domingo, 22 de dezembro de 2013

Boas Festas!

A todos, desejo um Feliz Natal e um Bom Ano Novo!
 

Josefa d' Óbidos, A adoração dos pastores

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

endless

Nem apetece chamar-lhes envelopes.  Está frio, não há liquido que aquente, mesmo que em dose reforçada. Talvez um agasalho de caxemira, talvez uma bebida mais espirituosa. Ainda assim...

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

As bailias medievais (lidas hoje)

Catarina Nunes de Almeida reescreve as cantigas de amigo e de amor, revelando a sensualidade que, tão encantadoramente, já aquelas sugeriam:
 
O único maremoto de que há memória
aconteceu nos teus cabelos que hoje são lisos
e deixam a água pelos tornozelos
até ser de manhã.
 
Agora até a terra passou.
Cruzam-se valsas e expedições na curva do seio
 a música não cabe na boca das aves
 
e nós, meninas, bailaremos i.
 
Catarina Nunes de Almeida, Bailias, Porto, Deriva, 2010.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Ciberpoesia - poesia combinatória

Um poema (aleatório) a partir de uma cantiga medieval, ou melhor, de uma versão de Salette Tavares (?), degenerada espontaneamente, só com um clique!

amigo castigo amigo, por Ana E.

December 1st, 2013
Conhecido
ai mal comigo
meu tigo amigo vivo
tão moço nosso posse
apodrecido comovido.

Podrido
ai sem comigo
que o vento corta cerce,
contigo em cada passo
espaço abre e cresce.

Comigo
além amigo
castigo tecido tigo
da flor que digo e deste
o fresco me repete.
 

Earl Grey (The finnest blended tea)



(Google Images)

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Frente ao mar

 



FOI NO MAR QUE APRENDI

Foi no mar que aprendi o gosto da forma bela
Ao olhar sem fim o sucessivo
Inchar e desabar da vaga
A bela curva luzidia do seu dorso
O longo espraiar das mãos de espuma

Por isso os museus da Grécia antiga
Olhando estátuas frisos e colunas
Sempre me aclaro mais leve e mais viva
E respiro melhor como na praia

Sophia de Mello Breyner Andresen, O Búzio de Cós e outros poemas, Lisboa, Caminho, 1998.
 
 


quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Ei-las, que estão de volta

 
A Poesia Trovadoresca regressou ao Programa de Português. Ainda bem, pois a sua falta constitui um empobrecimento dos jovens, desde 2004 privados do convívio com esta preciosidade. Aqui fica um registo de uma das mais belas cantigas de amigo - "Ondas do mar de Vigo", de Martim Codax, jogral galego, provavelmente de Vigo. Para além do texto, indicam-se versões musicais e uma fotografia da folha do Pergaminho Vindel* em que se encontra. 
 

Ondas do mar de Vigo,
se vistes meu amigo?
       e ai Deus, se verrá cedo?
Ondas do mar levado,
se vistes meu amado?
       e ai Deus, se verrá cedo?
Se vistes meu amigo,
o por que eu sospiro?
       e ai Deus, se verrá cedo?
Se vistes meu amado,
o por que hei gram coidado?
       e ai Deus, se verrá cedo?

Martim Codax
 
 
 
 
 
As fotografias foram retiradas da base de dados Cantigas Medievais Galego Portugueses, que é um excelente recurso para trabalho, estudo ou, tão-só, tomada de conhecimento deste tesouro nacional.
 (Lopes, Graça Videira; Ferreira, Manuel Pedro et al. (2011-), Cantigas Medievais Galego Portuguesas [base de dados online]. Lisboa: Instituto de Estudos Medievais, FCSH/NOVA. [Consulta em (indicar data da consulta)] Disponível em: http://cantigas.fcsh.unl.pt. )
 
*Conjunto de folhas volantes manuscritas com cantigas, incluindo a respetiva notação musical.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

O novo Programa de Português

Foi uma surpresa. Parece que o Ministro da Educação e Ciência o apresentou ontem, mas a leitora, afogada em "envelopes", não vê televisão e só deu pelo acontecimento numa fuga pelo facebook. O que pode dizer, depois de uma leitura rápida? Que foi uma boa surpresa. É um Programa breve (61 páginas contra cento e tantas do outro), claro nos seus pressupostos teóricos e na apresentação dos domínios e conteúdos, objetivos, metodologias, avaliação e metas. Há uma evidente redução da "metalinguagem", vulgo jargão, por exemplo, desaparecem designações como "funcionamento da língua" ou "conhecimento explícito da língua", para se optar pelo despretensioso nome de "gramática". As competências desaparecem, dando lugar a "domínios": oralidade, leitura, escrita, educação literária e gramática. Claros.
 
