sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Mário de Sá-Carneiro

 

 
Adriana Calcanhoto canta Mário de Sá-Carneiro
 
 
Hoje uma Menina reconheceu o poema de Sá-Carneiro que a professora citava; tinha ouvido Adriana Calcanhoto cantá-lo. Aqui fica a interpretação da artista brasileira, seguida de dois poemas, já apresentados neste blogue.
 
 
 
Epígrafe

A sala do castelo é deserta e espelhada.


Tenho medo de Mim. Quem sou? De onde cheguei?...
Aqui, tudo já foi... Em sombra estlizada,
A cor morreu - e até o ar é uma ruína...
Vem de Outro tempo a luz que me ilumina -
Um som opaco me dilui em Rei...

 
Mário de Sá-Carneiro, Poesias, Lisboa, Ática, 1989.

 
  
                       7

Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio;
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.


Mário de Sá-Carneiro, Poesias, Lisboa, Ática, 1989.

 
 
[A confiança é um tecido esgarçado; a inconsistência dos fios vem da ambição desmedida e do medo. Do rasteirismo também, já agora. É pena.]

terça-feira, 27 de novembro de 2012

pinotes de não, com gin-tonic


[Em vez de palavras elogiosas, ai-ais de a menina não foi lindinha.]


(Google images)
 
 
Esparsa sua ao desconcerto do mundo
 
Os bons vi sempre passar
no mundo graves tormentos;
e, para mais m'espantar,
os maus vi sempre nadar
em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
o bem tão mal ordenado,
fui mau; mas fui castigado.
Assim que só para mim
anda o mundo concertado.
 
 
Luís de Camões, Lírica Completa I, Lisboa, INCM, 1986.
 
 
[A imagem segue muito compostinha, muito sereno-delico-doce; venha a garrafa e o bravo poeta, "ou não fosse ele O'Neill"!]
 
 
(Google Images)
 
 
O POEMA POUCO ORIGINAL DO MEDO
 
[...]
 
*
 
 
O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos
 
Sim
a ratos


Alexandre O'Neill, Poesias Completas: 1951/1986, Lisboa, INCM, 1990.

domingo, 25 de novembro de 2012

Do fim e outras acrobacias


FIM

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
E eu quero por foça ir de burro!

 
Mário de Sá-Carneiro, Poesias, Lisboa, Ática, 1989.

 


Um chá com Eliza Doolittle

 


My Fair Lady (1964)
 
 
 A leitora está uma Eliza Doolittle do chá, fascinada com os pormenores desse líquido dos deuses, muito mais desejado que a famosa ambrosia. Já sabe dizer a difícil frase: "The rain in Spain stays mainly in the plane."  Assim sendo, partilha mais algumas das informações recebidas no Museu do Oriente, já mencionado neste blogue*.
 
Dissemos atrás que o chá resultava de uma planta, a camellia sinensis, e que se agrupava em seis classes, conforme o processamento das folhas - os chás verde, branco e amarelo, manufacturados sem oxidação, o oolong, com escassa oxidação, o preto, com oxidação, e o pu-erh, por meio de fermentação. Consideremos agora alguns tipos de chá inscritos naquelas classes:
 
Chá verde
 
1- Chá pólvora - seco com calor e enrolado enquanto decorre o processo;
2- Chá Matcha - chá em pó, que se obtem por decocção; é aquele que se usa na cerimónia do chá japonesa;
3- Gyokuro - chá japonês, ao qual por vezes se chama "chá de orvalho", muito elogiado, nomeadamente por Wenceslau de Morais;
4- Sencha - chá japonês padrão;
5- Genmaicha - chá japonês, com arroz tufado;
6- Lung Ching - um dos melhores chás verdes chineses.
 
Chá amarelo
 
1- Produzido na província de Hunan, na China.
 
Chá branco
 
1- Agulhas prateadas - produzido na China.
 
Chá azul ou oolong
 
1- Tung Ting - produzido na ilha Formosa.
 
Chá preto (dito vermelho, na China)
 
1- Pettigalla - chá de Ceilão;
2- Gorreana e Porto Formoso - produzidos nos Açores;
3- Bhooteachang - produzido na Índia;
4- Darjeeling - produzido na Índia (o preferido da leitora);
5- Keemun - chá preto produzido na China (óptimo).
 
