domingo, 2 de dezembro de 2012

coisas do escritório

"O seu vestido era uma bandeira, e a sua voz uma serpentina vermelha, tão rápida e tão forte, tão bem lançada, que podia decerto cortar o vento e serrar a chuva, que poderia, em todo o caso, calar com  a sua presença as outras vozes, ali no escritório, cinco minutos antes da saída. Ela, porém, ignorava isso tudo. Porque em tal hora desse mesmo dia sentira-se feliz e continuava a sê-lo nesse instante. Por isso os seus olhos, geralmente tão abertos, de olhar tão grande e incómodo, tão ardente ou tão ressequido, eram olhos doces, e a alegria fizera-os florir num azul novo.
Chegara havia pouco e trazia uma coisa para contar. [...]
 
O homem, porém não a ouviu. Estava a recomendar o que quer que fosse à mulher gorda. E uma carta muito importante devia seguir amanhã mesmo, sem falta, para Londres. Depois saiu e na sala ao lado, onde mandava, houve palavras soltas, uma aqui outra além. Aquele não, por exemplo, e tenho, e um espaço em branco e depois um sussurro e mais três palavras murmuradas, mas que a aragem de uma janela entreaberta trouxe até aos ouvidos dela e lá abandonou: paciência para taradas.
 
[...]
 
E a bandeira e a serpentina eram agora um simples vestido e uma voz incerta.
Quando no dia seguinte souberam, no escritório, que ela fora levada para o hospital por ter de novo procurado a morte, o seu quase-assassino não perdeu a tranquilidade. Era uma daquelas criaturas de consciência discreta ou quase muda ou obediente. Enfim, de consciência boazinha, incapaz de criar problemas ao seu possuidor. E ela, consciência, disse-lhe simplesmente que se uma pessoa tenta suicidar-se por ter ouvido palavras tão inócuas - se é que as ouvira -, essa pessoa é mesmo tarada e não se pensa mais nisso."
 
 
Maria Judite de Carvalho, "Os inocentes", in Além do quadro, Lisboa, O jornal, 1983.
 

3 comentários:

  1. Que texto terrível, Leitora.

    E se soubesse quantos amores e desamores acontecem nos escritórios, espaços fechados e vigiados em que as meias palavras adquirem tantos e tão desmedidos significados...

    Um beijinho, Leitora.

    ResponderEliminar
  2. Maria Judite de Carvalho é uma escritora terrível. Nos seus textos perpassa a tragédia do quotidiano, numa voz baixa e acutilante.

    Não sei desses amores em fechadas salas, só posso imaginar. Talvez nesse aspecto o trabalho numa escola seja menos sufocante; aliás, até há relativamente pouco tempo, podíamos ignorar os colegas, se assim quiséssemos. Mas o conto de MJC citado não trata de amores, simplesmente da indiferença e crueldade nas relações de trabalho. Uma mulher descobre a alegria da pintura e procura partilhá-la com os colegas, recebendo como resposta a incompreensão e aquela brutalidade.

    Bom resto de dia!

    ResponderEliminar
  3. Olá Leitora,

    Já reparei um equívoco lá no UJM. Não tinha respondido a um comentário seu pois confundi-me e, ao escrever esse aí acima, fiquei como se já tivesse respondido.

    Agora já lá respondi.

    Gaffes...

    Um beijinho, Leitora.

    ResponderEliminar