Desde já, destacam-se como aspetos positivos os seguintes: a centralidade do texto complexo, especialmente o literário; a recuperação do conceito de género; o privilégio dos grandes textos e obras da literatura portuguesa e da historicidade que os percorre, justificativa de uma organização diacrónica do seu estudo. Leiamos, a este propósito, um excerto da introdução:


"O presente Programa valoriza o texto literário no ensino do Português, dada a forma diversificada como nele se oferece a complexidade textual. A literatura é um domínio decisivo na aquisição da compreensão do texto complexo e da linguagem conceptual, sendo, além disso, um repositório essencial da memória diversificada de uma comunidade, além de um inestimável património que deve ser conhecido e estudado.
Embora literatura e cânone não sejam realidades totalmente coincidentes, importa sublinhar a dimensão prospetiva e o potencial de criação que significa a leitura dos clássicos, enquanto corpus seleto de textos que nunca estão lidos, na sua dialética entre memória e reinvenção.
Dentro do leque dos textos complexos, o texto literário ocupa um lugar relevante porque nele convergem todas as hipóteses discursivas de realização da língua. Ao contemplar um conjunto de fatores que implicam a sedimentação da compreensão histórica, cultural e estética, o texto literário permite o estudo da rede de relações (semânticas, poéticas e simbólicas), da riqueza conceptual e formal, da estrutura, do estilo, do vocabulário e dos objetivos que definem um texto complexo (cf. ACT, 2006). Para tal, pressupõe o Programa também uma adequada contextualização das obras a estudar, no respeito pela sua historicidade, de modo a que elas não surjam aos olhos dos alunos "como ilhas sonâmbulas num lago preguiçoso; ou como acidentes num percurso de lógica dificilmente apreensível", como afirma Manuel Gusmão (2011, 188)."
 
 
É de salientar e louvar a reintrodução da poesia trovadoresca no Programa de Português (mas, por que motivo se excluem as cantigas de escárnio e maldizer?), a chamada de Fernão Lopes, Gil Vicente, Fernão Mendes Pinto, da História Trágico-Marítima, de Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco e Antero, de Camilo Pessanha, de Mário de Sá-Carneiro ou Maria Judite de Carvalho, de José Régio, com a obra Três Máscaras - Fantasia Dramática; não se compreendem, todavia, as ausências de Sophia ou de Eugénio de Andrade, na lista dos poetas do século XX, sem desmerecimento dos cinco nomes selecionados, obviamente.

 Uma palavra ainda para o Projeto de Leitura: indicação de uma lista de obras e autores da literatura de língua portuguesa ou universal, distribuídos pelo ciclo de estudos, para serem lidos pelos alunos, um ou dois por ano, em articulação com os domínios e conteúdos programáticos. Parece-me bem, pois, se a listagem pode ser redutora, será também muito útil para a criação de um património literário comum e para a desmistificação da ideia de que as leituras não contempladas nos conteúdos restritos devem seguir a espuma dos dias, digo, as modas, os escritores e títulos da moda.

sábado, 2 de novembro de 2013

O mais difícil

 
luminosas palavras de José Tolentino Mendonça no Expresso de hoje:
 
 
"[...] Temos de aprender a estar com os outros quando chegar o seu momento, desenvolvendo capacidades até então negligenciadas. Temos de aprender a cuidar da dor e a minorá-la, mas não só com comprimidos: também com o coração, com a presença, com os gestos silenciosos, o respeito, com uma expectativa de coragem. Os doentes não estão à procura de indulgência. Temos de aprender a embalar a fragilidade, a dos outros e a nossa própria, ajudar cada um a reencontrar-se com as coisas e com as memórias certas, a não desesperar, a encontrar um fio de sentido no que está a viver, por ínfimo e trémulo que seja. Temos de aprender a ser suporte, temos de querer eficiência técnica mas também compaixão, temos de reconhecer o valor de um sorriso, ainda que imperfeito, em certas horas extremas. À beira do fim há sempre tanta coisa que começa. [...]"
 
