sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Poemas de noite


o fim da noite

ela guardava os sentimentos
como um animal ferido que se agarra
à vida por de dentro

e a vai perdendo devagar
enquanto sangra e sofre
emudecendo.

então beijavas-lhe
os seus próprios gemidos, a sua
desolada liberdade, o que no seu

olhar se enevoava.
não lhe peças mais nada,
não lhe digas

mais nada, mas não deixes
que a noite tome conta dela e
dite as suas leis.



meu amor, meu quente marulhar

meu amor, meu quente marulhar das águas ancestrais,
meu alvoroço terno das manhãs, há um vaporzinho no ar,
percorro a linha fina do teu corpo, o seu desenho ainda ensonado,
e és para mim toda a realidade nesse instante.
há roupas, sim, roupas que vais vestindo, algum creme que pões,
uma cama desfeita, um leve baloiçar das árvores lá fora
e o sol de inverno a alastrar nas vinhas.

 
Vasco Graça Moura, poesia reunida, Vol. 2, Lisboa, Quetzal, 2012.

2 comentários:

  1. Um belo poema. Vasco Graça Moura tem poemas magníficos. Estes dois livros são preciosos.

    Um beijinho, Leitora.

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  2. Também gosto muito da poesia de Vasco Graça Moura. É um caso em que a figura do autor nem sempre agrada, mas a obra poética ultrapassada qualquer preconceito. Ando a ler esta antologia e os poemas reunidos são ainda mais comoventes do que um a um, aqui e acolá.

    Um beijinho e Bom Fim-de-semana!

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