segunda-feira, 29 de outubro de 2012

sábado, 20 de outubro de 2012

Basta olhar, ouvir, ler (inclusive os programas de Português)

Mário de Carvalho,  em entrevista ao Jornal de Letras (nº 1097, de 17 a 30 de outubro de 2012) - Maria Leonor Nunes, "Mário de Carvalho: A batalha das palavras":

"As pessoas perderam a distância crítica, o sentido da comparação, da ironia, da metáfora, a dimensão das palavras, da sombra que projetam. Não sei se perderam, se lhes foi roubado."
 
"Estou convencido de que não é inocente o que se tem feito. Quando amputamos durante anos, no Secundário, o conhecimento da História e dos nossos textos clássicos, estamos a retirar capacidade de compreensão da língua e até a empobrecer o contexto. Porque os pensamentos, os conceitos fazem-se com palavras. Quanto menor for o domínio vocabular, menos acesso temos à realidade e ao pensamento. E há quem esteja interessado nisso. Nos primeiros tempos de Salazar, os professores, na sua maioria republicanos, foram substituídos por regentes escolares, que ensinavam a ler, escrever e contar e, na verdade, pensava-se que, quanto muito, era isso que os portugueses deviam saber. O que se passa agora? O consumidor precisa de ler Camões e Os Lusíadas, a mitologia? Não. Basta que conheça o vocabulário elementar que lhe permita compreender um anúncio. A pobreza, a miséria vocabular, em que estão encurralados e enclausurados os portugueses é da mesma natureza do ler, escrever e contar que Salazar entendia que bastava para o povo."

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

domingo, 14 de outubro de 2012

"A Ideia do Fim"

Maravilhosa poesia, a de Maria do Rosário Pedreira. Os três livros anteriores já os conhecia, agora debruço-me sobre o quarto, o último de Poesia Reunida (2012) - "A Ideia do Fim". Aqui deixo dois poemas da secção III:
 
 
 
Quando chegaste, eu já tinha a morte
dentro do meu sono; e só por isso não
sentia a pedra do coração nem o corpo
quase quase tão frio. Tu não notaste
 
que os corvos negros carpiam já sobre
o meu telhado - e ninguém te disse que
eu estava a morrer, porque só eu sabia
que desistir é coisa de um momento.
 
Juram, porém, que ouviste o sangue
cansar-se nas minhas veias e as larvas
estrebucharem rente à terra; e que então
afirmaste, sem dominar um grito, que o
quarto te cheirava absurdamente a flores.
 
Não me contaram se chamaste por mim,
se pela morte. Mas fui eu que acordei.
 
 
 
 
Não tenho planos, nem promessas, nem
filhos que nos convidem para almoços
de domingo - a minha ideia de família
resume-se a um retrato velho preso numa
gaveta; e do amor possível sei tão-só
 
o que li nos romances que me salvaram
da desordem quando o meu tempo
andava de ferida em cicatriz. Mas guardo
ainda muitos por estrear para essa estante
 
que ergueste no corredor como uma casa
nova. E trago portas abertas no coração:
 
se ainda não sabias, és muito bem-vindo.
 
 
Maria do Rosário Pedreira, Poesia Reunida, Lisboa, Quetzal, 2012.

A poesia, o amor e a morte

  
 
 
"a minha poesia está sempre um bocadinho associada a momentos piores da minha vida e funcionou sempre um pouco de uma forma terapêutica" (MRP)
 
 

sábado, 13 de outubro de 2012

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Vem a morte dizer-me segredos ao
ouvido. Avisa-me da dor, ou quer
levar-me mais cedo para me poupar?

 
Maria do Rosário Pedreira, Poesia Reunida, Lisboa, Quetzal, 2012.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

O esplendor de Portugal



João César Monteiro, Recordações da Casa Amarela (1989)
 
 
Que difícil dar Os Lusíadas, neste outono, quando a tropa fandanga não arreda. Onde estão a gloriosa praia, os heróis e as caravelas de outrora? Só se descortinam estes dizeres e este porto, à volta da cidade triste e do seu rio esverdeado. 

Ela não bebe, cita



 
 
 
Poema em linha reta
 
 
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
 
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
 
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…
 
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
 
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
 
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
 
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
 
 
Álvaro de Campos, Poesias, Lisboa, Ática, 1986.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Doença


"Este relato comoveu Rossetti. Troçou de Lizzie e ela sorriu para o chão. Revelava os primeiros sintomas da doença, a paixão pela arte."