 
José Tolentino Mendonça, "que coisa são as nuvens: Aprender a morrer", Expresso (Revista), 2/11/2013.
 

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

domingo, 27 de outubro de 2013

Onde estais, D. Ricardo, O Coração de Leão?

 
 
An illustration of the Sheriff of Nottingham from
 Bold Robin Hood and His Outlaw Band:
Their Famous Exploits in Sherwood Forest. Louis Rhead.
New York: Blue Ribbon Books, 1912.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Interrogar o riso


Ainda a propósito do riso, cito, do catálogo da exposição "Riso", que decorreu no Museu da Eletricidade, em Lisboa, de 19 de outubro de 2012 a 17 de março de 2013:
 
"Rimos de quê? De nós e dos outros, da vida e da morte, do bem e do mal, da felicidade e da desgraça, da autoridade e da anarquia, dos deuses e dos demónios, da terra e do céu.
Rimos como? Com a mente e com o corpo, com o som e com o silêncio, com alegria e com tristeza, com generosidade e com agressão, com compreensão e com intolerância, com inteligência e com estupidez, com bondade e com maldade, com subtileza e com grosseria, com oportunidade e sem ela.
Rimos porquê? Porque queremos ser superiores àquilo de que rimos, porque queremos que a nossa inferioridade resista à superioridade dos outros, porque queremos vingar-nos do que nos fizeram, porque queremos afirmar poder e saber, porque queremos mostrar indiferença ao que não nos é indiferente, porque queremos que reparem em nós, porque queremos criticar, porque queremos castigar o que achamos mal, porque queremos disfarçar, porque queremos esconder, porque não temos palavras para dizer o que queremos dizer, porque nos fazem cócegas, porque estamos nervosos, porque estamos carentes, porque temos medo, porque temos vergonha, porque queremos mudar de assunto, porque achamos graça, porque queremos ter graça, porque somos loucos, porque estamos felizes." 
 
 
Nuno Crespo et alii, "Riso, modos de usar" in Riso, Lisboa, Fundação EDP e Tinta da China Edições, 2012, pp. 26 e 27.

A menina ri; ri de quê?

 
No início do ano letivo, uma professora que estava a dar aulas à noite há vários anos e que, pelas contingências de horário, se via remetida ao ensino diurno, lamentava-se:
- O quê? A sério? É preciso isso? O ensino tornou-se tão chato!
 
Tinha razão, a colega, e não só por causa das inúmeras "grelhas". De facto, a burocracia não se traduz apenas em muita "papelada" - grelhas de avaliação, relatórios, critérios, parâmetros, listas e etc. -, mais grave que toda esta inutilidade é o fechamento do espírito. Criou-se o hábito das receitas, dos textos conformes a modelos, propícios  a uma abordagem estruturalista, segura e conducente a leituras consensuais. Está bem amarrado, o professor, como estão atados, de pés e mãos, os alunos. Talvez por isso o cinzentismo impere: os Meninos não gostam de ler, os Mestres não têm prazer em ler-lhes; o famigerado Programa insiste nos textos dos media e do domínio transacional; a poesia, de preferência épica ou lírica, vá lá, ainda se aceita, mesmo se for para dizer que não se percebe nada;  já o humor... Oh, não! C'horror! Então, essas coisas na sala de aula?
 
Fui reparando, ao longo dos anos, que a adolescência é muito mais conservadora do que aquilo que se pensa, a diferença é que, em tempos, a confiança no professor, no seu saber e na sua seriedade, era maior. Por outo lado, a pressão das "notas" e das "médias" era, talvez, menor. Agora, nas turmas do ensino regular, ditas "normais", constituídas por alunos que querem tirar cursos superiores e ocupar cargos de responsabilidade, quiçá de chefia, é preciso medir o que se diz com a bitola do politicamente correto, não vá alguma alma ficar chocada por qualquer murmúrio não previsto no breviário da tacanhez. Ainda assim, há oásis de liberdade. Em nome da liberdade, chamo à sala Cesariny, Alexandre O'Neill, Natália Correia, Nuno Artur Silva, Inês Fonseca Santos, Ricardo Araújo Pereira, António Lobo Antunes, Fernando Ribeiro de Mello e tantos outros, até O meu Pipi* (Ai! Agora é que resvalou.)

