segunda-feira, 26 de março de 2012

Apetece

Às vezes apetece, hoje, por exemplo. Mário Cesariny, magnífico poeta.




XIV


hoje, dia de todos os demónios
irei ao cemitério onde repousa Sá-Carneiro
a gente às vezes esquece a dor dos outros
o trabalho dos outros o coval
dos outros


ora êste foi dos tais a quem não deram passaporte
de forma que embarcou clandestino
não tinha política tinha física
mas nem assim o passaram
e quando a coisa estava a ir a mais
tzzt... uma poção de estricnina
deu-lhe a molesa foi dormir


preferiu umas dores no lado esquerdo da alma
uns disparates com as pernas na  hora apaziguadora
herói à sua maneira recusou-se
a beber o pátrio mijo
deu a mão ao Antero, foi-se, e pronto,
desembarcou como tinha embarcado


Sem Jeito Para o Negócio



Mário Cesariny, manual de prestidigitação, Lisboa, Assírio & Alvim, 1980.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Dia Mundial da Poesia - Safo, Ana Goês e Adélia Prado

Três poemas de amor, das origens aos tempos modernos:

Safo

Ele, tu e eu (fr. 31 PLF)

Aquele parece-me igual aos deuses,
o homem que à tua frente
está sentado e escuta de perto
a tua voz suave

e o teu riso maravilhoso. Na verdade isto
põe-me o coração a palpitar no peito.
Pois quando te olho num relance, já  não
consigo falar:

a língua se me quebrou e um subtil
fogo de imediato se pôs a correr debaixo da pele;
não vejo nada com os olhos, zunem-me
os ouvidos;

o suor escorre-me do corpo e o tremor
me toma toda. Fico mais verde do que a relva
e tenho a impressão de que por pouco
que não morro.

Frederico Lourenço (org, trad. e notas), Poesia Grega: de Álcman a Teócrito, Lisboa, Cotovia, 2006.


Ana Goês

Convida-me só para jantar

E não queiras depois fazer amor.
Convida-me só para jantar
num restaurante sossegado
numa mesa de canto
e fala devagar
e fala devagar
eu quero comer uma sopa quente
não quero comer mariscos
os mariscos atravancam-me o prato
e estou cansada para os afastar
fala assim devagar
devagar
não é preciso dizeres que sou bonita
mas não me fales de economia e de política
fala assim devagar
devagar
deita-me o vinho devagar
quando o meu copo estiver vazio.
Estou convalescente
sou convalescente
não é preciso que o percebas
mas por favor não faças força em mim.
Fala, estás-me a dar de jantar
estás-me a pôr recostada à almofada
estás-me a fazer sorrir ao longe
fala assim devagar
devagar
devagar


Adélia Prado

A meio pau

Queria mais um amor. Escrevi cartas,
remeti pelo correio a copa de uma árvore,
pardais comendo no pé um mamão maduro
- coisa que não dou a qualquer pessoa -
e mais que tudo, taquicardias,
um jeito de pensar com a boca fechada,
os olhos tramando um gosto.
Em vão.
Meu bem não leu, não escreveu,
não disse essa boca é minha.
Outro dia perguntei a meu coração:
o que o que há durão, mal de chagas te comeu?
Não, disse ele: é desprezo de amor.

Vasco Graça Moura, 366 poemas de amor (antologia), Lisboa, Quetzal, 2003.





domingo, 18 de março de 2012

Cá em casa, domingo também é dia de envelopes


Entre a pausa e a fuga, deslocação à estante envidraçada para descansar os olhos. Um livro de Eugénio de Andrade, poeta de primeiríssima água, estranhamente ausente deste blogue, um poema muito bonito, e sugestivo:


A Estante (pormenor)



VER CLARO

Toda a poesia é luminosa, até
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.


