sábado, 20 de outubro de 2012

Basta olhar, ouvir, ler (inclusive os programas de Português)

Mário de Carvalho,  em entrevista ao Jornal de Letras (nº 1097, de 17 a 30 de outubro de 2012) - Maria Leonor Nunes, "Mário de Carvalho: A batalha das palavras":

"As pessoas perderam a distância crítica, o sentido da comparação, da ironia, da metáfora, a dimensão das palavras, da sombra que projetam. Não sei se perderam, se lhes foi roubado."
 
"Estou convencido de que não é inocente o que se tem feito. Quando amputamos durante anos, no Secundário, o conhecimento da História e dos nossos textos clássicos, estamos a retirar capacidade de compreensão da língua e até a empobrecer o contexto. Porque os pensamentos, os conceitos fazem-se com palavras. Quanto menor for o domínio vocabular, menos acesso temos à realidade e ao pensamento. E há quem esteja interessado nisso. Nos primeiros tempos de Salazar, os professores, na sua maioria republicanos, foram substituídos por regentes escolares, que ensinavam a ler, escrever e contar e, na verdade, pensava-se que, quanto muito, era isso que os portugueses deviam saber. O que se passa agora? O consumidor precisa de ler Camões e Os Lusíadas, a mitologia? Não. Basta que conheça o vocabulário elementar que lhe permita compreender um anúncio. A pobreza, a miséria vocabular, em que estão encurralados e enclausurados os portugueses é da mesma natureza do ler, escrever e contar que Salazar entendia que bastava para o povo."

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