita.

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  3. Por vezes, quando faço (ie, quando fazia) longas caminhadas pelas praias, passo por zonas de nudismo. Não gosto de ver nudismo 'partilhado'. Acho que os corpos desnudos, deitados, impúdicos, de pessoas ao pé umas das outras, de gente gorda, flácida, outros excessivamente trabalhados, se torna uma coisa um pouco desagradável, algo promíscua. Mas, enfim, sou mera passeante e, se quem lá está se sente bem, melhor para eles.

    No entanto, acho natural que, quem queira, se desnude e apanhe sol e nade em total liberdade. Mas nisto da nudez como no caso da religião (e não me pergunte a que propósito junto nudez e religião) acho que são coisas que fazem sentido em privado, na intimidade de cada um. Também não vou a missas pelo mesmo motivo(embora goste de, quando estou em passeio, entrar numa igreja e ficar cá atrás a sentir o espírito do local e do momento).

    Mas, para mim, a praia é um local de liberdade e prazer.

    Sítios com gente deitada ao lado uma da outra (e estejam vestidos ou despidos), ouvirem-se as conversas uns dos outros, é, para o meu gosto, a antítese de prazer e liberdade.

    Seja como for, tem razão. As praias hoje mostram que as mulheres já estão mais libertas, pelo menos no que ao tabu que o seu corpo era diz respeito. É frequente, pelo menos nas praias da Costa ou da Linha, por exemplo, ver-se mulheres a fazer topless em praias vestidas, e mulheres de qualquer idade, na maior descontracção, e ninguém repara, tudo natural.

    Penso que, de forma geral, as mulheres sentem-se confiantes com o seu corpo, magro, gordo, elegante ou deselegante, jovem ou enrugado. E isso é, de facto, uma coisa fantástica.

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  4. É curiosa a relação que estabelece entre a religião e a nudez. Um livro que citei há tempos neste blogue - Giorgio Agamben, "Nudez" - faz a mesma coisa. Segundo este filósofo, a nossa percepção da nudez tem um fundamento teológico, uma vez que está ligada a Adão e Eva, à sua tomada de cosnciência dos seus corpos nus e a consequente cobertura com folhas, primeiro, e uma peliça, depois. A veste tornou-se, assim, uma segunda pele e a nudez uma impossibilidade. Só no momento do baptismo o homem se despe, o que, ainda no entender de Agamben, explica que as pessoas se possam despir nas praias actualmente. De facto, só junto à água a nudez pública não é perturbadora, não sendo mesmo percepcionada como tal. Parece-me que a roupa de banho é já um vestígio de veste.

    Os corpos também se apresentam desnudados em várias manifestações artísticas, todavia, a meu ver, a pose que a arte implica pressupõe já um afastamento da naturalidade edénica.

    Neste contexto, o nudismo e as práticas naturistas associadas fazem-me impressão. Claro que também não tenho nada contra as pessoas que as praticam, mas parecem-me, as práticas, ridículas.

    Talvez no futuro a percepção da nudez se altere, mas agora concordo consigo, o convívio dos corpos desnudados só faz sentido na intimidade. Em público só sob formas ritualizadas, nomeadamente artísticas.

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