 
   *Aqui um exercício de autocensura: "Este foi só de raspão, por engano..."
 

domingo, 20 de outubro de 2013

"insistir e esperar"


Leituras de fim de semana: José Tolentino Mendonça



As crónicas de José Tolentino Mendonça no Expresso (Revista) tornaram-se de leitura esperada. A cada fim de semana, o pensamento e a escrita fluída, bela e profunda deste homem, poeta e padre, iluminam o mundo em redor e o interior. Neste sábado, era possível ouvir um hino à vida e ao perdão. Nestas passagens, por exemplo:
 
"Pode parecer estranho, mas a dada altura agarramo-nos à dor como se ela fosse um heroísmo e pomo-nos a expor feridas como quem exibe condecorações. O nosso desígnio, inconfessado, mas claríssimo, passa a ser atravessar a vida (e o que nos resta dela) com o estatuto de vítima. "
 
"Muitas vezes aproveitamos a dor para nos instalarmos nela. Preferimos ficar a esgravatar na ferida, a comer diariamente o pão velho da nossa maldade, em vez de termos sede de beleza, desejo de outra coisa. Parece que aquilo que aconteceu (e de mal, ainda por cima) saciou-nos completamente. As ofensas recebidas revelam-nos um duro e irónico retrato de nós. Ora, para perdoar é preciso ter uma furiosa e paciente sede do que (ainda) não há. O perdão começa por ser uma luzinha. E é bom insistir e esperar."
 
"Dizemos que certas coisas não têm perdão - ou que nunca nos perdoaremos a nós próprios. Mas perdoamos - fazemo-lo a todo o momento."
 
Expresso: Revista, 19/0ut/2013
 
 
 
Umas leituras convocam outras, e esta chamou um livro maravilhoso, do mesmo autor, José Tolentino Mendonça - Nenhum caminho será longo: Para uma teologia da amizade:
 
"Que quer dizer: «Tu és deveras meu amigo?» Simão compreende finalmente Jesus; que Jesus não nos pede o que nós não somos capazes de dar. Ele aceita a nossa amizade que fraqueja, os nossos sins ainda incipientes, os passos que damos vacilantes. Para fazer-nos subir até si, Jesus desce até nós.
O Evangelho conta que Pedro ficou triste por Jesus se ter de adaptar à nossa humanidade. Mas é esta adaptação de Jesus, esta aceitação radical da nossa pobreza, este seu caminhar incessante ao encontro da nossa amizade, a fonte da nossa esperança. E tal como ao primeiro entre os discípulos, também a nós, a cada um de nós, Jesus repete apenas: "Segue-me.»" (p. 70)
 
 José Tolentino Mendonça, Nenhum caminho será longo: Para uma teologia da amizade, Lisboa, Paulinas Editora, 2012.
 
 
[E nós, aceitamos? E, tão importante, confiamos?]

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Surpresas

Vinha a caminho de casa a olhar para anteontem, quando a caixa do correio resolveu surpreender-me: em vez das cartas circunstanciais do costume, promessas de "Grande Aventura" e "Super Fim de Semana", au Lidle. Nem mais!
 
 
 
Nem mais, disse? Havia mais: a oferta de um exemplar da revista Visão (nº 1076 - 17 a 23 de outubro de 2013), com uma belíssima crónica de António Lobo Antunes - "Olhar para ontem".
 
Cito:
 
"[...] tanto tédio, tanto ressentimento, tanto cansaço, se mudasses de penteado, se comprasses uns vestidos novos, se usasses saltos mais altos, se me surpreendesses, tornámo-nos tão quotidianos, meu Deus, tão monótonos, não dizes nenhuma coisa que me interesse, não digo nenhuma coisa que te interesse e não é possível não dizermos nunca seja o que for que não interesse o outro havendo pessoas que nos acham divertidos, cultos, se calhar fascinantes [...]"
 
(O possível é vasto, e a esperança também, diz a vozinha intrometida.)
 
