quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Uma faquinha amarela


Uma quarta de sabão
pra lavar o coração.
Uma faquinha amarela
para cortar a goela.


[Quadra popular citada por Luísa Dacosta, em O Planeta desconhecido e romance da que fui antes de mim, Lisboa, Quimera, 2000.]

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Homens cultos

As mulheres, e a voz das mulheres, ocuparam o primeiro plano deste blogue, na pausa carnavalesca. Hoje a atenção vai para dois homens cultos, cujos textos e/ou intervenções públicas são exemplares, enquanto reveladores de um pensamento denso e esclarecido, cada um a seu modo, sobre questões diversas, o que é um bálsamo em tempos tão exíguos e baços como os actuais.

Miguel Veiga



"Cada um é o que imagina ser.
Reivindico as contradições: o direito de ser outro de mim próprio e até estranho à minha própria imagem ou à definição que faço de mim mesmo. E mais reivindico o direito de não ter de me explicar sobre isso, ao abrigo do exercício da minha liberdade a quem, sobretudo, apaixonadamente quero." (p. 22)

"A amizade é o essencial, o sal, o sol da vida. É ela que nos funda e se nos entretece nesse acerto de olhares, nesse consenso de linguagens, nessa comunhão de gostos e contragostos, de repulsas, de preconceitos, de reflexos e, sobretudo, dos afectos das nossas águas mais silenciadas. É o lugar onde mais gosto de viver como escreveu o meu fraterno José Domingos da Cruz Santos. Embora «a verdadeira pátria dos homens seja o desejo», embora «o vício não seja a posse, mas o desejo».
A verdade do desejo é a única que não mente. Prosseguir a decifração desse mistério, desse enigma que se instaura, quanto mais real, mais oculto, nos segredos encantatórios do corpo da mulher, amado território em que o homem se perde, se encontra e se salva. Dessa eterna esfinge que a mulher encerra, invisível, indizível, inviolável. O desejo é a distância tornada sensível e o jogo de sedução é fascinante, atrai-me. Umas vezes no papel de sedutor, outras no de seduzido, não guardo a esse respeito qualquer preconceito. O que importa é que o jogo se jogue de uma forma solta, deslumbrada, desejada e com armas iguais. A sedução tem a estratégia da aparência, é uma forma encantada de representação, não é uma simulação e, muito menos, uma mentira ou uma falsificação, embora possa ser um fingimento verdadeiro. É que a sedução representa  a maîtrise do universo simbólico. Que não é da ordem da natureza, mas, sim, «cosa mentale» do prodigioso artifício criativo da mente. E, representado ou mesmo fingido, não mente." (pp. 26-7)


Miguel Veiga, "Auto-retrato" in O meu único infinito é a curiosidade, Lisboa, Portugália Editora, 2008.

João Lobo Antunes




"Percebi há muito que a medicina tem um travo diferente quando é praticada por médicos cultos não só porque apreendem mais facilmente a complexidade do que é estar doente - e Virginia Woolf tratou o tema num pequeno e admirável ensaio que intitulou precisamente On being ill - , mas também porque desenvolvem aptidões como empatia, curiosidade, sentido de humor, imaginação, disponibilidade, que lhes permitem saborear  melhor a profissão que abraçaram. Como nota Saul Bellow, «You have to be learned to capture modernity in its full complexity and to assess its human cost».
Richard Selzer, um cirurgião-escritor, chamou a atenção para o facto de que muitas dessas capacidades pessoais estão contidas no que se pode chamar conhecimento narrativo, ou seja, a capacidade de contar e ouvir histórias, de seguir o fio da narrativa, reflectir sobre a nossa própria história, imaginar a perspectiva do outro, ser levado a agir pelo seu sofrimento. Afinal, como observou George Simenon, «le romancier et le médicien sont les seules personnes qui approchent l'homme de tout près».
No fundo, avaliar um doente exige as mesmas aptidões que o exercício cuidado de qualquer leitura. Entre aquelas, eu citaria o respeito pela linguagem - e aqui apetece de novo citar Montaigne: «la parole est à moité à celui qui parle, moité à celui que l'écoute» -, a capacidade de adoptar os pontos de vista do outro, de ligar fenómenos isolados, sejam eles os dados clínicos ou simples metáforas, num tecido coerente que nos revela um novo sentido e, finalmente, alinhar os dados numa sequência lógica que liberta uma conclusão." (pp.92-93)

João Lobo Antunes, "5 - «Umana cosa é»" in Sobre a mão e outros ensaios, Lisboa, Gradiva, 2005.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

A ambivalência do desejo e da morte


Franz von Stuck, O Pecado, 1893


Lucien Lévy-Dhurmer, Salomé, 1896


[Leituras sobre a arte simbolista e as representações do feminino]

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Nostalgia

Agora mesmo, pela blogosfera, Alpabiblio, D. e a A. A. Ela também chegou em 96/97, e foi amor à primeira vista. Tudo ficou no seu coração, os Meninos, os Mestres, as paredes, um "ar" de liberdade. Veio embora em Julho de 98, mas uma parte de si ficou; ou a memória permaneceu indelével, em todos os novos lugares.

