terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Vozes e Paisagens

Assim, a modos que recolhida, ouve vozes: dos poetas e prosadores, das gentes que cruzam as ruas do quotidiano, dos vizinhos, da televisão (desligada em nome da sanidade mental), vocalizações de agora e de outrora, ecos das profundezas ou de ailleures; tudo desenhando paisagens abertas às letras e ao sonho.


Paisagem onírica

Paisagem exótica, com flash

Não termina esta entrada sem a erudição de umas palavras francesas, inspiradoras deste cenário tão catita:

"Il y a donc, d'après nous, dans l'activité poétique une sorte de réflexe conditionné, réflexe étrange, car il a trois racine: il réunit les impressions visuelles, les impressions auditives et les impressions vocales."

Gaston Bachelard, L'eau et les rêves: essai sur l'imagination de la matière, Paris, José Corti, 1997 (1ª ed. 1942).

domingo, 29 de janeiro de 2012

Melancolia dominical

Ao passar pelas casas virtuais acostumadas, encontra-se uma fotografia muito sugestiva, e o pensamento corre para um texto maior da literatura portuguesa: Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro. Aparentemente, fotografia e texto não combinam muito bem, uma vez que este último se centra no despojamento, enquanto o registo fotográfico deixa ver a artificialidade da construção da figura. Todavia, aquele olhar e aquela melancolia que bem evocam a tristeza da Menina e Moça.  Ei-los:


Mario Sorrenti, in Um Jeito Manso 

"Menina e Moça me levaram de casa de minha mãe para muito longe. Que causa fosse então daquela minha levada, era ainda pequena, não a soube. Agora não lhe ponho outra senão que parece que já havia de ser o que depois foi. Vivi ali tanto tempo quanto foi necessário para não poder viver em outra parte. Muito contente fui eu em aquela terra, mas coitada de mim, que em breve espaço se mudou tudo aquilo que em longo tempo se buscou e para longo tempo se buscava. Grande desventura foi a que me fez ser triste ou, pela ventura, a que me fez ser leda. Mas, depois que eu vi tantas coisas trocadas por outras coisas, e o prazer feito mágoa maior, a tanta tristeza cheguei que mais me pesava do bem que tive, que do mal que tinha.
Escolhi para meu contentamento (se entre tristezas e cuidados há aí algum) vir-me viver a esta monte onde o lugar e a míngua de conversação da gente fosse como já para meu cuidado cumpria, porque grande erro fora, depois de tantos nojos quantos eu com estes meus olhos vi, aventurar-me ainda a esperar do mundo o descanso que ele não deu a ninguém, estando eu assim só, tão longe de toda a gente e de mim ainda mais longe, donde não vejo senão serras que se não mudam, de um cabo, nunca, e da outra parte, águas do mar que nunca estão quedas, onde cuidava eu já que esquecia à desventura porque ela e depois eu, a todo poder que ambas pudemos, não deixámos em mim nada em que pudesse achar lugar nova mágoa; antes de tudo, havia muito tempo, como há, que é povoado de tristezas, e com razão. Mas parece que das desventuras há mudança para outras desventuras, que do bem não a havia para outro bem. E foi assim que, por caso estranho, fui levada em parte onde me foram ante meus olhos apresentadas em coisas alheias todas as minhas angústias, e o meu sentido de ouvir não ficou sem a sua parte de dor."


Bernardim Ribeiro, "Saudades [Menina e Moça]" in Obras de Bernardim Ribeiro, Lisboa, Presença, 2010 (organização, introdução e notas de Helder Macedo e Maurício Matos).

O futuro é um despiste amargo


Avec le temps

Com o tempo
tudo passa
do possível ao improvável

Com o tempo
desabitamos
as condições do corpo
a sua assinatura

Com o tempo
descobrimos o sentido fractal
na face do Banquete
as coisas conhecidas
tornam-se sussurro

O futuro é um despiste amargo 
um vértice truncado
que se esfuma

Divorciados do acaso
afastamo-nos calados

No deserto
surdamente gritamos

Ana Hatherly

in Isabel Pires de Lima, Vozes e olhares no feminino, Porto, Edições Afrontamento e Porto 2001, 2001.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Un autre moi

Fotografia fabulosa! Ou o fascínio dos espelhos.