Li pouco Lobo Antunes; as crónicas leio, com um prazer sempre renovado, já os romances esquivam-se, desde aquele dia, nos verdes anos da adolescência, em que não consegui continuar o Caminho do Inferno. A intensidade, o susto, o medo, ou lá o que era, obrigou-me a fechar o livro. Esta reação intempestiva, irracional, só me aconteceu com outro escritor, Mishima, não me lembro do título do romance. A força narrativa e expressiva destes textos, um dia, longe, obrigaram-me a desviar o olhar. Não me esqueci.
 
As coisas novas e velhas vêm e vão, vão e vêm, nunca nos deixam sós nem deixam de nos surpreender. Hoje, também a antiga mesa de estudo, restaurada, mas com uma leve folga no tecido a lembrar o tempo passado, me saudou. Convidava-me para uma bisca lambida ou para cair nas profundezas dos calhamaços sábios?
 
 

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

"Servidões" (Herberto Helder)

 
Cine Povero: um vídeo para um poema de Herberto Hélder - "Um quarto dos poemas é imitação"
 

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Barómetro

 


Não entendo a razão para a polémica que se diz andar por aí. O barómetro é o da crítica e do ruído à volta dos livros e dos seus autores, por isso é tanta a vozearia; comentam-se e indignam-se uns aos outros, é o que é. Para o público mais leitor de jornais que de livros tem interesse. Também é sempre gratificante relembrar Alexandre O'Neill, Carlos de Oliveira, Knopfli, Ferreira de Castro, ficar com vontade de procurar as narrativas de Teresa Veiga. Considero injusta a desvalorização de Torga, muito lido, e merecidamente; nem entendo a menção a certo jornalista autor. Enfim, também esta leitora tem os seus gostos e antipatias. Onde estão Luísa Dacosta, Maria Gabriela Llansol ou Rui Nunes? Onde Vergílio Ferreira, Aquilino, Luiza Neto Jorge e outros?
Seja como for, não nego a importância da crítica literária jornalística para a divulgação dos livros, para a promoção da leitura e para a criação de novos leitores, para sacudir o pó a alguns nomes há muito adormecidos nas estantes dos armazéns ou de recuadas bibliotecas. Os livros, de poesia ou prosa, precisam igualmente destas vozes para chegarem às mãos dos muitos que os poderão resgatar ao tempo devorador. De facto, não vivem só de estudos académicos, de eruditos e de criadores (outros poetas, outros escritores), de leitores amadores, ainda que todos estes sejam muito importantes. O que cansa é a algazarra, a vida social reunida à volta dos "encontros", das "tertúlias", dos lançamentos, dos suplementos dos jornais, das revistas, a intriga e a maledicência. São os lobbies, dizem, as influências, é a moda. Mas alguém desconhecia a existência de acantonamentos revisteiros, de redes, de estrelas de plástico...? Basta andar por aí, ter olhos e ver, e ler, ter ouvidos e ouvir...
(...de qualquer modo, não faz mal dar o nome às coisas dos "bastidores" e publicá-las, dá-las a conhecer, pois há sempre alguém distraído.)
 

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Diário de Maria Amélia X


- ... e não sei nomes de comprimidos.
- Mas vais saber.
- Vou?
- Sim, os nomes dos comprimidos que vais ter de tomar para os nervos.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

António Ramos Rosa (1924-2013)


 
Num ponto qualquer
sensualmente subtil
algo que antes não servia para nada
irradia agora habitada surpresa.
 
 
António Ramos Rosa, Dinâmica Subtil, Lisboa, Ulmeiro, 1984.
 
 




quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Reencontros


"'It must have been fifteen - no, twenty years ago - that I last saw her' [...] And was Carrie still living at Marlow, and was everything still the same? Oh she could remember it as if it was yesterday [...] And it was still going on, Mrs Ramsay mused, gliding like a ghost among the chairs and tables of that drawing-room on the banKs of Thames where she had been so very, very cold twenty years ago; but now she went among them like a ghost; and it fascinated her, as if, while she had changed, that particular day, now become very still and beautiful, had remained there, all these years."
 
"For it was extraordinary to think that they had been capable of going on living all these years when she had not thought of them more than once all that time. How eventful her own life had been, during those same years. Yet perhaps Carrie Manning had not thought about her either. The thought was very strange and distasteful."
  
Virginia Woolf, To the Lighthouse, Grafton Books, London, 1988.
 