Não pode, contudo, evocar a A. A., sem mencionar também a L. de G., a primeira escola "a sério". Tinha 24 anos, estava em ano probatório, e, pela primeira vez, sozinha. Ela só, com 150 alunos, dois níveis, num ambiente relativamente formal, aparentando o corpo docente uma média de idades de 45 a 50 anos, tão diferentes da sua inocência. Mas a timidez e o constrangimento duraram apenas um instante e esta ficou como a escola inicial, aquela em que para sempre se reconheceu como um certo tipo de professora, qual não sabe bem. Com os Meninos que lá conheceu, partilhou o seu amor pela poesia e a sua crença de que a arte salva; era considerada "exigente", "simples e cândida", "alegre", pasme-se!; trabalhava 14 horas por dia, e ao fim-de-semana, tinha depressões de cada vez que corrigia testes, arrepiava-se sempre que a sintaxe lhe aparecia em contorcionismos. Queixava-se. Os Meninos gostavam dela e ela gostava deles. Acreditava e era feliz.

Eis uma breve resenha dos seus amores docentes. Não guardou retratos; deitou fora as fichas, aquando das grandes mudanças. (Nunca mais guardou nenhuma, até porque passaram de moda, substituídas por grelhas excel.)

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Marinha

E porque a poesia satírica muitas vezes anda a par com a poesia erótica (lembremo-nos da famosa antologia de Natália Correia - Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, Afrodite: 1965), terminemos este dia com David Mourão-Ferreira, que tão bem soube cantar as mulheres e o amor:


NOCTURNO

O desenho redondo do teu seio
tornava-te mais cálida, mais nua,
quando eu pensava nele... Imaginei-o,
à beira-mar, de noite, havendo lua...

Talvez a espuma, vindo, conseguisse
ornar-te o busto de uma renda leve
e a lua, ao ver-te nua, descobrisse,
em ti, a branca irmã que nunca teve...

Pelo que no teu colo há de suspenso,
te supunham as ondas uma delas...
Todo o teu corpo, iluminado, tenso,
era um convite lúcido às estrelas...

Imaginei-te assim à beira-mar,
só porque o nosso quarto era tão estreito...
- E, sonolento, deixo-me afogar
no desenho redondo do teu peito...


 
David Mourão-Ferreira, Obra Poética: 1948-1988, Lisboa, Presença, 1997. 

Escárnio e maldizer


Nestes tempos de cinzentismo e retrógrada mentalidade, de boçalidades várias, lembrou-se a leitora dessa mulher exuberante que foi Natália Correia, e do seu famoso poema a um deputado do CDS. (Que bom seria ouvirmos, hoje, no Parlamento alguém com, pelo menos, metade da inteligência e da verve de Natália!)



Natália Correia, O Sol nas Noites e o Luar nos Dias II, Lisboa, Projornal, 1993.

(transcrição da página 195)

«O acto sexual é para fazer filhos»
__ disse ele

Um poema de Natália Correia
a João Morgado (CDS)

«O acto sexual é para ter filhos» - disse, com toda a boçalidade, o deputado do CDS no debate anteontem sobre legalização do aborto. A resposta em poema, que ontem fazia rir todas as bancadas parlamentares, veio de Natália Correia. Aqui fica:

«Já que o coito - diz Morgado -
tem como fim cristalino,
preciso e imaculado
fazer menina ou menino;
e cada vez que o varão
sexual petisco manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca.
Sendo pai só de um rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou - parca ração! -
uma vez. E se a função
faz o órgão - diz o ditado -
consumada essa excepção,
ficou capado o Morgado.»

in Diário de Lisboa, 5 de Abril de 1982


Continuemos com Natália Correia e com o seu humor, inteligência e cultura, tão necessários à política. Agora um poema a Marcelo Rebelo de Sousa, candidato à Câmara Municipal de Lisboa, nos idos de 1989:

(página 316)

Marcelo e as Tágides

Marcelo, em cupidez municipal
de coroar-se com louros alfacinhas,
atira-se valoroso - ó bacanal! -
ao leito húmido das Tágides daninhas.

Para conquistar as Musas de Camões
lança a este, Marcelo, um desafio:
jogou-se ao verso o épico? Ilusões!...
Bate-o Marcelo que se joga ao rio.

E em eleitorais estrofes destemidas,
do autárquico sonho, o nadador
diz que curara as ninfas poluídas
com o milagre do seu corpo em flor.

Outros prodígios - dizem - congemina:
ir aos bairros da lata e ali, sem medo,
dormir para os limpar da vil vérmina
e triunfal ficar cheio de pulguedo.

Por fim, rumo ao céu, novo Gusmão
de asa delta a fazer      de passarola,
sobrevoa Lisboa o passarão
e perde a pena que é de galinhola.


(op. cit.)