Eugénio de Andrade, Os sulcos da sede, Vila Nova de Famalicão, Quasi/Fundação Eugénio de Andrade, 2007. 

sexta-feira, 16 de março de 2012

"femina, feminae" ou o espelho da Górgona


Louis Welden Hawkins, Eventail sur fond or, 1905



JUDITE, DULCE, LAVÍNIA E OUTRAS

A António Feijó


Judite, a que possui
Trança mole e dourada como o azeite;
Dulce, a doce; Lavínia, a hostil e cor de leite,
De quem um escravo fui;
Violante, desespero do marfim
E glória das trigueiras,
Linda e maldosa como um jardim
Rodeado de silveiras;
Maria, a pura como um lírio de altar;
Lia, a de tranças de silvestre aroma,
E Guiomar, a embriagante Guiomar,
Viciosa como a imperatriz Teodora,
Tods elas, todas! eu quisera amar,
Todas elas, todas! eu quisera ter!
Amá-las de fugida,
Amá-las de partida,
Prendendo-as sem me prender...
Quisera amá-las
Como o rio ama as flor's da margem debruçadas:
Vê-las, beijá-las, abraçá-las,
Embalsamar-me em suas bocas perfumadas
Dum perfume sem par,
Prendendo-as sem me prender,
E abalando como o rio para o mar,
P'ra nunca mais as ver...



Eugénio de Castro, Obras Poéticas I - Oaristos, Horas, Silva, Lisboa, Parceria A. M. Pereira, 1968 (in Paula Morão, Salomé e outros mitos: o feminino perverso m poetas portugueses entre o fim-de-século e Orpheu - ensaio e antologia, Lisboa, Cosmos, 2000.)

quinta-feira, 15 de março de 2012

A barca de ir, com golfinho azul


(... ou de como passar para além da espuma dos dias e da salsugem...)

Procurar a arte, ler os melhores livros; ouvir atentamente ___________ certo Menino pedia um comprimido de cultura para... (deviam ser de distribuição universal e gratuita, nos sítios de labor)




Ana San Filippo


"[...] Se desejo viver livre, é por enquanto necessário que o faça no interior desses moldes [da sociedade]. Sei que o mundo é mais forte do que eu. E para resistir ao seu poder só me tenho a mim. O que já não é pouco. Se o número não me esmagar, sou, também eu, um poder. E enquanto me for possível empurrar as palavras contra a força do mundo, esse poder será tremendo, pois quem constrói prisões expressa-se sempre pior do que quem se bate pela liberdade. E no dia em que só o silêncio me restar como defesa, então será ilimitado, pois gume algum pode fender o silêncio vivo.
É este o meu único consolo. Sei que as recaídas no desespero serão profundas e numerosas, mas a lembrança do milagre da libertação leva-me como uma asa a um fim que me inebria: um consolo que seja mais do que apenas isso, e mais vasto que uma filosofia: que seja, enfim, uma razão de viver."

Stig Dagerman, A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer, Lisboa, Fenda, 1992.



E também lava a alma ouvir música excelente. Aqui, leitores, Caetano Veloso no seu melhor, ou de como odeio se faz doce:
 
 

Caetano Veloso, "Odeio"


(Parece que a chuvinha também veio dar uma ajuda. Foram as rezas, as danças, ou tão só a atmosfera com seus fenómenos? Outra hipótese? Essa não se diz, que lembra logo ppc c mr pit t pr patati patatá & Cª. Abrenúncio!)

quarta-feira, 14 de março de 2012

Diário de Maria Amélia IV

Hoje, sem palavras de sua lavra, traz uma imagem e um poema sugestivos, encontrados por aí, nos caminhos evasivos. No seu espírito, apenas uma pergunta: Como foi possível chegarmos aqui?




Errata

Onde se lê Deus deve ler-se morte.
Onde se lê poesia deve ler-se nada.
Onde se lê literatura deve ler-se o quê?
Onde se lê eu deve ler-se morte.

Onde se lê amor deve ler-se Inês.
Onde se lê gato deve ler-se Barnabé.
Onde se lê amizade deve ler-se amizade.

Onde se lê taberna deve ler-se salvação.
Onde se lê taberna deve ler-se perdição.
Onde se lê mundo deve ler-se tirem-me daqui.

Onde se lê Manuel de Freitas deve ser
com certeza um sítio muito triste.