 

As primeiras leituras de Virginia Woolf constituíram um deslumbramento. Foi precisamente o livro citado o que primeiro cativou o seu olhar, pela beleza e elegância da linguagem, pela inesperada forma de construção de personagens e da sua relação com o espaço e o tempo. Mrs Ramsay destacou-se desde logo. Hoje ainda lhe ensina muito.
 
A passagem transcrita ocorreu-lhe recentemente. Esta espelha uma forma de egocentrismo (egoísmo), que consiste na impossibilidade de concebermos o mundo para além de nós mesmos, impossibilidade esta que pode existir em estados mais agravados ou mais atenuados, conforme e inteligência de cada um. O tempo torna ainda mais nítido este facto. Na verdade, quantas vezes nos deixamos enganar pelos fantasmas do passado, crendo que os conhecidos de outrora são, hoje, aqueles de quem nos lembramos, os mesmos que se sentaram connosco à mesa de distantes cafés ou em pretéritas salas de estar? Também somos confundidos com a imagem que outros criaram das nossas pessoas. E, assim, damos por nós estupefactos perante o desacerto entre a face adolescente há muito perdida e a cara da medusa, ali, plasmada à nossa frente.
 
(Aqui um parêntesis para dizer que "cara de medusa" é, talvez, uma forma pretensamente erudita de nomear aquilo que A. P. defende em termos mais claros: as pessoas pioram com a idade; o que eram características peculiares na adolescência são defeitos e vícios aos quarenta e mais além. A primeira vez que ouvi esta tese, ri-me; hoje já não me apetece tanto, pois começo a pensar que há nela verdade. )

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Diário de Maria Amélia IX

 
Toni Frissell
 

Existe, mas gostaria de ser evanescente. Ou, então, água.
 
[Está regressando...]

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Letters of Note

"My husband is not a common man"

Interessante carta de George Bernard Shaw a uma admiradora insistente, simulando ser a sua mulher. Muito interessante.
 

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Novas leituras

 
 

... arrumam-se estantes, e são mais os livros que ficaram por ler do que aqueles que alegraram os dias. Este, por exemplo. Belíssimo primeiro parágrafo (já está sobre a mesa de leitura):

"As palavras, como os seres vivos, nascem de vocábulos anteriores, desenvolvem-se e fatalmente morrem. As mais afortunadas reproduzem-se. Há-as de índole agreste, cuja simples presença fere e degrada, e outras que de tão amoráveis tudo à sua volta suavizam. Estas iluminam, aquelas confundem. Umas são selvagens, irascíveis, cheiram mal dos pés, fungam e cospem no chão. Outras, logo ao lado, parecem altivas e delicadas orquídeas."

José Eduardo Agualusa, Milagrário Pessoal: romance, Lisboa, D. Quixote, 2010.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

O filme já é outro ...

A leitora foi à praia, para lá do Tejo. Foram dias muito bem passados, a costa vicentina é mesmo linda; não se enganaram Rui Veloso e Carlos Tê. 




"Porto Côvo" (1986)
 
Rui Veloso e Carlos Tê

Roendo uma laranja na falésia
Olhando o mundo azul à minha frente,
Ouvindo um rouxinol na redondeza,
No calmo improviso do poente

Em baixo fogos trémulos nas tendas
Ao largo as aguas brilham como pratas
E a brisa vai contando velhas lendas
De portos e baías de piratas

Havia um pessegueiro na ilha
Plantado por um Vizir de Odemira
Que dizem que por amor se matou novo
Aqui, no lugar de Porto Côvo

A lua já desceu sobre esta paz
E reina sobre todo este luzeiro
À volta toda a vida se compraz
Enquanto um sargo assa no braseiro

Ao longe a cidadela de um navio
Acende-se no mar como um desejo
Por trás de mim o bafo do destino
Devolve-me à lembrança do Alentejo

Havia um pessegueiro na ilha
Plantado por um Vizir de Odemira
Que dizem que por amor se matou novo
Aqui, no lugar de Porto Côvo

Roendo uma laranja na falésia
Olhando à minha frente o azul escuro
Podia ser um peixe na maré
Nadando sem passado nem futuro

Havia um pessegueiro na ilha
Plantado por um Vizir de Odemira
Que dizem que por amor se matou novo
Aqui, no lugar de Porto Côvo
 

sábado, 6 de julho de 2013

Calor

Leituras de sábado
 
José Tolentino Mendonça no Expresso ("que coisa são as nuvens: o elogio da pequena história", Revista, 06/07/2013)
 
"A vida é sempre mais. Sobra sempre vida à história que contámos dela."
 