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Espelho meu

Não termina esta reflexão sobre a mulher e o mundo sem uma referência a um livro que conquistou o seu lugar na bibliografia dos estudos femininos, nomeadamente à sua optimista exortação final. Eis o livro e a citação:

Naomi Wolf, The Beauty Myth: how images of beauty are used against women, New York, Perennial, 2002 (1st ed. 1991).

"How to begin? Let's be shameless. Be greedy. Pursue pleasure. Avoid pain. Wear and touch and eat and drink what we feel like. Tolerate other women's choices. Seek out the sex we want and fight fiercely against the sex we do not want. Choose our own causes. And once we break through and change the rules so our sense of our own beauty cannot be shaken, sing that beuaty and dress it up and flaunt it and revel in it: In a sensual politics, female is beautiful.
A woman-loving definition of beauty supplants desperation with play, narcissism with self-love, dismemberment with wholeness, absence with presence, stillness with animation. It admits radiance: light coming out of the face and the body, rather than a spotlight on the body, dimming the self. It is sexual, various, and surprising. We will be able to see it in others and not be frightened, and able at last to see it in ourselves.
A generation ago, Germaine Greer wondered about women: "What will you do?" What women did brought about a quarter century of cataclysmic social revolution. The next phase of our movement forward as individual women, as women together, and as tenants of our bodies and this planet, depends now on what we decide to see when we look in the mirror.
What will we see?" (p. 291)

Confluências e muitas queixas


Uma passagem muito interessante, do recente livro de Helena Vasconcelos, sobre a mulher portuguesa e a sua proverbial falta de tempo, sintoma, afirmo, do conflito insanável, pelo menos para uma geração nascida antes de 1974, entre uma organização social "tradicional" e um modo de vida mais moderno, origem de contraditórias e inconciliáveis exigências, de sofrimento, de sentimentos de culpa, de remorsos e ressentimentos vários, etc.

"Quando as mulheres se queixam - e com razão - de que acumulam tarefas e que a «falta de tempo» é um inimigo constante que contraria as suas legítimas ambições e desejos, é possível - e isto é apenas uma hipótese - que isso aconteça porque a dinâmica das suas vidas, que evoluiu e se modificou consideravelmente, não está em consonância com a estrutura de base, com as «fundações» da arquitetura familiar, onde se perpetuam rituais, hábitos e tiques que pertenceram a organizações sociais muito diferentes e distantes no tempo. Em Portugal ainda são muitas as mulheres que assumem um grande número de tarefas ao mesmo tempo e, diga-se a verdade, têm grande dificuldade em delegá-las. Há mulheres que acreditam piamente que elas e só elas podem - ou têm capacidade de - tomar conta das crianças, ir buscá-las e levá-las às atividades extracurriculares, ouvir-lhes as queixas e as confidências, para além de dar jantares em casa, tratar dos cozinhados e da cozinha, arranjarem-se bem para receber as pessoas, fazer compras para elas e para o resto da família, tratar dos pais ou familiares enfermos ou com problemas de toda a ordem e estarem nos seus escritórios ou outros postos de tarbalho com a cabeça fria e a funcionar em pleno. Na maior parte das vezes não conseguem manter uma agenda, chegar a horas a reuniões, atravessar as cidades de ponta a ponta para fazer face aos pedidos - e por vezes exigências - dos filhos e de outras pessoas, dizem não ter muitas vezes apetência para o sexo e, no geral, queixam-se muito.
Quando as mulheres se lamentam de falta de tempo é porque continuam a desempenhar, em termos estereotipados, os papéis de «esposas», de mães, de donas de casa (desesperadas, a maior parte delas) e, simultaneamente, assumem outras tarefas, trabalham, estudam, investigam, tomam parte na vida cívica e política, acumulam funções sem contar com o tempo de lazer e divertimento a que, obviamente, têm direito." (pp. 115-117)


Helena Vasconcelos, Humilhação e Glória, Lisboa, Quetzal, 2012.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Das mulheres e do mundo



Lidas cerca de 150 páginas de um livro muito interessante sobre as mulheres no Ocidente, com destaque para o espaço anglo-saxónico e Portugal:

Helena Vasconcelos, Humilhação e Glória: O acidentado percurso de algumas mulheres singulares, Lisboa, Quetzal, 2012.

É um ensaio a ler por várias razões: pela fluência da escrita, pela vivacidade da ensaísta, pela variedade e importância da informação, pela pertinência do tema, pois  a conquista de um espaço que seja seu não terminou ainda para muitas mulheres, para a larga maioria, creio. A autora, aliás, alerta para este facto, logo na introdução:

"Estamos a participar numa grandiosa mudança de comportamentos e hábitos, e as mulheres demonstram, com cada vez mais convicção, as suas capacidades e desejos, agarrando oportunidades com energia, inteligência e brilhantismo. Desde a segunda metade do século XX que se fala insistentemente do «Tempo das Mulheres», mas convém que não nos deixemos enganar: tudo o que se conquista não pode ser considerado como certo e perene e, a qualquer momento, forças poderosas - conservadoras, retrógradas - podem fazer reverter esta gloriosa e feliz tendência que dá às mulheres as mesmas hipóteses de escolha que, durante milénios, foram prerrogativa quase exclusiva dos homens." (p.13)


Destaco também, no capítulo sobre as «Mulheres de Letras» - "A ascensão segura das «Mulheres de Letras»" -, uma passagem sobre o Prémio Nobel da Literatura português e as contingências da sua atribuição, que desconsideraram nomes femininos, numa época em que as mulheres se destacam nas letras, seja como escritoras/poetas, seja como leitoras.