Hélia Correia, Adoecer, Lisboa, Relógio d'Água, 2010.
 


sábado, 6 de outubro de 2012

Adoecer


Início da leitura de Adoecer, de Hélia Correia. Um deslumbramento.

"Gravaram os seus nomes num dos troncos. Porém a casca, resistindo, não deixou que as letras se inscrevessem limpidamente. Ficou um sofrimento vegetal, uma ferida a escorrer sobre um  borrão. Eles não repararam. Estavam antes de todos os sinais do romantismo, antes de toda a construção mental. O lodo cintilava-lhes nos fatos como cintilam coisas funerárias. Mas esses dados da melancolia não encontravam quem os entendesse. [...]"
 
 
Hélia Correia, Adoecer, Lisboa, Relógio d'Água, 2010.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

na biblioteca

 
(da net, algures, fica pelo insólito e pela oportunidade da imagem)

Leitora caída? Não, numa sessão de Pilates na Biblioteca.
...vários noticiários depois...

terça-feira, 2 de outubro de 2012

ledo engano


Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus olhos colhendo doce fruito,
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a Fortuna não deixa durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus formosos olhos nunca enxuito,
Aos montes ensinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas.


Luís de Camões, Os Lusíadas, Porto, Figueirinhas, 1978 (org. de António José Saraiva).


[Posta em sossego só porque se enganava, que a sua condição era de desassossego sem fim. Tais quimeras só a ela convenciam e às ervinhas, como se sabe.]

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Parece-me bem...

 Anacreonte

Três fragmentos deste poeta jónico, do século VI a.C.:


4- Beber de um trago (fr. 356 PMG)

Vá lá, ó rapaz, traz-me
uma taça, para que eu beba
de um trago. Põe dez medidas
de água e cinco de vinho,
para que novamente eu faça de bacante,
mas sem insolência.
Vá lá então: assim com este
barulho e com esta gritaria
não bebamos à maneira da Cítia,
mas bebamos moderadamente
no meio de belos cantos.


19- Coxas (fr. 407 PMG)

Oferece-me, meu querido,
as tuas coxas tão esbeltas.


26- Amor potável (fr. 450 PMG)

Bebendo amor.

 
 
Poesia Grega: de Álcman a Teócrito, Lisboa, Cotovia, 2006 (organização, tradução e notas de Frederico Lourenço).

A arte de amar

Ovídio oferece os seus ensinamentos a homens e mulheres, para que todos possam viver os prazeres do amor. No Livro III, dirigindo-se às damas, alerta para a veloz passagem do tempo e para a necessidade de aproveitarem o momento, irrepetível; alerta, igualmente, para a necessidade de cuidarem da beleza, que raras terão sem defeito, bem como da elegância do porte e do modo de estar. Neste ponto, assinala a vantagem de uma mulher culta, que muito ganha em conhecer os poetas: Calímaco, Anacreonte, Safo, Menandro, Propércio, Galo, Tíbulo, Varrão, Virgílio e o próprio Ovídio.
 
[Esta leitora, ciosa do conhecimento poético, assustou-se com a súbita ignorância visível no seu espelho. Aí está a borbulha da rudeza - de todos, apenas reconhece Safo, Virgílio e Ovídio!]
 
Mas a leitura prossegue, e registam-se estas avisadas palavras, especialmente úteis para as tímidas:
 
"É-vos útil a multidão, ó mulheres formosas;
conduzi muitas vezes os passos errantes para além dos vossos portais.
Muitas ovelhas procura a loba, para filar uma só presa,
e a ave de Júpiter persegue, em seu voo, muitas aves;
dê-se também a mulher formosa a ver ao povo;
de entre tantos, talvez haja um que ela seduza;
em todos os lugares deve ela permanecer, empenhada em agradar,
e entregar-se, de alma inteira, aos seus encantos.
O acaso tem a sua força em toda a parte; atira sempre o anzol;
nas águas onde menos esperas haverá peixe.
Muitas vezes, em vão vagueiam os cães por montanhas frondosas,
e cai na armadilha, sem ninguém fazer nada, o veado.
Que esperança teria Andrómeda, presa ao rochedo, menos
do que poderem as suas lágrimas encantar alguém?
É nas exéquias de um homen que se encontra, muitas vezes, um homem; ir
de cabelos desgrenhados e sem conter o pranto, eis o que fica bem."
 
Muitos outros conselhos contém este livro, interessantes todos, tanto para elas como para eles. A ler até ao fim.
 
Ovídio, A Arte de Amar, Lisboa, Cotovia, 2006 (tradução, introdução e notas de Carlos Ascenso André).