Do Facebook, da página Nos Z'amis les bêtes

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Diário de Maria Amélia III

Chianca de Garcia, Aldeia da Roupa Branca


Dedicava-se ao ofício de lavadeira. Com pouco gosto, diga-se, mas cumprindo as tarefas esperadas e conformes: cantarolava vagas insinuações brejeiras, esborrachava o sabão azul e branco nos alvos panos, esfregava com zelo, batia as fronhas na pedra e enxaguava, diligentemente enxaguava a sua trouxa nas águas comuns; de vez em quando, também subia a voz, para chamar outra camarada de tanque ou, então, para fazer valer a sua opinião, que, assim, se destacava em expressividade. Estes dizeres guinchados, todavia, não lhe saíam com naturalidade, era preciso acordar os músculos do aparelho fonador, arranhar as cordas vocais, inspirar com convicção e, de seguida, com toda a força, lançar a palavra mole. Com tanto esforço, nem sempre conseguia entrar no bulício no momento certo, tropeçava, demorava-se, desarmonizava-se; enfim, estava sempre um pouco fora do ritmo. Era estranha, ou melhor, deste modo a poderia considerar o gaiteiro rancho. Por isso, acautelava-se. Estava sempre vigilante, recompunha o traje e a cantoria logo à mínima desafinação, de maneira a passar despercebida. Sabia que o seu destino dependia da invisibilidade e que o equilíbrio estava por um fio.
Só as noites eram suas. Entregava os trapos ao luar, recolhia-se e partia na sua barca. Buscava a cidade, demandava sonhos, procurava a palavra, a de sílabas de luz. Sim, só essa palavra mágica a poderia libertar, sabia-o bem, agora e desde menina. Sempre fora sensível ao seu chamado, sempre o seu eco fizera ninho no seu coração. Deslizava na sua corrente sanguínea, caldeava-se com os seus fluxos mais íntimos, era parte de si. Mas, ultimamente, sentia-se exangue, ensurdecida. As noites transmudavam-se em frio e sobressalto, em arrecadação de trouxas de alienígena freguesia. Qualquer coisa tinha tomado conta do sono e impedia a viagem. Perto, perto ainda um murmurinho de alegria, resistente. 



segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Linhagem

Lista de leituras para o tempo e os dias que virão:

Fernão Lopes
Gil Vicente
Sá de Miranda
Luís de Camões
Fernão Mendes Pinto
Diogo do Couto
Samuel Usque
Frei Luís de Sousa
António Ferreira
António José da Silva
António Vieira
Nicolau Tolentino
Bocage
Almeida Garrett
Camilo Castelo Branco
Eça de Queirós
António Nobre
Camilo Pessanha
Raúl Brandão
Aquilino Ribeiro
Tomaz de Figueiredo
Mário de Sá-Carneiro
Fernando Pessoa
Cassiano Ricardo
Irene Lisboa
Vitorino Nemésio
Sophia de Mello Breyner Andresen
Jorge de Sena
Saúl Dias
Renata Pallotini

Romanceiro tradicional

... e ainda mais. Caminho da felicidade.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Novas leituras de Alves Redol




Acabou há pouco o Congresso Internacional "Alves Redol: Horizonte revelado", organizado pelo Centro de Estudos Comparatistas, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e pelo Museu do Neorealismo. Foram três dias de conferências e comunicações excelentes, que muito esclareceram os diversos participantes, para além de permitirem novas e mais amplas leituras do neo-realismo, em geral, e de Alves Redol, em particular. Um período e um escritor a redescobrir!

