sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Leituras transversais


Nem a propósito, saiu este mês um estudo muito interessante sobre as criadas:
 
Inês Brasão, O tempo das criadas: a condição servil em portugal (1940-1970), Lisboa, Tinta da China, 2012.
 
Lê-se na introdução: "Rica em metáforas políticas sobre a definição do valor de um indivíduo a partir do seu lugar de nascimento, a criada da casa era julgada pela desobediência, preguiça, sujidade e mania, para referir apenas os atributos mais incisivos. Com uma violência simbólica acrescida, dois exemplos negativos de mulheres apareciam associados com frequência: o da mulher "tolerada" e o da "criada de servir"."
 
(Lembrei-me de um romance autobiográfico lido no início do verão. Estão lá. Falava-se delas, mas com tal distância e desconhecimento, que impressionava.)

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Linguagem (Eu/Tu)


"É na e pela linguagem que o homem se constitui como sujeito; porque só a linguagem funda realmente na sua realidade, que é a do ser, o conceito de «ego»."
 
"A consciência de si só é possível se se tomar conhecimento de si por contraste. Eu só utilizo eu ao dirigir-me a alguém, que na minha alocução será um tu. É esta condição de diálogo que é constitutiva da pessoa, pois implica que, reciprocamente, eu me torne tu na alocução daquele que por sua vez se designa por eu. [...] A linguagem só é possível porque cada locutor se coloca como sujeito remetendo para si mesmo, como eu, no seu discurso. Por isso, eu instituo uma outra pessoa, aquela que, por muito exterior que  seja a «mim», se torna o meu eco ao qual digo tu e que me diz tu."
 
 
Émile Benveniste, O Homem na Linguagem, Lisboa, Arcádia, 1978.

domingo, 26 de agosto de 2012

Nova Iorque


 Fritz Lang, Metropolis (1927)
 
 
New York, New York
(versão da famosa canção de Frank Sinatra, no filme de Steve McQueen, Shame - 2011) 
 
 
 
Lê-se no Púlico 2, de hoje, na crónica de Paulo Varela Gomes:
 
"Poucos portugueses da chamada classe média têm hoje oportunidade de viajar até Nova Iorque e as pinturas de que me ocupo aqui, embora amplamente ilustradas na internet, ganham em ser vistas no local porque são obras de grande dimensão. Paciência." (PVG, "Cartas de Ver: O fim da História")
 
Sem paciência, só impotência, lemos estas verdades, tanto mais incomodativas quanto Nova Iorque não é apenas uma cidade onde estão museus e obras de arte fantásticas. Nova Iorque é a cidade, símbolo da realização humana, da diversidade, e lugar onde toda a imaginação é possível.
Os espaços urbanos, a metrópole em particular, sempre foram lugares de liberdade e de amplificação do convívio e das potencialidades do homem, apesar das suas misérias e contradições; agora esta expansão está vedada a um número crescente de pessoas. Involuímos. Aqui estamos, condenados à tacanhez, à pequenez, a sermos "pobretes e alegretes", a regressarmos à velha casa de família, lá, "na aldeia mais portuguesa de portugal".
 
 
(yeaak)*
 
 
 
* trad.: vómito
 

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Da gentileza

 



Não sou dos que guardam
sentimentos de rancor. Tenho
uma alma gentil.


Safo
 
 
Albano Martins; O essencial de Alceu e Safo, Lisboa, INCM, 1986.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

da identidade e outras aproximações


Jean Sibelius

O calor abrasa, a letargia reflexiva instala-se. No regaço do Verão, manifesta-se uma nova ordem mental e uma vontade de mergulhar nas mais diversas águas: no mar, nos livros, nas vozes de ontem e de sempre, nos ritmos naturais, em toda a matéria que nos constitui, a nós e à natureza. As elevadas temperaturas parece que fundem os contrários, apaziguando a percepção da identidade.
Quem sou eu? - essa pergunta essencial - já não origina a fragmentação, mas sim a reunião do diverso: sou a voz da poesia, da manselinha voz, à voz viúva, grácil, que se exila na escuridão tranquila; sou a voz do vento que desfolha mágoas; sou a arrebatadora voz do mar que me leva para os longes; sou o eco sedutor, sou a respiração da terra. Sou a serenata que embala. Sou esta que aqui vem regularmente e sou a outra, a do corpo de afectos e de sangue, sou um nó rítmico, ponto de confluência do cosmos e da ínfima célula, e também de bits, já agora.


sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Temperamentos



Albrecht Durer, Melancolia (1514)


Às vezes não é uma questão de a vida ser boa ou má, é somente uma questão de temperamento. Uns são mais introspectivos e pessimistas, outros mais alegres e abertos ao exterior. Não temos de ser todos positivos, dinâmicos, sociáveis, pelo menos não sempre. A uns quantos coube em sorte esticarem o sofrimento para lá do razoável e gostarem de contemplar o lado escuro dos dias. Que fazer? Esperemos que também possam ver a plena luz do sol e deliciarem-se com isso, mesmo que precisem de um empurrãozinho ou de umas palavras amigas.


Os antigos, que reconheciam a continuidade existente entre o espírito e a matéria, o corpo, a natureza e o cosmos, desenvolveram a doutrina dos quatro humores, que evoluiu para doutrina dos quatro temperamentos, de que se apresenta uma brevíssima síntese nos dois quadros seguintes. Assinale-se que desde cedo as várias designações de temperamentos conheceram significações distintas, pois tanto podiam indicar estados patológicos, como meras aptidões constitutivas dos indivíduos.


   
Temperamento

 Elemento

 Temperatura

 Fluído

 Corpo

 Estação

 Colérico

 fogo

 quente e seco

 bílis amarela

 fígado

 Verão

 Sanguíneo

 ar

 quente e húmido

 sangue

 coração

 Primavera

 Fleumático

 água

 frio e húmido

 fleuma (linfa)

 vasos linfáticos e gânglios

 Inverno

 Melancólico

 terra

 frio e seco

 bílis negra

 baço

 Outono



Temperamento

Planeta

Características

Colérico

Marte

Irascível e impetuoso, ardente, rápido

Sanguíneo

Júpiter

Dado ao convívio e à sociabilidade, sedutor, alegre

Fleumático

Vénus (lua)

Preguiçoso, tímido, sem rancores, calmo

Melancólico

Saturno

Triste, solitário, controlado, capacidade de entrega e dedicação



O termo Melancolia tanto designava uma doença como uma maneira de ser, actualmente prefere-se falar de Depressão quando se trata de uma situação patológica, mas o significado ambíguo não mudou. Ontem como hoje, aconselhava-se o médico a lutar contra a natureza desconfiada do melancólico, a moderar o seu furor e a lembrá-lo das coisas que amava; sugeria-se um discurso sensato e agradável; o consumo de vinhos perfumados, claros e leves, o convívio com a música e outras artes, a companhia dos amigos eram igualmente considerados benéficos; o melancólico devia, também, evitar as tensões mentais, mas a actividade sexual era recomendada, ainda que com moderação. Claro está que a linha agressiva não esteve ausente das tentativas de curar estes seres; de facto, os medicamentos, as purgas, sangrias e flagelações não foram esquecidos. Nos alvores do século XXI, continuamos a ver receituários de ansiolíticos e antidepressivos ou prescrições de actividade física e deleitosa, a par do aconselhamento de acções com vista ao conhecimento e aceitação de si e do mundo. Ler e escrever blogues será também um remédio...

Tendo em vista o tratamento da depressão e da ansiedade, ou tão só do cansaço de viver, recordam-se dois livros de medicina, que não se incluem nos ditos "livros de auto-ajuda":

- Frida Ergas, Viver sem stress, com o método sofrológico, Lisboa, Europa América, 2001.

- David Servan-Schreiber, Guérir le stress, l'anxiété et la dépression sans médicaments ni psychanalyse, Paris, Robert Laffont, 2003.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Memórias de infância





Dedo maminho,
seu vizinho,
pai-de-todos,
fura-bolos,
mata-piolhos.