Outros (blend)
 
1- Earl Grey - chá preto com óleo essencial de bergamota;
2- Chá de jasmim - chá verde ao qual se incorpora flor de jasmim, aquando do processo de secagem;
3- Pouchong - chá entre verde e oolong, ao qual se junta rosa pouchong
4- Souchong - chá preto de folhas longas;
5- Lapsang Souchong - chá preto de folhas longas fumado.
 
 
No dia 15 de Dezembro, o Dr. Luís Mendonça de Carvalho dará um curso no Museu do Oriente, o qual, desde já, se aconselha, tanto pela qualidade das informações, como pelos dotes comunicativos e sentido de humor do professor/oficiante.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Poemas de amor II

A MEIO PAU

Queria mais um amor. Escrevi cartas,
remeti pelo correio a copa de uma árvore,
pardais comendo no pé um mamão maduro
 - as coisas que não dou a qualquer pessoa -
e mais que tudo, taquicardias,
um jeito de pensar com a boca fechada,
os olhos tramando um gosto.
Em vão.
Meu bem não leu, não escreveu,
não disse essa boca é minha.
Outro dia perguntei a meu coração:
o que que há durão, mal de chagas te comeu?
Não, ele disse: é desprezo de amor.

Adélia Prado
 
 
Vasco Graça Moura (org.), 366 poemas que falam de amor, Lisboa, Quetzal, 2003.

Poemas de amor


CANTIGA

Sozinha no bosque
Com meus pensamentos,
Calei as saudades,
Fiz trégua a tormentos.

Olhei para a lua
Que as sombras rasgava,
Nas trémulas águas
Seus raios soltava.

Naquela torrente
Que vai despedida
Encontro assustada
A imagem da vida.

Do peito em que as dores
Já iam cessar,
Revoa a tristeza
E torno a penar.

Marquesa de Alorna
 
Vasco Graça Moura (org.), 366 poemas que falam de amor, Lisboa, Quetzal, 2003.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

O Chá: de Oriente para Ocidente

Está patente no Museu do Oriente, em Lisboa, uma interessante exposição sobre o chá, desde as suas origens, na longínqua China, até à sua expansão comercial, social e cultural pelo globo. Esta mostra organiza-se em sete núcleos: “Planta do chá e respectivo cultivo”, “Bules yixing”, “Transporte e comércio”, “Porcelana chinesa de exportação associada ao chá e outros utensílios com ele relacionados (caixas e chávenas de chá em materiais exóticos)”, “O chá na China e no Japão”, "Ambientes associados ao chá (chá na Europa)”, “Serviços de chá em porcelana europeia e prataria portuguesa”.
 
 
 

Na história desta bebida e na evolução do seu consumo, destaca-se o seu papel privilegiado no convívio e nos prazeres delicados tanto das elites, como de outros quadrantes da sociedade.  De facto, se durante os séculos XVII, XVIII e XIX, o consumo de chá era um sinal de prestígio, hoje em dia tal prática democratizou-se, embora matenha ainda vestígios de requinte e de exotismo, seja pelos utensílios usados, seja pela história milenar da bebida, seja simplesmente pela beleza tranquilizadora da preparação do "chá". O prazer de uma pausa no curso dos trabalhos para receber os amigos ou para um momento a sós está acessível a todos, de uma forma simples, basta haver disponibilidade interior.
 
 
 
 
Para além dos aromas e dos sabores, também a contemplação da planta e da sua transformação é fonte de contentamento. Todo o chá consumido resulta de uma mesma planta, a Camellia sinensis (a produção açoreana - Gorreana e Porto Fomoso - é desta espécie), sendo o tipo de folhas usado e o processamento pós-colheita a determinarem a classe de chá que se irá obter: Branco, Verde (o mais comum no Oriente), Azul ou Oolong, Preto e Pu-erh (o único que passa por um processo de fermentação). Estas classes subdividem-se em tipos, que resultam dos seguintes factores: variedade do arbusto, localização geográfica, altitude, clima, solos, colheita, processamento, armazenagem, preparação da bebida e outras condicionantes idiossincráticas.
 
 

 
 
A exposição que está no Museu do Oriente apresenta várias amostras de chá, dá a conhecer a história da produção e comercialização da bebida, e ainda nos mostra os materiais usados nos utensílios de consumo: a cerâmica, a porcelana, a  prata, a  tartaruga das taças, chávenas, bules e outros ou a madeira das mesas próprias, por exemplo. Também não esquece o papel pioneiro de Portugal na divulgação deste produto no Ocidente, quer por acção dos jesuítas, quer por acção de Catarina de Bragança, que prestigiou o consumo de chá na corte inglesa, antes da duquesa de Bedford instituir o "chá das cinco" no século XIX.
 