"Ao recordar a polémica que envolveu a atribuição do Prémio Nobel a José Saramago, creio bem que, se foi tempo de um português ser agraciado com o dito troféu, este deveria ter sido entregue, na altura, a Agustina Bessa-Luís ou a Sophia de Mello Breyner Andersen. Mas a primeira escreveu sobre a crueldade feminina e a segunda escreveu sobre o profundo e misterioso erotismo feminino, à luz de uma liberdade panteísta que certamente «assustou» a ala conservadora da nossa sociedade. (Recordo-me que a leitura de O Rapaz de Bronze, esse conto «infantil», foi, para mim, uma das chaves para o universo da sexualidade. Com a Sibila de Agustina aprendi o que era ser-se mulher de uma forma interessantemente poderosa e misteriosa.)
A escrira de ambas, cada uma à sua maneira muito particular, é profundamente pagã e nada disto poderia apelar ao julgamento positivo dos senhores da Academia Sueca." (p. 169) 

[Touché!]

É um livro a ler, com muito gosto e proveito. De facto, numa semana em que as mulheres portuguesas foram "aconselhadas" a retornar às lides domésticas e a (re)ocuparem, portanto, o tradicional papel de fadas do lar, é bom relembrar ou conhecer a história que nos trouxe aqui, os nomes e as vidas de muitas mulheres que se destacaram/destacam no seu tempo, dando voz aos anseios e sofrimento de muitas outras, às quais foram/são negados os meios fundamentais para pensarem e para serem livres, ou, simplesmente, contribuindo, com a sua inteligência, cultura e sensibilidade, para o bem-comum e para a melhoria da sociedade. Em qualquer época, e nos dias que correm, em particular, podemos menosprezar e votar ao ostracismo e clausura metade da humanidade? Não me parece. 

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Eu

Reflexões sobre o conceito de Eu/Self

Fernando Gil:

"Na agenda de uma teoria do self, a autoestima e a adesão a si não podem ser esquecidas como têm sido, quer pela filosofia passada no seu conjunto, quer pela filosofia contemporânea. Pois esta adesão é bem o teor fenomenológico mais aparente do eu (e o ónus da prova incumbe a quem contesta!). As suas dimensões são corporais e pulsionais, afectivas, cognitivas (a afectividade causal da acção e as suas condições) e metafísicas (crença, duração), e não há que recear acoplar ciência e metafísica. O seu principal operador é uma imaginação que actua em todos os registos, e já na simples percepção. A imaginação transforma o antes e o depois em duração, o facto biológico da morte em pavor e, também, a pulsão em amor: um pavor e um amor que investem definitiva e irremediavelmente a experiência de si e do outro. E haveria ainda que tomar em consideração a linguística do eu e a sua história cultural […]"

Fernando Gil, “Eu”, Análise, Lisboa, Colibri, data ?.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Homens em tempos sombrios

A televisão, os jornais, a vida de todos os dias, seja na esfera privada, seja no espaço público, não deixam dúvidas de que vivemos em tempos sombrios. Para os entendermos, para não esmorecermos, socorramo-nos dos melhores livros. Desta vez:

Hannah Arendt, Homens em tempos sombrios, Lisboa, Relógio d'Água, 1991.

Recorte do ensaio sobre Lessing - "A humanidade em tempos sombrios: Pensamento sobre Lessing" - , para meditar:

"São cada vez mais os habitantes dos países do mundo ocidental, que desde o declínio do mundo antigo considerou a liberdade em relação à política como uma das suas liberdades fundamentais, a exercer esta liberdade, retirando-se do mundo e das suas obrigações para com ele. Este alheamento do mundo não prejudica necessariamente o indivíduo; até pode permitir-lhe cultivar grandes talentos, elevando-o ao grau de génio, e por esse desvio o tornando uma vez mais útil ao mundo. Mas com cada um desses alheamentos verifica-se uma perda quase palpável para o mundo; o que se perde é o espaço-entre particular e geralmente insubstituível que deveria ter-se criado entre esse indivíduo e os seus semelhantes."

"A humanidade em tempos sombrios: Pensamento sobre Lessing" in Hannah Arendt, Homens em tempos sombrios, Lisboa, Relógio d'Água, 1991. 