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

A beleza nunca acaba

Continua a leitura de Luísa Dacosta. A beleza percorre estas páginas incandescentes. Nunca acaba. Todas as páginas são a ler e reler, sendo os Prefácios dos seus livros especialmente belos. Eis um exemplo:


(capa da 1ª edição, com um pormenor de um pastel de Maria Mendes)


"[...] O perfume dos lilases, atingido aquele limiar de dor, que não sabemos mais se é física se é mental, apunhalava-a na tarde, naquela casa, outra. Não já a de outrora, onde se mirara no espelho das aparências. Arrogante, segura, vestida apenas da nudez da sua grácil adolescência, sem precisar de asas-braços para cantar a vida. O espelho devolvia-lhe, então, o seu corpo-lira, as suas formas de fruto enxuto, onda e concha, libertas na luz nocturna, que envolvia a sua carne de lua, amassada com azeitona. Um corpo de hastes e ramagens, fonte e braço de água. Margem de seda - longuilínea e breve - tão apetecida! Como era simples o alfabeto do corpo e que fácil amá-lo: as formas, a textura, o odor secreto, o sabor salino e canela, o rumor latejante! Os cabelos, movimento na aragem da tarde ou algas de suor, nos ombros da noite. Mas como tocar e sentir, sob a mão, os soluços de sombra e a fragilidade nua e informe do ser? Tão fácil acalmar as sedes do corpo e tão difíceis as outras! O seu fogo estava para além do seu ventre, cavado, capaz de floração, as suas nascentes muito para lá das fissuras, labiais, do corpo. Havia nela sombras mais densas do que as do púbis ou mesmo que as do sol negro dos seus cabelos. Claridades mais luminosas do que a água batida pela luz. O rio das suas pernas era um curso limitado, mas a sua alma tinha caudais de sede, mais ansiedade e inquietação do que as do simples desejo. Coisas sem nome, que apelavam ao caldeamento e à fusão, mais ao êxtase do que ao orgasmo. O que era o amanhecer, lunar, das colinas do seio, comparado às profundidades, nocturnas, do que estava para além dos sentidos: as dormências do que não sabemos pelo olhar e pela metáfora e são tumultuar obscuro? E depois, como decidir, era a sede dela que ele bebia, ou a sua própria sede que acalmava e procurava estancar? O «outro» existe realmente ou somos ainda nós? [...]"


Luísa Dacosta, Na Água do Tempo: Diário, Porto, Asa, 2005 (1ª edição: Lisboa, Quimera, 1992).

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Tu

Lendo Luísa Dacosta...


APELO

Atravessa os campos da noite
e vem.

A minha pele
ainda cálida de sol
te será margem.

Nas fontes, vivas,
do meu corpo
saciarás a tua sede.

Os ramos dos meus braços
serão sombra rumorejante
ao teu sono, exausto.

Atravessa os campos da noite
e vem.


ROSTO

Nunca vieste
quando o desejo
fazia um entalhe de sofrimento e apelo
na polpa, madura, do dia.

Nunca vieste
quando um golpe de luar
abria ao lado do meu corpo
um lençol, fresco, para acolher-te.

A tua boca não prendeu
a flor dos meus lábios.
Nunca calei no teu beijo
a indizível palavra.

Nunca vieste.

Respirei-te no sonho.
A morte terá o teu rosto desconhecido.



Luísa Dacosta, A Maresia e o Sargaço dos Dias, Porto, Asa, 2002.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Pacto de inconforto

Nem sempre se encontram leitores de Maria Gabriela Llansol. Aqueles que entram no seu universo de escrita nunca mais querem deixar de a ler. Lêem  e gostam de partilhar as suas leituras:



Uma passagem sobre o texto llansoliano e o seu leitor, ou melhor, "legente":

"Os meus textos supõem um pacto de inconforto _______ são tal qual, se eu quiser que existam_____;
a palavra "inconforto" é, todavia, capciosa, indica incómodo e coração ansioso, à espera de um amigo sereno. Devo reconhecer que o meu texto, ao deixar inseguro o sujeito que enuncia, se dirige, de facto, ao ansiar do coração, e o coloca na sombra da dúvida. E, se o coração persiste em ler, é porque há nele um fulgor estético que ilumina o próximo passo, e o faz apoiar no detalhe justo e irrecusável."