[As informações e as imagens foram retiradas do site do Museu, do catálogo da exposição, da própria exposição, claro, e do excelente curso "Um Chá no Museu",  ministrado naquele espaço museológico por Luís Mendonça de Carvalho, director do Museu Botânico de Beja.]

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

domingo, 11 de novembro de 2012

Leituras (cont.)

A leitora andou adoentada. Seria mal do corpo, seria mal do espírito, não o sabe; o certo é que melhora a olhos vistos. Foram os comprimidos, as ampolas cogitum, os recentes raios de sol?  Tudo é possível, mas tenho para mim que foram aqueles pachos de leituras que Ela lhe aplicou.

 
O encontro com o emplastro curativo
 

Flanava pela livraria, quando:
 
- Olha esta capa, tão gira! É mesmo o teu estilo, vais gostar. Leva.




Dito e feito. O livro, de um salto, encarrapitou-se no molho e veio para casa. Tem sido aplicado com parcimónia, mas o perfume vai tomando conta da casa, do corpo, da alma. Um indefinível aroma a alfazema, rosmaninho, tomilho, uma tisana de S. Martinho, o santo da partilha, uma temperatura no coração...


Noutro tom e noutro registo, pode afirmar que este foi um dos melhores e mais interessantes romances que leu nos últimos tempos. José Riço Direitinho, do qual só tinha lido o conto "Nasci a cheirar a tomilho" (A casa do fim, 1992), é um escritor excelente, a descobrir e a ler, ler muitas vezes.

Aqui se divulga o parágrafo inicial deste livro agora reeditado pela Quetzal (a primeira edição é da Asa: 1994), seguido de um depoimento do autor ao programa Ler mais, ler melhor.

"Depois de se ter deitado com um homem, lavava-se sempre numa infusão de folhas de arruda, apanhadas ao luar, e bebia tisanas com sementes de funcho e de sargacinha-dos-montes, para que as regras não lhe faltassem. De maneira que nos dois meses seguintes à noite em que encontrou na eira uma maçaroca de milho-rei, não acreditou que estivesse grávida, mas que a ausência do sangue se devesse a qualquer desarranjo, ou a ter olhado para dentro do forno enquanto o pão crescia."

 
José Riço Direitinho, Breviário das más inclinações, Lisboa, Quetzal, 2011.
 
 

sábado, 10 de novembro de 2012

Leituras...

 



Estranho, o universo de Ana Teresa Pereira. Acabada a leitura de O Lago, é esta a impressão maior; e a lembrança do conto "The Oval Portrait", de Edgar Allan Poe.
 
Um excerto, ao acaso, quando a história ainda vai no início, e as personagens apenas em aproximação:
 
"A peça era quase incompreensível. Estivera duas horas a vaguear no nevoeiro, de olhos vendados. Talvez fosse sempre assim, mesmo depois da última representação.
Pensou nas outras peças dele. Vira uma delas representada, e comprara o texto, que podia ser lido como uma novela. As longas descrições das personagens e dos cenários.
- Ele escreve como se não soubesse o fim das suas histórias...
Passou a mão pelos olhos. Havia devoção naquele pensamento, e ela não queria sentir devoção por ninguém. Sentia-se atraída por ele, mas isso não era grave. O cabelo preto e os olhos azuis, e o sotaque irlandês, e uma certa tristeza... pensou que gostaria de ir para a cama com ele. Uma ou duas vezes. Mais seria perigoso.
Nessa noite sonhou com ele." (p. 33)
 
 
Ana Teresa Pereira, O Lago, Lisboa, Relógio d'Água, 2011.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Carta de um homem livre ao seu antigo senhor


 É conhecido o apreço da leitora por correspondência, pelo que foi uma boa surpresa encontrar a citação desta carta no blogue Âncoras e Nefelibatas e a referência a outro blogue dedicado, precisamente, à divulgação de cartas "merecedoras de uma audiência mais vasta" - Letters of Note -, do qual se transcreveu esta resposta de um homem livre ao seu antigo senhor.
 