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

O amor, o devir e a morte


Para meditar, nestes dias frios:

"Face aux visages du temps une autre attitude imaginative se dessine donc, consistant à capter les force vitales du devenir, à exorciser les idoles meurtières de Kronos, à les transmuter en talismans bénéfiques, enfin à incorporer à l'inélutable mouvance du temps les rassurantes figures de constantes, de cycles qui au sein même du devenir semblent accomplir un dessein éternel. L’antidote du temps ne sera plus recherché au niveau surhumain de la transcendance et de la pureté des essences mais dans la rassurante et chaude intimité de la substance ou dans les constances rythmiques qui scandent phénomènes et accidents. [...] Nous avions remarqué comment il y avait glissement progressif du mal métaphisique au péché moral par le jeu suggestif des images elles-mêmes. Et la psychanalyse a génialement mis en évidence que Chronos et Thanatos se conjuguent à Éros."

Gilbert Durand., Les Structures Anthropologiques de l'Imaginaire, Paris, Dunod, 1992.)

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Infidelidades e Compensações

Corpo Recusado, de Luísa Dacosta é um livro belíssimo e terrível. Conta uma história de amor e morte, sob a égide de Tistão e Isolda. Não haverá demoras na descrição desta obra, apenas se dirá que a perpectiva é a de um sujeito feminino, que se olha num espelho múltiplo, cuja superfície reflecte rostos de muitas mulheres. Aqui se apresentam dois excertos do conto "Infidelidades, pulseiras e agências de viagens", que deixam perceber duas formas de "integrar" a traição de "maridos respeitáveis":




"__ ... Compreende-se, depois de todo aquele escândalo, a pobre senhora precisava de se refazer... nada mais justo. Sofreu muito, sim porque tudo transpira e se sabe, são coisas que custam muito a uma mulher séria e então para a compensar, para a ajudar ao perdão, o querido amigo teve este gesto... Soube com certeza que ele já de outra vez, e tinha sido uma aventurazinha sem importância, a levou a Fátima. Mas agora o casamento esteve por um triz e todo o bicho careta vai a Fátima, impunha-se o estrangeiro. Nada mais justo, nada mais justo. Uma bela viagem com estadia em Londres e Paris... Enfim, umas segundas núpcias! Entendo que o querido amigo fez o que devia, tanto mais que é uma reparação que lhe sai em conta. Ah! Não sabia que ele tem facilidades numa agência de viagens?! Pois tem, pois tem, nem de outra maneira podia ser, mas isso não importa, o que importa é o gesto, não acha?" (p. 74)

"[...] No fim da vida, gorda e flácida, era uma montra recheada de pérolas, brilhantes, safirazinhas, rubis, esmeraldas. Não, topázios, não, pois era supersticiosa e davam azar, conforme lhe assegurava a mulher de virtude que a dirigia. As infidelidades do marido encastoadas em ouro de lei ou platina, adornavam-lhe a papada, cobriam-lhe o peito farto e imponente, cingiam-lhe (o doce aperto!) os braços roliços e os dedos papudos. D. Quinhas exibia-as com brio, como medalhas ganhas em combate. Que desforra sair-lhe mais cara do que as amantes!" (p. 75).


Luísa Dacosta, Corpo Recusado, Porto, Figueirinhas, 1984.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

"A veia no pulso (e o vidro que não corta)"


Mozart, Requiem


(O texto que segue estava guardado na gaveta das recordações; veio a lume por causa do título da entrada de hoje do blogue Ana Vidigal. Magnífico título. E por causa desse homem que tem povoado as páginas de Um jeito manso. Um homem sedutor, daqueles homens elegantes, confiantes e gentis que agradam às mulheres, sejam elas advogadas, sofisticadas esposas, economistas, tresmalhadas professoras, jovens médicas ou ___________ poetisas. 
Foi precisamente uma oficiante da palavra que confiou à leitora algumas páginas do diário de uma paixão, convertida em ausência e pranto.)



Cristal de Murano

Um excerto de diário confiado às amigas:

[...]

Héstia e Perséfone, duas deusas que dizem de mim. Onde o homem que as olhasse, as reconhecesse, as desabrochasse? Encontrei-o, na casa da fantasia. Tenho tanta pena de que não seja real! Quero tanto a sua existência que me é quase impossível acreditar que não me possa ser abraço, corpo, amante! É só ausência, falta. Bati à sua porta, disse-me que não; vim para casa com o seu retrato. Ainda o conservo nas mãos. Vejo-o nas paredes, no ar... As minhas mãos cresceram; são azuis e grossas as artérias...
Sufoco. O desejo estrangula-me. O sangue na garganta. Asfixia. Como socorrer-me? Enrolo-me na terra ensanguentada, contorço-me; guinchos, balidos, nenhuma palavra para cobrir a nudez...

Morrer pode ser real.


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Corpo e Palavra

A leitura é sedutora, e a escrita ainda mais. É exaltante. Mas não só a palavra escrita é criadora, também a voz cria mundo; ambas acendem a chama da vida e da esperança, avivam o corpo.
Neste dia tão cansativo, cinco testes depois, só estas imagens e palavras  inesperadas para lavar a alma:



Peter Greenaway



Jean-Luc Godard


(Este último vídeo estava em Escrever é Triste, excelente blogue, com um excelente título.)

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Desacordo Ortográfico

AO, quem o quer?  Aqui dispensa-se.