Maria Gabriela Llansol, Lisboaleipzig 1: O encontro inesperado do diverso, Lisboa, Rolim, 1994.

Liberdade de consciência e dom poético

A ouvir falar sobre Maria Gabriela Llansol e a gostar cada vez mais, e querer ler e reler e reler e ler. A aprendizagem não tem fim; hoje foi a tomada de conhecimento da sua pulsão de escrita, do livro contínuo que é a sua obra, na qual se movem os textos, transitando de lugares e de livros, seja qual for o seu género, seja qual for a sua forma. Escrita que desconstrói a narrativa convencional, para a fazer "deslizar" para a textualidade, lugar que nos pode dar acesso ao "dom poético", conseguida já a "liberdade de consciência".

Sobre estas questões, leiamos as palavras llansolianas:

"A textualidade pode dar-nos acesso ao dom poético, de que o exemplo longínquo foi a prática mística. Porque, hoje, o problema não é fundar a liberdade, mas alargar o seu âmbito, levá-la até ao vivo,
fazer de nós vivos no meio do vivo.
Sem o dom poético, a liberdade de consciência definhará. O dom poético é, para mim, a imaginação criadora própria do corpo de afectos, agindo sobre o território das forças virtuais, a que poderíamos chamar os existentes-não-reais.
Eu afirmei que nós somos criados, longe, à distância de nós mesmos; a textualidade é a geografia dessa criação improvável e imprevisível; a textualidade tem por órgão a imaginação criadora, sustentada por uma função de pujança____________ o vaivém da intensidade. Ela permite-nos,
a cada um por sua conta, risco e alegria,            abordar a força, o real que há-de vir ao nosso corpo de afectos.

Na verdade, proponho uma emigração para um LOCUS/LOGOS, paisagem onde não há poder sobre os corpos, como, longinquamente, nos deve lembrar a experiência de Deus,
fora de todo o contexto religioso, ou até sagrado.
Apenas sentir, ao nosso lado, dentro e fora de nós, perto e longe, uma realiadde inconfundível, incomunicável, incompreensível e inimaginável mas que é, como nós, à sua imagem, unicamente presença____________ que nunca poderão falar, e que entre si trocarão um texto sem fim, feito de sinais, gatafunhos, que escrevem, mutuamente que as nossas presenças não nos fazem mal, nem medo."

Maria Gabriela Llansol, "Para que o romance não morra" in Lisboaleipzig 1: O encontro inesperado do diverso, Lisboa, Rolim, 1994.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Azul


Leitura de João Barrento e de Maria Gabriela Llansol - textos da escritora





E porque as palavras reverberam, acordam ecos, lembrou-se a leitora de outra ocorrência de azul. O filme de Kieslowski e essa actriz maravilhosa que é Juliette Binoche. Para sempre, um filme, uma canção para a Europa e o rosto da mulher. A face no espelho, paralisante, fascinante, inesquecível. 




Geografia sentimental

Às voltas com Maria Gabriela Llansol.

- Terminada a leitura de um livro muito esclarecedor sobre a obra de MGLlansol:

João Barrento (org.), Europa em Sobreimpressão: Llansol e as Dobras da História, Lisboa, Assírio e Alvim e Espaço Llansol, 2011.


- Continuação da leitura dos seus diários. Um recorte:

"[...] Mas compreendi, apanhei numa iluminação que a minha escrita não é um efeito, o efeito do meu carácter. Ela existe, ela é a causa, o que antes de mim me dividiu em acidentes de uma geografia sentimental e perceptiva tão total e globalizante na sua ausência de estruturação, que é quase impossível ter por suporte um ser humano.
Não compreendi hoje como consegui viver até aos quarenta e três anos.

Por vezes transformo-me em escrita como os homens se transformam em poeira. Hipótese: não sou dura pelo simples gosto de ser dura; sou dura quando sou lúcida, num lugar percutante da História e da minha história.
Minha história e História. Quem, que ser, terá a percepção do que vivemos hoje? Eu, convosco, ando sempre à procura de fragmentos perdidos."