 
 
In August of 1865, a Colonel P.H. Anderson of Big Spring, Tennessee, wrote to his former slave, Jourdon Anderson, and requested that he come back to work on his farm. Jourdon — who, since being emancipated, had moved to Ohio, found paid work, and was now supporting his family — responded spectacularly by way of the letter seen below (a letter which, according to newspapers at the time, he dictated).

Rather than quote the numerous highlights in this letter, I'll simply leave you to enjoy it. Do make sure you read to the end.

UPDATE: Head over to Kottke for a brief but lovely little update about the later years of Jourdon and family.

(Source: The Freedmen's Book; Image: A group of escaped slaves in Virginia in 1862, courtesy of the Library of Congress.)
Dayton, Ohio,

August 7, 1865

To My Old Master, Colonel P.H. Anderson, Big Spring, Tennessee

Sir: I got your letter, and was glad to find that you had not forgotten Jourdon, and that you wanted me to come back and live with you again, promising to do better for me than anybody else can. I have often felt uneasy about you. I thought the Yankees would have hung you long before this, for harboring Rebs they found at your house. I suppose they never heard about your going to Colonel Martin's to kill the Union soldier that was left by his company in their stable. Although you shot at me twice before I left you, I did not want to hear of your being hurt, and am glad you are still living. It would do me good to go back to the dear old home again, and see Miss Mary and Miss Martha and Allen, Esther, Green, and Lee. Give my love to them all, and tell them I hope we will meet in the better world, if not in this. I would have gone back to see you all when I was working in the Nashville Hospital, but one of the neighbors told me that Henry intended to shoot me if he ever got a chance.

I want to know particularly what the good chance is you propose to give me. I am doing tolerably well here. I get twenty-five dollars a month, with victuals and clothing; have a comfortable home for Mandy,—the folks call her Mrs. Anderson,—and the children—Milly, Jane, and Grundy—go to school and are learning well. The teacher says Grundy has a head for a preacher. They go to Sunday school, and Mandy and me attend church regularly. We are kindly treated. Sometimes we overhear others saying, "Them colored people were slaves" down in Tennessee. The children feel hurt when they hear such remarks; but I tell them it was no disgrace in Tennessee to belong to Colonel Anderson. Many darkeys would have been proud, as I used to be, to call you master. Now if you will write and say what wages you will give me, I will be better able to decide whether it would be to my advantage to move back again.

As to my freedom, which you say I can have, there is nothing to be gained on that score, as I got my free papers in 1864 from the Provost-Marshal-General of the Department of Nashville. Mandy says she would be afraid to go back without some proof that you were disposed to treat us justly and kindly; and we have concluded to test your sincerity by asking you to send us our wages for the time we served you. This will make us forget and forgive old scores, and rely on your justice and friendship in the future. I served you faithfully for thirty-two years, and Mandy twenty years. At twenty-five dollars a month for me, and two dollars a week for Mandy, our earnings would amount to eleven thousand six hundred and eighty dollars. Add to this the interest for the time our wages have been kept back, and deduct what you paid for our clothing, and three doctor's visits to me, and pulling a tooth for Mandy, and the balance will show what we are in justice entitled to. Please send the money by Adams's Express, in care of V. Winters, Esq., Dayton, Ohio. If you fail to pay us for faithful labors in the past, we can have little faith in your promises in the future. We trust the good Maker has opened your eyes to the wrongs which you and your fathers have done to me and my fathers, in making us toil for you for generations without recompense. Here I draw my wages every Saturday night; but in Tennessee there was never any pay-day for the negroes any more than for the horses and cows. Surely there will be a day of reckoning for those who defraud the laborer of his hire.

In answering this letter, please state if there would be any safety for my Milly and Jane, who are now grown up, and both good-looking girls. You know how it was with poor Matilda and Catherine. I would rather stay here and starve—and die, if it come to that—than have my girls brought to shame by the violence and wickedness of their young masters. You will also please state if there has been any schools opened for the colored children in your neighborhood. The great desire of my life now is to give my children an education, and have them form virtuous habits.

Say howdy to George Carter, and thank him for taking the pistol from you when you were shooting at me.

From your old servant,

Jourdon Anderson.
 

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Apologia do fracasso

T. e os seus títulos sugestivos - "Apologia do fracasso" -, a partir de José Castello, no blogue Literatura na Poltrona. Num balanço da vida, o que se destacaria: a correnteza dos êxitos ou o rosário dos fracassos? É chegada a hora do dito balanço? Stendhal sugere os cinquenta, idade a que ainda não chegou, mas a década caminha para essa fronteira...
 
