sexta-feira, 29 de junho de 2012

Espaços interditos

[Poemas a uma ausência]

O ESPAÇO

O espaço que vai
das mãos
ao cimo dos meus joelhos

Das tuas mãos
aos meus lábios

Dos teus lábios
aos meus seios



OS PULSOS

Os pulsos

São os pulsos que se esquecem
guardando das mãos
os movimentos

poços fechados também
do pensamento
onde se perdem os dedos da paixão

Piscinas não de sangue
mas ternura
onde deixamos a boca mergulhada

Se neles cravamos com doçura
os dentes    sem febre    nem vergasta
logo no corpo se acende esta loucura

onde os pulsos bebem
sugam
e devastam


Maria Teresa Horta, As palavras do corpo: antologia de poesia erótica, Lisboa, Dom Quixote, 2012.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

The day after




Sem perder o glamour, a leitora dedica-se às lides domésticas. Fá-lo por necessidade, já que la femme de ménage partiu para os cofres do estado. Arrumar uma casa, depois de semanas de intenso trabalho, não é apenas cansaço e obrigação, também é o reencontro com os objectos emocionalmente significativos; é, no fundo, uma forma de (re)vificar o espaço e de retomar o próprio lugar (no sentido do famoso ensaio de Virginia Woolf: A room of one's own?).
Assim se renova a vida, poderíamos dizer.

terça-feira, 12 de junho de 2012

A Leitora em estado de harmonia

Entregue o último papel da série, a leitora imagina que a seguir virá a harmonia.


(da net)

[O prazer do texto, amanhã. Desejos, quem os não tem?]

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Amanhã [...]


Animal Library Oaxaca Mexico



[Finda a tarefa colossal, poderá a leitora dedicar-se agora aos livros? Não, ainda faltam as artes críticas. O resto. Só no limiar do Verão haverá tempo e espaço mental para o deleite.]

terça-feira, 5 de junho de 2012

Encontros para lá do espelho


OS PRIMEIROS ENCONTROS

Cada momento passado juntos
Era uma celebração, uma Epifania,
Nós os dois sozinhos no mundo.
Tu, tão audaz, mais leve que uma asa,
Descias numa vertigem a escada
a dois e dois, arrastando-me
Através dos húmidos lilases, aos teus domínios
Do outro lado, passando o espelho.


Arsenii Tarkovskii, 8 Ícones, Lisboa, Assírio & Alvim, 1987 (col. Gato Maltês/17). 

A estranha ausência do Adeus


DURANTE UM EXERCÍCIO DE FILOSOFIA



Para a Beatriz Vieira


Estou aqui sentado na cadeira que
me cabe como professor, a secretária, o estrado
o negro quadro com restos de giz e marcas de
apagador. A ardósia coberta de falhas, pequenas
feridas nas horas de aprendizagem.
Os alunos aí estão à minha frente, quietos e presos
à rapidez da sua escrita ou à
lentidão que faz de outros a extrema hesitação.

[...]

Mas os meus alunos vêm quase todos embrulhados
em kispos, em coisas pardas e tudo sempre se
passa num tom neutro, pedagógico
até que chegue a hora de nos irmos: eu para
viver, eles para viverem e todos para morrer
e como na
Apologia nenhum de nós saberá quem tem
a melhor sorte. Ninguém, excepto
o deus.



João Miguel Fernandes Jorge, A Jornada de Cristóvão de Távora – Segunda Parte, Lisboa, Presença, 1988.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Coisas que fazem mal aos olhos


"Coisas que fazem mal aos olhos

O seguinte faz mal aos olhos. Choro, fome, jejum, vinho velho, cerveja nova, turva, especialmente de centeio, demasiado macerada. Toda a embriaguez e excesso. Todo o legume, leite, queijo, e tudo o que for salgado, em fumigação ou estupefaciente, como a papoila, etc. Sono demasiado depois das refeições e vigílias imoderadas. Canto em demasia e coito frequente. Olhar em demasia para objectos brancos e luminosos. Também faz mal a flebotomia frequente e ilícita."


"Pedro Hispano" in Clara Crabbé Rocha, A caneta que escreve e a que prescreve: Doença e medicina na literatura portuguesa, Lisboa, Verbo (Babel), 2011.


[A espinhosa tarefa também não ajuda.]