domingo, 23 de dezembro de 2012

Feliz Natal!

 
A todos os Leitores d' A Matéria dos Livros desejo um Feliz Natal!
 
 
 
 "Os Magos que não chegaram a Belém", com ilustrações de Maria Mendes
in Luísa Dacosta, Natal com Aleluia

Natal (III)



 
 
Os livros são um excelente presente de natal. Que bom dá-los e recebê-los! Ainda mais quando um duende brincalhão troca as voltas, mistura os presentes e, de repente, descobrimos que comprámos um livro para oferecer ao qual faltam as cinco páginas finais (Os Anos, de Virginia Woolf). É sempre bom ler os livros antes de os ofertar... bons hábitos... evitam embaraços... Teve graça!

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Poemas de noite


o fim da noite

ela guardava os sentimentos
como um animal ferido que se agarra
à vida por de dentro

e a vai perdendo devagar
enquanto sangra e sofre
emudecendo.

então beijavas-lhe
os seus próprios gemidos, a sua
desolada liberdade, o que no seu

olhar se enevoava.
não lhe peças mais nada,
não lhe digas

mais nada, mas não deixes
que a noite tome conta dela e
dite as suas leis.



meu amor, meu quente marulhar

meu amor, meu quente marulhar das águas ancestrais,
meu alvoroço terno das manhãs, há um vaporzinho no ar,
percorro a linha fina do teu corpo, o seu desenho ainda ensonado,
e és para mim toda a realidade nesse instante.
há roupas, sim, roupas que vais vestindo, algum creme que pões,
uma cama desfeita, um leve baloiçar das árvores lá fora
e o sol de inverno a alastrar nas vinhas.

 
Vasco Graça Moura, poesia reunida, Vol. 2, Lisboa, Quetzal, 2012.

Chegada do Inverno

 
 
Primeiro aguaceiro de inverno
Meu nome será:
vagabundo
 
 
Tendo adoecido em viagem
em sonhos vagueio agora
na planície deserta
 
 
 
Matsuo Bashô, O gosto solitário do orvalho, Lisboa, Assírio & Alvim,1986. 

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Natal (II)

 
 
"Não censures nada do que é humano; tudo é bom, embora não seja bom em todo o lado, nem sempre, nem para todos."(Novalis*)
 
 

 




* Novalis, Fragmentos, Lisboa, Assírio e Alvim, 1986.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Subitamente, a voz o poema

P. M., há tantos anos, longe. Agora a sua voz na letra de um poema de Vasco Graça Moura. Muito belo.


blues da morte de amor (clicar para ouvir)
 

já ninguém morre de amor, eu uma vez
andei lá perto, estive mesmo quase,
era um tempo de humores bem sacudidos,
depressões sincopadas, bem graves, minha querida,
mas afinal não morri, como se vê, ah, não,
passava o tempo a ouvir deus e música de jazz,
emagreci bastante, mas safei-me à justa, oh yes,
ah, sim, pela noite dentro, minha querida.

a gente sopra e não atina, há um aperto
no coração, uma tensão no clarinete e
tão desgraçado o que senti, mas realmente,
mas realmente eu nunca tive jeito, ah, não,
eu nunca tive queda para kamikaze,
é tudo uma questão de swing, de swing, minha querida,
saber sair a tempo, saber sair, é claro, mas saber,
e eu não me arrependi, minha querida, ah, não, ah, sim.

há ritmos na rua que vêm de casa em casa,
ao acender das luzes, uma aqui, outra ali.
mas pode ser que o vendaval um qualquer dia venha
no lusco-fusco da canção parar à minha casa,
o que eu nunca pedi, ah, não, manda calar a gente,
minha querida, toda a gente do bairro,
e então murmurarei, a ver fugir a escala
do clarinete: — morrer ou não morrer, darling, ah, sim.







Vasco Graça Moura, in Antologia dos Sessenta Anos

sábado, 15 de dezembro de 2012

Preparação para o Natal (I)



"Como toda a gente sabe, e os meninos melhor que ninguém, o Natal é uma coisa muito velha. O que nem toda a gente sabe é que, no princípio, ele não era pai; nem era velho, e não tinha, portanto, barbas brancas. Assim, quando o menino Jesus nasceu, já todos os meninos punham o sapato na chaminé.
A única diferença era que a chaminé não tinha, como hoje, fogão de gás ou fogareiro. Depois, com o menino Jesus, veio outra diferença: também ele punha o sapatinho, que, por acaso, era uma sandália.
Isso durou pouco? Não, porque o menino Jesus só cresce e se faz homem quando os outros meninos crescem e julgam que se fazem homens. O que, e lá isso é verdade, não acontece  a toda a gente, como os meninos terão muito tempo para ver. Mas isso é já outra história, que os meninos aprenderão, sem que ninguém lhes conte."
 
 
Jorge de Sena, "Razões de o Pai Natal ter barbas brancas" in Vasco Graça Moura, As mais belas histórias de Natal - Antologia, Lisboa, Quetzal, 2008. 

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

para sempre, isto

 
Max Klinger, Sísifo (1914)


[Não compreendera os motivos da partida. "Pensava que era outra coisa; isto, não." -  dissera, como se a explicação fosse clara. Hoje o absurdo da circunstância e do seu futuro é evidente. Montanhas de "envelopes", rochedo contínuo, pedra, pedras infinitas, brita - tantas metáforas, quando "isto" bastaria.]
 

