segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Apologia do fracasso

T. e os seus títulos sugestivos - "Apologia do fracasso" -, a partir de José Castello, no blogue Literatura na Poltrona. Num balanço da vida, o que se destacaria: a correnteza dos êxitos ou o rosário dos fracassos? É chegada a hora do dito balanço? Stendhal sugere os cinquenta, idade a que ainda não chegou, mas a década caminha para essa fronteira...
 
Até lá, fiquemos na companhia do escritor francês:
 
" Sentei-me nos degraus de San Pietro e aí me deixei ficar uma ou duas horas com esta ideia a trabalhar-me: «Vou fazer cinquenta anos, já era tempo de me conhecer. Quem fui, quem sou eu, na verdade muito embaraçado me sinto em dizê-lo. "
 
"Quem fui eu, então? Não o sei dizer. A que amigo, por mais esclarecido que seja, me será dado perguntá-lo? Nem mesmo o senhor Fior(i) me poderia dar um parecer. A que amigo terei eu dito uma palavra sequer sobre os meus desgostos de amor?
E, dizia eu para comigo nessa manhã, o que há de singular e triste em tudo isto é que o prazer que fruí das minhas vitórias (como eu então, com a cabeça cheia de coisas militares, as designava) não equivale nem a metade do profundo infortúnio que colhi das minhas derrotas."
 
"À noite, ao regressar, bastante entediado, do serão em casa do embaixador, disse para comigo: devia começar a escrever a minha vida, talvez que quando, daqui a uns dois ou três anos, chegar ao fim, consiga saber o que fui, se alegre se triste, se um homem de espírito se um parvo, se um homem de coragem ou um medroso, e, finalmente, feliz ou infeliz, e talvez possa dar o manuscrito a ler a di Fiori.
Sorriu-me essa ideia. Pois sim, mas aquela horrível profusão de Eu e de Mim! Chega para pôr de mau humor o mais benévolo dos leitores. O Eu e o Mim acabariam por ser, com as devidas distâncias, como M. de Chateaubriand, esse rei dos egotistas.
De je mis avec mois tu fais la récidive... (1)
lembro-me deste verso todas as vezes que leio uma página sua.
É verdade que também se pode escrever, usando a terceira pessoa, ele fez, ele disse. Mas então como se há-de testemunhar o que se passa no íntimo, na alma de cada um? É sobretudo a este respeito que gostaria de saber a opinião de di Fiori."
 
 
Stendhal, Vida de Henry Brulard, Porto, Inova, s.d. (tradução de Luiza Neto Jorge e António Ramos Rosa)

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