Maria Gabriela Llansol, Uma Data em Cada Mão: Livro de Horas I, Lisboa, Assírio e Alvim, 2009.

sábado, 7 de janeiro de 2012

A Ilha dos Amores

Para reflectir, com vista à compreensão de Os Lusíadas, estes recortes de um excelente texto de Vítor Manuel de Aguiar e Silva:

"[...] Na Ilha dos Amores, nos seus esponsais simbólicos com as ninfas e com Tétis, alcançam o apogeu da sua ascensão divinificatória os «barões assinalados» que acabavam de perfazer um dos grandes ciclos - não o ciclo supremo, como adiante diremos - da missão ecuménica do povo português. [...]"

"Nesta perspectiva, a empresa dos descobrimentos e o seu clímax, a viagem de Vasco da Gama em demanda da Índia, constituem a continuação, o prolongamento e a glorificação de uma hsitória que, desde há muito, vinha sendo urdida e de que tinham sido, eram e seriam agentes os guerreiros, os nautas, os missionários, os mártires e os sábios cujas figuras perpassam, quer sob a forma de narrativa, quer sob a forma de profecia, nos cantos de Os Lusíadas. E assim recobra plenitude de significado o próprio título do poema, pois o herói exaltado é efectivamente a totalidade concreta e orgânica de uma comunidade, visionada e glorificada na inconsútil urdidura do seu destino histórico, e não tão-somente cantada na crónica avulsa dos seus heróis e dos seus feitos. "  [Esta passagem foi retirada de uma citação mais longa que Aguiar e Silva faz de um estudo seu anterior a este - "Significado e estrutura de Os Lusíadas", Lisboa, 1972.]

"A missão ecuménica deste povo eleito, cumprida ao longo dos séculos por obscuros obreiros e por claros heróis, não culmina nem se esgota com a glorificação proporcionada aos mareantes lusitanos na Ilha dos Amores. O ciclo supremo dessa missão, coroamento e revelação cabal do sentido da história da comunidade lusíada, realizar-se-ia, segundo vaticina e anela Camões, num futuro próximo, quando el-rei D. Sebastião efectivasse enfim, em plenitude, o ideal cruzadístico que animou e guiou, como autêntica superestrutura ideológica, o Estado e o escol intelectual da Nação portuguesa no século de Quinhentos:"

"No texto de Os Lusíadas, este ciclo supremo do destino de Portugal apenas poderia figurar como desejo e profecia; no texto do acontecer histórico, escrito seis anos após a publicação da edição príncipe da epopeia, ficou assinalado como uma tragédia nacional... Os germes da decadência vinham corroendo desde há muito a grandeza material e moral da Pátria lusíada. Camões, embora comungando ardorosamente nesse sonho de cruzada e de império que soçobrou nos areais de Alcácer-Quibir, permanecia de mente bem lúcida para se dar conta, angustiosamente, dos sinais de decadência que estigmatizavam já o corpo e a alma da Nação."

Vítor Manuel de Aguiar e Silva, "Função e Significado do Episódio da «Ilha dos Amores» na Estrutura de Os Lusíadas" in Camões: Labirintos e Fascínios, Lisboa, Cotovia, 1994.

da identidade portuguesa

Leitura do Jornal de Letras. A figura central desta edição é Eduardo Lourenço, Prémio Pessoa. Sobre ele, e sobre o seu pensamento relativamente à identidade portuguesa, escreve Guilherme d'Oliveira Martins:

"No fundo, para o português uma identidade confinada não faz sentido. Ganhamos sempre que recebemos e dessa hospitalidade resultam perenidade e riqueza. Por isso mesmo, Eduardo Lourenço compreendeu melhor do que ninguém que em 1578-80 a figura central não foi D. Sebastião, mas Camões (com toda a sua riqueza épica e lírica), e que, ao modo de Vieira, o Desejado nunca poderia ser um morto ou um vencido, mas teria de ser alguém vivo - e, mais do que D. João IV, deveria ser o povo heterogéneo e difícil de interpretar, que deseja viver livre, com apego às viagens pelas Sete Partidas (talvez uma nova diáspora), à imagem e semelhança do Infante D. Pedro, duque de Coimbra (exemplo europeu e universalista), com uma alma pelo mundo repartida. Assim, a heterodoxia inconformista do escritor (discípulo à sua maneira, mas indiscutível, de Montaigne) considera a saudade fora da clausura do saudosismo, partindo das raízes antigas (D. Duarte, Nunes do Leão, Francisco Manuel e os românticos) e de Pascoaes (cujo talento enaltece) e chegando à fulgurante heteronomia de Fernando Pessoa."


Guilherme d'Oliveira Martins, "A Paixão das Ideias: Interrogador de Labirintos...", Jornal de Letras Artes e Ideias, 28/12/2011.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Um espelho no caminho

"A conversa recai sobre algumas figuras nacionais muito em voga. Num país como o nosso - rico de sentimentos, escasso de convicções -, todo aquele ou aquela que afirme opiniões de forma peremptória passa logo ao estatuto superior de personalidade. Invejável condição que confere, a quem dela beneficie, consideração e impunidade.
Quanto às ditas opiniões, pouco interessa averiguar do seu bom fundamento, tudo está no tom com que se enunciam. É quanto basta.
De facto, entre nós, o elogio ou, o seu contrário, a maledicência, raras vezes exprimem espírito crítico."


Marcello Duarte Mathias, Diário de Paris: 2001-2003, Lisboa, Oceanos, 2006, p. 261.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Criatividade

Ana Rito (1978)
Artista visual que recorre a vários média — fotografia, vídeo, escultura.


              Untitled 2                                                        Untitled 3


[Começar o ano de forma criativa, e continuar a inventar.]

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

O caminho da imortalidade

Janeiro inicia-se com Os Lusíadas. Não podíamos começar melhor, no ano dito da máxima crise. Assim, aqui fica um excerto das reflexões do poeta, no final do Canto IX, quando os marinheiros aportam à Ilha dos Amores e recebem o amoroso Prémio, reflexões estas que indicam o caminho a seguir, com vista à grandeza dos Homens e do Reino. Depois, esse excelente filme de Manoel de Oliveira que é Non ou a Vã Glória de Mandar (1990), de que se ressalva a cena inicial, com aquela árvore antiga e imponente (símbolo de Portugal?).

Mas a Fama, trombeta de obras tais,
Llhe deu no mundo nomes tão estranhos
De Deuses, Semideuses imortais,
Indígetes, Heróis e de Magnos.
Por isso, ó vós que as famas estimais,
Se quiserdes no mundo ser tamanhos,
Despertai já do sono do ócio ignavo,
Que o ânimo, de livre, faz escravo.

E ponde na cobiça um freio duro,
E na ambição também, que indignamente
Tomais mil vezes, e no torpe e escuro
Vício da tirania infame e urgente;
Porque essas honras vãs, esse ouro puro,
Verdadeiro valor não dão à gente.
Milhor é merecê-lo sem o ter,
Que possuí-los sem os merecer.

Ou dai na paz as leis iguais, constantes,
Que aos grandes não dem o dos pequenos,
Ou vos vesti nas armas rutilantes,
Contra a lei dos imigos Sarracenos:
Fareis os Reinos grandes e possantes,
E todos tereis mais e nenhum menos:
Possuireis riquezas merecidas,
Com as honras que ilustram tanto as vidas.

E fareis claro o Rei que tanto amais,
Agora c'os conselhos bem cuidados,
Agora co'as espadas, que imortais
Vos farão, como os vossos já passados:
Impossibilidades não façais,
Que quem quis, sempre pôde; e numerados
Sereis entre os Heróis esclarecidos
E nesta Ilha de Vénus recebidos.

Luís de Camões, Os Lusíadas, Porto, Figueirinhas, 1978, Canto IX, estrofes 92-95 (edição de António José Saraiva).



Manoel de Oliveira, Non ou a Vã Glória de Mandar