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Testes, textos e os bordados das avós

Numa passagem rápida pelos blogues habituais, lê-se o que no Um jeito manso se escreveu sobre o enxoval e os bordados da mãe e das avós, feitos com carinho e esperança. Práticas de outro tempo, que a leitora também recorda, ainda que o contexto e a "época" fossem diversos, eventualmente (o final dos anos 80 não era propício a estas delicadezas). Hoje tais formas de partilhar os afectos ou de construir o futuro parecem muito distantes. Este facto não impede que a memória dessas vivências passadas seja importante para o crescimento afectivo, pelo que os testemunhos ou os textos literários que as revelam devem ser partilhados. Foi o que a leitora fez há uns anos, no curso nocturno. No teste do Módulo I, sobre os textos autobiográficos, usou um excerto do diário de Luísa Dacosta. Foi muito apreciado.
 
Aqui fica.

"1980

Janeiro, Matosinhos

 Os malmequeres tinham os olhinhos abertos a furador e as pétalas de um cheio alto, minuciosamente, pespontado à volta. As rosas? De um coração de crivo, muito trabalhado, partia um recorte fino e sinuoso, preenchido a barras de cheio baixo que um ponto arrastado sublinhava. Nas folhas de pé cheio e bainhas assimétricas, o bordado era ainda mais requintado: uma trama axadrezada e ziguezagueante de pontos sobrepostos. Malmequeres e rosas formavam duas hastes entrelaçadas, como mãos que quisessem colher um rosto, e rodeavam um L – de Letícia? De Luz? De Luísa? A letra era almofadada e o crivo entalhava-se-lhe no corpo e na volta, que terminava em volutas, texturadas e nosinhos minúsculos. Uma bainha aberta, larga, geometrizada a bastidor, e quase musical, fazia-lhe uma moldura, nos cantos rematada por um florescer de pétalas, como que colhidas em frágil teia de aranha.
Quando aquele bordado passasse para uma gaveta das filhas, sentiriam quanto era cheio de lágrimas represadas, de frustrações e anseios pisados? Talvez invejassem apenas aquele tempo de ritmo lento, não estilhaçado por empregos e transportes, em que havia tempo para bordar. Mas a ela, que tinha tentado preencher uma grande parte da vida, vazia e solitária, com palavras, o bordado tinha-a comovido sempre. Por causa daquele L premonitório? Por toda aquela beleza, quase clandestina, destinada a passar de gaveta em gaveta? Por todo aquele trabalho que tinha enchido dias vazios?
Qual das mulheres da família o teria bordado? Tinha sido uma daquelas mulheres educadas na resignação, disso tinha a certeza. Mas qual? Todas sem força de arrostar sozinhas o julgamento de uma sociedade que as condenaria. Sem a coragem de abandonar os filhos a mãos mercenárias e sem o furor, ciumento, de Medeia para os matar, porque só isso seria capaz de ferir o coração que as abandonava e lhes traía o leito vazio, onde tinham dado à luz, bordavam. Longamente, bordavam a solidão. Com agulhas, minuciosas, que passavam lentas de um para o outro lado do bastidor, e pontos miúdos, rebatidos e afeiçoados com a unha e o dedal, na clausura provinciana de longos dias e longas noites sem aconteceres, bordavam as horas, a ausência, a longa espera, o abandono, a traição, o desespero – o pensamento a oscilar entre o folhetim e o livro de orações. Mudamente, os lábios cerrados, bordavam a solidão com arte branca que mais encegueia o linho fresco do enxoval, onde tinham deixado a chaga rubra da sua virgindade, entregue. Durante horas, dias, noites, tinham feito surgir aquela beleza no linho, que haviam sonhado toalha para o rosto amado, mesa florida de festa e lhes era sudário, em vida. Queridas vovós!"


   Luísa Dacosta, Na Água do Tempo: Diário, Porto, Asa, 2005.

domingo, 2 de dezembro de 2012

coisas do escritório

"O seu vestido era uma bandeira, e a sua voz uma serpentina vermelha, tão rápida e tão forte, tão bem lançada, que podia decerto cortar o vento e serrar a chuva, que poderia, em todo o caso, calar com  a sua presença as outras vozes, ali no escritório, cinco minutos antes da saída. Ela, porém, ignorava isso tudo. Porque em tal hora desse mesmo dia sentira-se feliz e continuava a sê-lo nesse instante. Por isso os seus olhos, geralmente tão abertos, de olhar tão grande e incómodo, tão ardente ou tão ressequido, eram olhos doces, e a alegria fizera-os florir num azul novo.
Chegara havia pouco e trazia uma coisa para contar. [...]
 
O homem, porém não a ouviu. Estava a recomendar o que quer que fosse à mulher gorda. E uma carta muito importante devia seguir amanhã mesmo, sem falta, para Londres. Depois saiu e na sala ao lado, onde mandava, houve palavras soltas, uma aqui outra além. Aquele não, por exemplo, e tenho, e um espaço em branco e depois um sussurro e mais três palavras murmuradas, mas que a aragem de uma janela entreaberta trouxe até aos ouvidos dela e lá abandonou: paciência para taradas.
 
[...]
 
E a bandeira e a serpentina eram agora um simples vestido e uma voz incerta.
Quando no dia seguinte souberam, no escritório, que ela fora levada para o hospital por ter de novo procurado a morte, o seu quase-assassino não perdeu a tranquilidade. Era uma daquelas criaturas de consciência discreta ou quase muda ou obediente. Enfim, de consciência boazinha, incapaz de criar problemas ao seu possuidor. E ela, consciência, disse-lhe simplesmente que se uma pessoa tenta suicidar-se por ter ouvido palavras tão inócuas - se é que as ouvira -, essa pessoa é mesmo tarada e não se pensa mais nisso."
 
 
Maria Judite de Carvalho, "Os inocentes", in Além do quadro, Lisboa, O jornal, 1983.