Até lá, fiquemos na companhia do escritor francês:
 
" Sentei-me nos degraus de San Pietro e aí me deixei ficar uma ou duas horas com esta ideia a trabalhar-me: «Vou fazer cinquenta anos, já era tempo de me conhecer. Quem fui, quem sou eu, na verdade muito embaraçado me sinto em dizê-lo. "
 
"Quem fui eu, então? Não o sei dizer. A que amigo, por mais esclarecido que seja, me será dado perguntá-lo? Nem mesmo o senhor Fior(i) me poderia dar um parecer. A que amigo terei eu dito uma palavra sequer sobre os meus desgostos de amor?
E, dizia eu para comigo nessa manhã, o que há de singular e triste em tudo isto é que o prazer que fruí das minhas vitórias (como eu então, com a cabeça cheia de coisas militares, as designava) não equivale nem a metade do profundo infortúnio que colhi das minhas derrotas."
 
"À noite, ao regressar, bastante entediado, do serão em casa do embaixador, disse para comigo: devia começar a escrever a minha vida, talvez que quando, daqui a uns dois ou três anos, chegar ao fim, consiga saber o que fui, se alegre se triste, se um homem de espírito se um parvo, se um homem de coragem ou um medroso, e, finalmente, feliz ou infeliz, e talvez possa dar o manuscrito a ler a di Fiori.
Sorriu-me essa ideia. Pois sim, mas aquela horrível profusão de Eu e de Mim! Chega para pôr de mau humor o mais benévolo dos leitores. O Eu e o Mim acabariam por ser, com as devidas distâncias, como M. de Chateaubriand, esse rei dos egotistas.
De je mis avec mois tu fais la récidive... (1)
lembro-me deste verso todas as vezes que leio uma página sua.
É verdade que também se pode escrever, usando a terceira pessoa, ele fez, ele disse. Mas então como se há-de testemunhar o que se passa no íntimo, na alma de cada um? É sobretudo a este respeito que gostaria de saber a opinião de di Fiori."
 
 
Stendhal, Vida de Henry Brulard, Porto, Inova, s.d. (tradução de Luiza Neto Jorge e António Ramos Rosa)

As aulas e os textos

A Mensagem não empolga, mas aqui e ali surgem estes poemas, estas palavras cheias de beleza.



 
Dulce Pontes, "O Infante"
 
 
 
I
 
O INFANTE
 
Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,
 
E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se aterra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.
 
Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!
 
 
Fernando Pessoa, Mensagem, Lisboa, Ática, 1979.
 


domingo, 4 de novembro de 2012

Vox populi

Jeanloup Sieff, "Les petites dalles", 1984


- Até tens coisas giras, mas são muito velhas.
- O quê?!
- Sim. Quantos anos tem esse casaco?
- ...
- Ah! Compraste alguma coisa depois de eu nascer?
- ?!...

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

[Água morrente]


Meus olhos apagados,
Vede a agua cahir.
Das beiras dos telhados,
Cahir, sempre cahir.

Das beiras dos telhados,
Cahir, quasi morrer...
Meus olhos apagados,
E cansados de ver.

Meus olhos, afogae-vos
Na vã tristeza ambiente.
Cahi e derramae-vos
Como a agua morrente.

 
Camilo Pessanha, Clepsydra, Lisboa, Relógio d'Água, 1995 (edição crítica de Paulo Franchetti).
 
 
[A beleza, um bálsamo para estes dias cansados.]

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Dia de Finados

MEDITAÇÃO DO DUQUE DE GANDIA SOBRE A MORTE DE ISABEL DE PORTUGAL

Nunca mais
A tua face será pura e limpa e viva
Nem o teu andar como onda fugitiva
Se poderá nos passos do tempo tecer.
E nunca mais darei ao tempo a minha vida.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.
A luz da tarde mostra-me os destroços
Do teu ser. Em breve a podridão
Beberá os teus olhos e os teus ossos
Tomando a tua mão na sua mão.

Nunca mais amarei quem não possa viver
Sempre,
Porque eu amei como se fossem eternos
A glória, a luz e o brilho do teu ser,
Amei-te em verdade e transparência
E nem sequer me resta a tua ausência,
És um rosto de nojo e negação
E eu fecho os olhos para não te ver.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.

 
Sophia de Mello Breyner Andresen, Obra Poética II, Lisboa, Caminho, 1995.