Paulo Franchetti diz, e nós gostamos de ouvir/ler:

Tantas Páginas: O que acha do acordo ortográfico? Acha mesmo que, como dizem os editores portugueses (e muitos intelectuais), o acordo foi uma gigantesca maquinação brasileira para permitir que os livros brasileiros entrem livremente no mercado português e no africano, acabando com a indústria portuguesa do livro?

Paulo Franchetti: O acordo ortográfico é um aleijão. Linguisticamente malfeito, politicamente mal pensado, socialmente mal justificado e finalmente mal implementado. Foi conduzido, aqui no Brasil, de modo palaciano: a universidade não foi consultada, nem teve participação nos debates (se é que houve debates além dos que talvez ocorram durante o chá da tarde na Academia Brasileira de Letras), e o governo apressadamente o impôs como lei, fazendo com que um acordo para unificar a ortografia vigorasse apenas aqui, antes de vigorar em Portugal. O resultado foi uma norma cheia de buracos e defeitos, de eficácia duvidosa. Não sei a quem o acordo interessa de fato. A ortografia brasileira não será igual à portuguesa. Nem mesmo, agora, a ortografia em cada um dos países será unificada, pois a possibilidade de grafias duplas permite inclusive a construção de híbridos. E se os livros brasileiros não entram em Portugal (e vice-versa) não é por conta da ortografia, mas de barreiras burocráticas e problemas de câmbio que tornam os livros ainda mais caros do que já são no país de origem. E duvido que a ortografia seja uma barreira comercial maior do que a sintaxe e o ai-meu-deus da colocação pronominal. Mas o acordo interessa, é claro, a gente poderosa. Ou não teria sido implementado contra tudo e todos. No Brasil, creio que sobretudo interessa às grandes editoras que publicam dicionários e livros de referência, bem como didáticos. Se cada casa brasileira que tem um exemplar do Houaiss, por exemplo, adquirir um novo, dada a obsolescência do que possui, não há dúvida que haverá benefícios comerciais para a editora e para a Fundação Houaiss – Antonio Houaiss, como se sabe, foi um dos idealizadores e o maior negociador do acordo. O mesmo vale para os autores de gramáticas e livros didáticos – entre os quais se encontram também outros entusiastas da nova ortografia. E não é de espantar que tenham sido justamente esses – e não os linguistas e filólogos vinculados à universidade – os que elaboraram o texto e os termos do acordo. Nem vale a pena referir mais uma vez o custo social de tal negócio: treinamento de docentes, obsolescência súbita de material didático adquirido pelas famílias, adequação de programas de computador, cursos necessários para aprender as abstrusas regras do hífen e outras miuçalhas. De meu ponto de vista, o acordo só interessa a uns poucos e nada à nação brasileira, como um todo. Já Portugal deu uma prova inequívoca de fraqueza ao se submeter ao interesse localista brasileiro, apesar da oposição muito forte de notáveis intelectuais, que, muito mais do que aqui, argumentaram com brilho contra o texto e os objetivos (ou falta de objetivos legítimos) do acordo.


terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

A palavra aos clássicos

Aos Meninos e Meninas do Presente
Palavras doloridas e um herói


Lidas as estâncias finais de Os Lusíadas, ficam estes versos tão contemporâneos:

Nô mais, Musa, nô mais que a Lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
D'ua austera, apagada e vil tristeza.

(Canto X, est. 145)


Outro tempo, a mesma crise, um retrato de um príncipe do passado: O Infante D. Henrique:

"A simpatia e a grandeza dos homens, como foi o infante D. Henrique, não está propriamente, pois, no carácter ou na individualidade: está na empresa a que se devotaram. E como o plano do infante era verdadeiro e fecundo; como a sua ideia de um Portugal novo, destacando-se da Espanha e estendendo-se, pelos confins de Marrocos, África em fora, a limites indeterminados nas regiões desconhecidas do mundo, provou afinal ser uma realidade, devemos-lhe, nós portugueses, uma segunda pátria; e deve-lhe a civilização europeia uma das suas três ou quatro conquistas fundamentais. É isso o que faz dele um herói, na mais nobre acepção da palavra, apesar das sombras que por vezes lhe escurecem a vida, e de não se lhe encontrar beleza, nem o encanto humano que distinguem outros filhos de D. João I." (p. 114-115)

Oliveira Martins, Os Filhos de D. João I, Lisboa, Verbo Clássicos, 2006.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Da necessidade da literatura

Italo Calvino deixou-nos seis (cinco) propostas para o próximo milénio, lidas pela primeira vez em 1992. Muitas das ideias então acolhidas afluem ao pensamento da leitora nas mais variadas ocasiões. Hoje lembrou-se insistentemente de duas passagens da conferência intitulada "Exactidão":