Que é do toucinho que estava aqui?
Comeu o rato.
Rato, ratinho, rato, ratinho, ratão.


(Ver também aqui.)

domingo, 12 de agosto de 2012

Corpo e tempo / O tempo, esse grande escultor


José Rodrigues, O sentimento trágico da vida, Porto, Asa, 2003
(textos de vários artistas e intelectuais e desenhos de José Rodrigues)


Em época estival, mas já não ao sol, eis que surge a reflexão sobre o tempo e o corpo. É um dos veios da melancolia, um tópico literário por excelência, mas é também uma preocupação quotidiana, seja a nível pessoal e íntimo, seja a nível da adequação aos códigos sociais. Haverá algum aspecto da vida mais marcado estética e socialmente do que o modo como o corpo de cada um se apresenta ao próprio e aos outros, nas várias circunstâncias e idades? De facto, o mais pequeno desvio às regras estabelecidas introduz, de imediato, o sentido de ridículo e de subversão, acompanhado de censura ou de condescendência, que serão formas de resistir à mudança, isto é, à morte.
Vejamos, por exemplo, o que se vai observando nas familiares praias portuguesas; penso sobretudo nas praias do Oeste. Se há trinta ou quarenta anos a maior parte das senhoras ainda só usava fato de banho, para não falar daquelas que não se despiam, limitando-se a um pudico levantar de saias à beira-mar, hoje vemos a generalizada afirmação do bikini. Não importa a idade nem a forma dos corpos, sejam as peles flácidas ou firmes, sejam as cinturas esbeltas ou envoltas em camadas de gordura, sejam os ventres proeminentes, lisos ou rasgados por cicatrizes de cesarianas ou de histerectomias, sejam os seios harmoniosos ou em farta queda, as mulheres estendem-se sobre a areia, caminham pela praia, banham-se, indiferentes à vergonha do passado. Por vezes, podemos pensar que o gosto deveria ser um pouco mais requintado, mas o sentimento predominante é de que a mulher portuguesa está em processo de libertação, o que, naturalmente, significa a morte de um certo mundo ancestral, de matriz rural, acompanhada de alguma estranheza.
Primeiro foram os emigrantes a trazerem os novos hábitos, agora as netas das recatadas aldeãs já não se distinguem das estrangeiras, a não ser pelas cores morenas, resplandecentes ao sol de Agosto. Talvez o topless seja a última fronteira...
E as avós? Olharão com tolerância para estes corpos jovens e esplendorosos, sentindo-os como um prolongamento de si e do seu próprio viço? Ou desnudar-se-ão para lá das suas filhas, entregando-se sem reservas ao Sol e à beleza que há em estarem, estarmos, vivas, apesar dos golpes do tempo?

[Queria desenvolver o meu texto a partir da conhecida passagem da primeira epístola de S. Pedro, mas o tempo levou-me para a praia. Todavia, aqui fica a citação bíblica: "porque toda a carne é como erva e toda a sua glória como flor de erva, erva que seca e flor que cai"]

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Ao Sol II


 
Ressurgiremos


Ressurgiremos ainda sob os muros de Cnossos
E em Delphos centro do mundo
Ressurgiremos ainda na dura luz de Creta

Ressurgiremos ali onde as palavras
São o nome das coisas
E onde são claros e vivos os contornos
Na aguda luz de Creta

Ressurgiremos ali onde pedra estrela e tempo
São o reino do homem
Ressurgiremos para olhar para a terra de frente
Na luz limpa de Creta

Pois convém tornar claro o coração do homem
E erguer a negra exatidão da cruz
Na luz branca de Creta


Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto, Edições Salamandra, 1985.


[Poema sugerido por P. M.]


quarta-feira, 1 de agosto de 2012

A festa das visitas

 [Hoje foi dia de visitas ternas.]


As águas manselinhas e acarinhadas, anunciam marés de mar e beijinhos. Talvez eu acabe o meu colar.


Luísa Dacosta, Morrer a Ocidente, Porto, Figueirinhas, 1990.


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