Manuel de Freitas, A última porta

quinta-feira, 8 de março de 2012

Let's dance

Hoje, Dia Internacional da Mulher - Paula Rego e as suas mulheres, belas, terríveis, inquietantes...



Paula Rego, Getting Ready for the Ball, 2001-02

quarta-feira, 7 de março de 2012

"Sentada no seu último lugar deste mundo"

"Sentada no seu último lugar deste mundo, ela, cada vez mais invertebrada e esquecida, pensou Samarcanda."

internet [?]

(A citação é de Maria Judite de Carvalho, "Aeroporto" in Além do Quadro, Lisboa, Projornal, 1983. - Maria Judite de Carvalho, ou a tragédia do quotidiano, "latente triste".)

Mário de Sá-Carneiro

Mário de Sá-Carneiro foi o poeta mais amado...
(Ai, a saudade, tanta.)



Epígrafe

A sala do castelo é deserta e espelhada.

Tenho medo de Mim. Quem sou? De onde cheguei?...
Aqui, tudo já foi... Em sombra estlizada,
A cor morreu - e até o ar é uma ruína...
Vem de Outro tempo a luz que me ilumina -
Um som opaco me dilui em Rei...


Mário de Sá-Carneiro, Poesias, Lisboa, Ática, 1989.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Uma chávena de chá?

Uma pausa nas letras...


Hiroshige



Wenceslau de Morais (1854-1929)

"O chá japonês, servido invariavelmente sem leite e sem açucar, que lhe prejudicariam o aroma, é a bebida mais suavemente agradável que possa oferecer-se ao nosso paladar (não de todos porém, mas um paladar sentimental, um tanto sonhador... que nisto dos nossos órgãos de sentir há temperamentos, aptidões, afectivas características...). O guyokuró, por exemplo, que é o mais celebrado chá de Uji e de todo o Japão, instila tais subtilezas balsâmicas de sabor, que mais parece um perfume; poderia dizer-se que uma maravilhosa alquimia conseguiu liquefazer os aromas das flores - flores dos jardins, flores silvestres -, transferindo o olfacto ao paladar a impressão do gozo. Assim é o guyokuró; claro está que as palavras não podem traduzir senão por comparação as emoções sentidas; e esta, a do agridoce deliciosíssimo que nos fica nos lábios, persistindo, como na memória persiste uma reminiscência, uma saudade, é incomparável...
O chá japonês tem a virtude de mitigar a sede. Assim se explica o hábito dos japoneses não beberem água; mesmo na força dos calores de Agosto, a chávena de chá, saboreada a goles, lhes dá pleno consolo. Aponta-se-lhe mais outros condões: excita ligeiramente o organismo, combate o cansaço das vigílias, predispõe ao bem-estar, infiltra no cérebro não sei que subtil embriaguez, lúcida todavia, que nos torna mais afectivos às sensações de agrado e mais aptos às elaborações do pensamento."


Wenceslau de Morais, O Culto do Chá, Lisboa, Relógio d'Água, 2008.

[Só tenho Gorreana, pode ser?]

sábado, 3 de março de 2012

Estudar Fernando Pessoa


A Arca, no Arquivo Pessoa


Os alunos têm muitos meios para estudarem as matérias leccionadas na escola. O Portal MultiPessoa e o Arquivo Pessoa (base de dados), por exemplo, são óptimos para quem está a trabalhar a obra de Fernando Pessoa.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Esconjuro - Contra os maridos transviados


Deus te salve, Sol divino!
Tu corres o mundo inteiro;
Viste lá o meu marido,
Viste lá o meu marido?

Se tu o viste, não mo negues,
Não mo negues, não negues, não.

Esses raios que vens deitando,
Ao teu nascimento,
Sejam dores e facadas
Que atravessem o seu coração.

Que ele por mim endoideça,
Que ele não possa comer, nem beber,
Nem andar, nem amar,
Nem com outra mulher falar,
Nem em casa particular!

Todas as mulheres que ele veja
Lhe pareçam cabras negras
E bichas feias.

Só eu lhe pareça bem no meio delas,
Só eu lhe pareça bem no meio delas.

Cancioneiro Popular Português
[folha volante, encontrada por acaso entre papéis]