"Às vezes parece-me que uma epidemia pestífera atingiu a humanidade na faculdade que mais a caracteriza, ou seja, o uso da palavra, uma peste da linguagem que se manifesta como perda de força cognitiva e de imediatismo, como um automatismo com a tendência para nivelar a expressão nas fórmulas mais genéricas, anónimas e abstractas, para diluir os significados, para embotar os pontos expressivos, para apagar toda a centelha que crepite do encontro das palavras com novas circunstâncias.
Não me interessa aqui interrogar-me se as origens desta epidemia se devem procurar na política, na ideologia, na uniformidade burocrática, na homogeneização dos mass-media, na difusão académica da cultura média. O que me interessa são as possibilidades de salvação. A literatura (e talvez apenas a literatura) pode criar anticorpos que combatam a expansão da peste da linguagem."  (p. 74)

"[...] penso que andamos sempre à caça de alguma coisa oculta ou pelo menos potencial ou hipotética, de que seguimos as marcas que afloram à superfície do solo. Creio que os nossos mecanismos mentais elementares se repetem desde o Paleolítico dos nossos antepassados que caçavam e apanhavam frutos através de todas as culturas da história humana. A palavra liga a marca visível à coisa invisível, à coisa ausente, à coisa desejada ou temida, como uma frágil ponte improvidada sobre o abismo.
Por isso o uso correcto da linguagem para mim é o que permite aproximar-nos das coisas (presentes ou ausentes) com discrição, atenção e cautela, respeitando o que as coisas (presentes ou ausentes) comunicam entre si. (p. 94) 


Italo Calvino, Seis Propostas para o Próximo Milénio, Lisboa, Teorema, s.d.

Da necessidade da beleza e de uma nova imaginação

Bastam os títulos, para a náusea se instalar. São assim as folhas que nos trazem as notícias e as reflexões sobre o dia-a-dia. Precisamos de outra Europa, de outra ordem mundial e de novas formas de pensar e dizer. Precisamos de uma imaginação nova, de palavras novas, de palavras-antídoto. Como  estas de Luísa Dacosta, retiradas de um livro dito para a infância:


- Não sei... Só sei que invejo a tua sorte, estrelinha! – suspirou a menina. – Daqui vês a Terra apertada no anel, movente, das águas. Não há nada mais belo, nem mais vasto que o mar!
- Como te enganas! Estou aqui há milhares de anos e posso dizer-te que mais vasto que o oceano é o sofrimento dos homens...
- Como pode isso ser?! – perguntou, afligida, a menina.
- O egoísmo tornou-os tão alheios e isolados que um rosto se tornou uma parede para outro rosto. [...] Aqui, não me chegam os perfumes da Terra, nem a mutação, colorida das estações. Daqui, o teu planeta é habitado por gritos e banhado por um oceano de lágrimas...
- Com toda a beleza da Terra?!
- Com toda a beleza da Terra – confirmou a estrela. – A beleza é igualada pelo sofrimento e é ele que a torna tão necessária, frágil e preciosa.
- Porquê?! Porquê?! Explica-me, estrelinha, para ver se entendo!
- Os homens deixaram-se dominar pelas máquinas que inventaram. Tornaram-se peixes e pássaros monstruosos, criaram astros artificiais. Mas não aprenderam a viver, lado a lado. E o oceano das lágrimas cresce sem cessar.
- É terrível o que me dizes. Já chorei algumas vezes – confessou a menina – mas, agora é como habitar uma lágrima. Como poderão os homens reencontrar o caminho da felicidade?
- Quem me dera sabê-lo!... Talvez precisem de uma nova imaginação, uma imaginação que não seja mecânica como a que os tornou poderosos, mas lhes secou o coração, entendes?

Luísa Dacosta, A Menina Coração de Pássaro, Porto, Asa, 2002.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Os homens mais velhos são assim, dizem

"Fora de Jogo
Ter cinquenta anos


A miopia era leve, inconsequente quase. Agrava-se dum dia para o outro, e torna-se um empecilho de todos os instantes. Vai-se, por piada, ao otorrino, que é um amigo, e descobre-se, meio a brincar também, que a audição é perfeitamente normal para um homem de cinquenta anos!
É tudo assim: um nunca mais acabar de insignificantes pequeninas coisas de súbito intransponíveis. Correm-se cem metros para apanhar o comboio, perde-se o comboio e fica-se dobrado em dois, esgazeado, com os bofes de fora e ambas as mãos agarradas ao nó da gravata. Uma constipação leva uma semana a passar, uma dor de cabeça mete-nos na cama, uma sopa de peixe deixa-nos mal dispostos para o resto do dia, e de há muito que as noites deixaram de ser o que eram. Aliás, no vasto capítulo, tão vasto quanto imprevisto, que vai da gastrite à insónia, da cólica renal ao enfarte do miocárdio, para nos atermos apenas ao trivial, não há abrigos que valham e a ameaça é sempre totalmente invisível. A própria caligrafia, que nunca foi grande mostra, piora sem que se perceba porquê, como se também estivesse doente." (p. 328)

"As mulheres, por exemplo, que eram a coisa mais fácil e próxima deste mundo (quem é este gajo aqui, ao meu lado, que tem trinta anos, o sacana, e não tem barriga!), passaram, num abrir e fechar de olhos, para o lado de lá do cais ou da rua ou da vida, já não sei, depende dos dias, deixo-me ficar aqui sem razão nem proveito, sorriso reprimido e cara de parvo, a acenar-lhes adeus e boa viagem... Deixá-lo, há pior, e daí talvez não." (p. 329)


Marcello Duarte Mathias, "Fora de Jogo" in A Memória dos Outros: Ensaios e Crónicas, Lisboa, Gótica, 2001.


