domingo, 14 de outubro de 2012

"A Ideia do Fim"

Maravilhosa poesia, a de Maria do Rosário Pedreira. Os três livros anteriores já os conhecia, agora debruço-me sobre o quarto, o último de Poesia Reunida (2012) - "A Ideia do Fim". Aqui deixo dois poemas da secção III:
 
 
 
Quando chegaste, eu já tinha a morte
dentro do meu sono; e só por isso não
sentia a pedra do coração nem o corpo
quase quase tão frio. Tu não notaste
 
que os corvos negros carpiam já sobre
o meu telhado - e ninguém te disse que
eu estava a morrer, porque só eu sabia
que desistir é coisa de um momento.
 
Juram, porém, que ouviste o sangue
cansar-se nas minhas veias e as larvas
estrebucharem rente à terra; e que então
afirmaste, sem dominar um grito, que o
quarto te cheirava absurdamente a flores.
 
Não me contaram se chamaste por mim,
se pela morte. Mas fui eu que acordei.
 
 
 
 
Não tenho planos, nem promessas, nem
filhos que nos convidem para almoços
de domingo - a minha ideia de família
resume-se a um retrato velho preso numa
gaveta; e do amor possível sei tão-só
 
o que li nos romances que me salvaram
da desordem quando o meu tempo
andava de ferida em cicatriz. Mas guardo
ainda muitos por estrear para essa estante
 
que ergueste no corredor como uma casa
nova. E trago portas abertas no coração:
 
se ainda não sabias, és muito bem-vindo.
 
 
Maria do Rosário Pedreira, Poesia Reunida, Lisboa, Quetzal, 2012.

2 comentários:

  1. Gosto muito da Maria do Rosário Pedreira, tenho todos os seus livros de poesia. O Manel é o marido, um conhecido editor, bem mais velho que ela e com quem ele conheceu um amor tardio, feliz e recíproco.

    Acompanhei, através dos livros anteriores, a tristeza do abandono, as saudades, a frustração, a esperança.

    Há sempre razão para ter esperança pois a luz aparece sempre. O que é preciso é estar-se disponível para a descobrir ou para a aceitar quando ela aparece.

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  2. Sábias e inspiradoras, as suas palavras.

    Abraço

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