domingo, 29 de julho de 2012

Pelas estradas de Portugal


Andava a ler certa autobiografia, quando se lembrou de M. S. Lourenço. Releituras, atenção aos sublinhados, até chegar a este ensaio há muito esquecido, mas muito apropriado à época, à saison, bem como ao tal romance autobiográfico:


À sombra das acácias em flor


Pela Estrada de Sintra as acácias e as mimosas estão em flor, de modo que a abjecção de que a primitiva estrada foi vítima torna-se, às vezes, tolerável concentrando a atenção nos cachos amarelos. Algumas acácias são suficientemente altas e cheias para darem sombra e debaixo delas sentam-se, ou já do outro lado da Estrada deitam-se, as prostitutas do Cacém. A Estrada de Sintra entrou para o Parnaso pelas mãos de Eça e de Ramalho, quando nela situaram o seu romance gótico O Mistério da Estrada de Sintra, e em Os Maias a Estrada torna-se um símbolo da angústia de Carlos à procura de Maria Eduarda, enquanto que no poema de Álvaro de Campos "Ao volante do Chevrolet pela Estrada de Cintra" num símbolo da angústia de Campos à procura de si próprio. Hoje, sem aura e sem coroa, a Estrada de Sintra deixou de poder ser um símbolo: mas à sombra das acácias em flor as prostitutas do Cacém evocam-nos, numa distorção patética, a luz da Arcádia perdida. (p. 159)

As prostitutas do Cacém estão distribuídas por dois grupos de idade, as mais novas à volta dos vinte anos e as mais maduras depois dos trinta. Ambos os grupos têm uma muito reduzida percepção da moda, uma percepção que é em parte limitada pelas suas exíguas economias familiares e, também em parte, pela sua incultura: mas não deixam em todo o caso de fazer um pequeno esforço para pelo menos sugerir que conhecem o dernier cri, mesmo que este seja posto numa versão mais primitiva. Para mim o mais extraordinário na sua toilette é a completa ausência de inuendos sexuais, de alusões subtis ou manifestas ao acto de amor e a tal ponto que, a julgar apenas pela sua toilette e pelo estilo em que o cabelo é arranjado, ter-se-ia forçosamente a impressão de que quatro empregadas do serviço doméstico estão à espera de automóvel que as transporte ao seu local de trabalho. (p. 164)


M. S. Lourenço, Os Degraus do Parnaso, Lisboa, Assírio & Alvim, 2002.


segunda-feira, 23 de julho de 2012

quinta-feira, 19 de julho de 2012

O esplendor do corpo



José Rodrigues
Desenho incluído no livro
Luísa Dacosta, Corpo Recusado, Porto, Figueirinhas, 1985.


[Ao olhar para este corpo, alguém pensaria em gânglios, quistos e outros que tais?]

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Vanitas vanitatum et omnia vanitas


Jean Cousin, O Velho, Eva Prima Pandora (c. 1550) 


Ao espelho

E de repente chegas aos
quarenta e tal anos

 e palavras como colesterol
hipertensão astigmatismo

começam a invadir a tua
vida... Olhas para trás e

o que vês? Uma pomba
com uma das asas ferida

condenada ao mais terrí-
vel pedestrianismo


Jorge Sousa Braga

in Clara Rocha, A caneta que escreve e a que prescreve: doença e medicina na literatura portuguesa (Antologia), Lisboa, Verbo, 2012.


Ainda não quarenta e tal, mas quase. De repente, aquela imagem no globo, como um ferro em brasa; de repente, ali estavam as longas asas da garça, partidas.

Agora era tempo de sensatez e de aprender com os exemplos. Era tempo de abrir a porta a outro léxico: análises, astigmatismo, colesterol, tiróide, mamografia, radiografia, citologia, estatística, probabilidade, exames, prevenção... e mais lexemas impossíveis de fixar.

[Acho melhor voltar ao espelho da Bela, onde voam, gráceis, as aves do paraíso.]

terça-feira, 10 de julho de 2012

Poemas a uma promessa de Verão


Audrey Hepburn
(Google Images) 



Um dia acorda-se e o abismo é berço,
E o diabo mais do que um irmão.
Todo o desvio tem o seu preço.


Luiza Neto Jorge, Poesia, Lisboa, Assírio e Alvim, 2001.


AINDA A POESIA

A poesia não é feita por um nem por todos,
nem esteve nunca na rua.
A poesia está na aspereza das coisas contra nós,
tão mais nítidas ao nosso olhar isento
quanto mais doem no coração silencioso.


Luís Filipe Castro Mendes, Lendas da Índia, Lisboa, D. Quixote, 2011.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Anjo da guarda


Santo Anjo do Senhor,
meu zeloso guardador,
pois a ti me confiou
a piedade divina
sempre me rege,
guarda, governa e ilumina.


[Palavras antigas]

palavra a palavra

Marco Polo descreve uma ponte, pedra a pedra.
- Mas qual é a pedra que sustém a ponte? - pergunta Kublai Kan.
- A ponte não é sustida por esta ou por aquela pedra - responde Marco, - mas sim pela linha do arco que elas formam.
Kublai Kan permanece silencioso, reflectindo. Depois acrescenta: - Porque me falas das pedras? É só o arco que me importa.
Polo responde: - Sem pedras não há arco.


Italo Calvino, As cidades invisíveis, Lisboa, Teorema, 1994.

domingo, 1 de julho de 2012

Da nudez



Helmut Newton, "They are coming"
(Díptico publicado na Vogue, em Novembro de 1981)

Sobre estas fotografias e sobre a nudez, escreve Giorgio Agamben:

"O efeito singular produzido pelo díptico é que as duas imagens são, contra todas as aparências, iguais. As modelos envergam a sua nudez exactamente como, na página ao lado, envergam as suas roupas. Embora não seja verosímil atribuir-se ao fotógrafo uma intenção teológica, o certo é que o dispositivo nudez/veste parece ser aqui evocado e, talvez inconscientemente, posto em questão. [...] E a equivalência entre as duas imagens é ainda aumentada pelo rosto das modelos, que, como convém a rostos de manequins, exprime a mesma indiferença entre as fotografias. O rosto que, nas figurações pictóricas da queda, é o lugar em que o artista manifesta a dor, a vergonha e o pavor dos caídos (pense-se, para citarmos apenas um exemplo entre todos, no fresco de Masaccio na Cappella Brancacci, em Florença), adquire aqui a mesma inexpressividade gélida, já não é rosto.
Seja como for, é um aspecto essencial que [...] a nudez não tenha tido lugar. É como se a corporeidade nua e a natureza caída, que funcionavam como pressuposto teológico da veste, tivessem sido ambas eliminadas e o desnudamento já nada tivesse, por isso, a desvelar. Há somente a veste da moda, isto é um indecidível de carne e pano, de natureza e de graça. A moda é a herdeira profana da teologia da veste, a secularização mercantil da condição edénica pré-lapsária."

Giorgio Agamben, "Nudez" in Nudez, Lisboa, Relógio d'Água, 2010.


[E se as modelos, na primeira fotografia, estivessem descalças e sem depilação? Por que razão o fotógrafo não pôde dispensar os sapatos?]

...não sei como dizer-te...

A páginas tantas, um verso magnífico, de Herberto Helder:


Não sei como dizer-te que a minha voz te procura