Antigamente os homens iam fazer 37 anos, hoje têm cinquenta ou assim, o que não é inconsequente. De facto, a acreditar no sujeito do texto de Marcello Duarte Mathias, esta parece ser uma idade fatídica, assombrada, o umbral de todas as insuficiências masculinas, de que a mais grave, vista de aqui, será a metamorfose da relação com as mulheres, colocadas à distância, do "lado de lá do cais ou da rua ou da vida", merecedoras só de um "sorriso reprimido", de uma "cara de parvo", de um insípido "adeus", e nada mais. Já não bastavam o rosário das doenças e a multiplicação das lamúrias, a tibieza tinha de vir cogular a medida.
O que pode uma mulher fazer com tal afastamento dos sedutores jogos da vida, senão estranhar-se? Ainda mais quando uma educação marcada pela diferença de género fez acreditar que a timidez e a insegurança, relativa a coisas parvas, eram apanágio do feminino. Estranhar-se ou, em alternativa, ter saudades do passado, do tempo dos sorrisos convidativos, das conversas ora provocadoras, ora cariciosas, atraentes sempre, dos olhares acesos, e incendiários, porque não? Ou então reinventar súbitas mãos andantes e jogos de palavras, de mui prazerosa memória.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Já o mar dá ramagens, e as dunas flores




O tempo passa, leva-nos com ele, e ficamos, mais sós, mais despojados, mais tristes. Calam-se os risos, partem aqueles que acreditávamos serem para sempre. Anoitece. Despede-se o dia, despedimo-nos nós da idade de acreditar. O sal das lágrimas já não se transforma em cristais de luz, é sempre e só sal branco, grão branco para nenhuns lábios cariciosos, sal de cozinha, e nada mais.
O que resta? As conversas à superfície do viver, minutos sem fim centrados em amenidades: gadgets, tarefas, pequenos acidentes do quotidiano, prazo de validade de todos nós, das mulheres em particular. Contrariamente ao que aparentam, estes circunlóquios não são vazios, são, ao invés, reverberações do medo e da resistência a Cronos. O mal do tempo procura mascarar-se, sair de si, transmudar-se em matéria controlável. Não será uma forma justa nem bela; será uma ilusão que percorre caminhos paralelos à busca de transcendência, quem sabe?, mas sem grandeza. Tantos caminhos, tantas vias, tantas veredas. Como escolher?
Ou, como não escolher? Apetece afastar os olhos do alto e da sempre valorizada pureza das essências, da procura da verdade e do certo, para contemplar o mar. Mais do que isso, apetece aproximar a cabeça da areia e ouvir a voz do profundo e do vasto, e deixar que se manifeste o antídoto para o veneno dos dias imparáveis.  Deste modo, se reverteria a malignidade da cronologia, no sentido destas palavras de Gilbert Durand:

“L’antidote du temps ne sera plus recherché au niveau surhumain de la transcendance et de la pureté des essences mais dans la rassurante et chaude intimité de la substance ou dans les constances rythmiques qui scandent phénomènes et accidents.” (G.D., Les Structues Anthropologiques de l'Imaginaire, Paris, Dunod, 1992.)

Da citação, destaco estas ideias: intimidade, substância, ritmo. De que modo as podemos encontar na nossa vida? Na partilha humana possível em cada jornada? Na rasura de velhas dicotomias, como aquela que separa espírito e matéria? Na atenção à língua que subjaz aos dizeres quotidianos, constituída por palavras leves, por palavras duras ou, menos que palavras, por balidos, guinchos, ritmo só? Não sei. Sei apenas que não estamos condenados ao furor, ao mal e à violência, à desarmonia. A vida floresce em toda a parte (quase), basta que a nossa imaginação não seque. E que os nossos lábios se abram num sorriso franco. E os nossos braços à dança, à beira-mar, mar adentro, onde calhar. Alma e corpo reunidos num ritmo amoroso: ondulação marinha, brisa da montanha, esvoaçar de vestidos de semana e domingueiros. E, claro, a correnteza das horas ficará muito melhor se matizada a eyeliner, bâton, blush, sombras diversas, verniz encarnado, rendada parure, e o mais que a criatividade encontrar. O prazo de validade é o limite da imaginação e da capacidade de criar máscaras. Afinal (não era Rilke que o dizia?), envelhecemos quando perdemos a capacidade de nos reinventarmos, a nós e aos outros, e não quando certas convenções o determinam. Quem diz que temos de ir ao laranjal às laranjas ou ao vale aos lírios? Porque não ao mar e às dunas? Já a cantiga popular no-lo ensina e a literatura erudita confirma: as separações e fronteiras têm a medida que as palavras mágicas quiserem...

(O vídeo encontrava-se ali, em Um Jeito Manso)