"Talvez um dia nos preocupemos definitivamente mais com a pessoa que com a estrutura, com a singularidade mais do que com a afiliação. Talvez um dia uma palavra, um rosto ou um destino quaisquer, eleitos assim ao acaso, sirvam para revelar tudo: para nomear o entusiasmo e a dor, o vislumbre e o combate, a razão e o enigma que existir significou e significa."
 
"Restam as marcas de que estivemos aqui, de que habitámos estações diferentes com a mesma mansidão ou o mesmo furor, de que tentámos sobreviver ao amor, ao desamparo e à morte com tudo o que tínhamos à mão, de que partilhámos, de que cremos e negámos coisas diferentes e até a mesma coisa, de que coexistimos nos nossos encontros e na nossa irredutível solidão. Restam de nós vestígios, monumentos de vário tipo, pegadas. Resta o pó e o silêncio dos ossos. Mas não só: de uma forma que não sabemos, o escasso lume que fomos perdura e serve a outros para continuar."
 
 
[A História destes dias registará a infâmia, mas a vida revela-se nas pequenas pedrinhas do quotidiano: a praia, as reuniões e partilhas familiares, o telefonema da amiga, este sol esplendoroso derramado sobre a terra, a pele...]

sábado, 15 de junho de 2013

quinta-feira, 13 de junho de 2013

tempos de servidão


 
dos trabalhos do mundo corrompida
que servidões carrega a minha vida
 
 
Herberto Helder, Servidões, Lisboa, Assírio & Alvim, 2013. 

quarta-feira, 5 de junho de 2013

estes míseros ofícios

Ainda há pouco, a A.G. citava Herberto Helder. Que palavras tão lindas e tão conformes:

e com estes míseros ofícios
morrerei do meu muito terror e da nenhuma salvação da minha vida


Herberto Helder, Servidões, Lisboa, Assírio, 2013.


 
uma pausa nos tristes ofícios

As palavras têm honra


Crónica das Palavras
 
Há muito se perdeu a noção de que as palavras têm honra. Políticos servem-se delas para mentir, ocultar, dissimular a verdade dos factos e as evidências da realidade. Mas também escritores e jornalistas as debilitam e as entregam às suas pessoais negligências. Não é, somente, uma questão de gramática e de estilo; mas é, também, uma questão de gramática e de estilo. Há escritores e jornalistas que o não são à força de o querer ser. A confusão instalou-se, com a cumplicidade leviana de uma crítica pedânea e de um noticiário predisposto a perdoar a mediocridade e a fraude.
 
As palavras possuem cores secretas, odores subtis, densidades ignoradas. O discurso político conduz-nos ao nojo da frase. Pessoalmente, tento limpar o reiterado registo da aldrabice e da ignorância com a releitura dos nossos clássicos. Recomendo o paliativo. Eis-me às voltas com as Viagens na Minha Terra. Garrett não era, propriamente, uma flor imaculada. Mas foi um mestre inigualável na arte da escrita. Lembro-o porque, a seguir, revisitei o terceiro volume de As Farpas, onde Ramalho reproduz uma conversa com Herculano. O historiador retratou assim o seu companheiro de lutas liberais: “Por cem ou 200 moedas, num dia de apuro, o Garrett seria capaz de todas as porcarias que quiserem, menos de pôr num papel, a troco de todo o ouro do mundo, uma linha mal escrita.”
 
Desaprendeu-se (se é que, vez alguma, foi seriamente aprendido) o vocabulário da língua. Lê-se o por aí publicado e a pobreza lexical chega a ser confrangedora. Não se trata de simplicidade; antes, desconhecimento, incultura, ausência de estudo. “Foge de palavras velhas; mas não receies o uso de palavras antigas.” Recomendava Garrett. Palavras velhas, travestidas de “modernidade”, são, por exemplo: expectável, incontornável, enfatizar, implementar, recorrente, elencar, factível, plafonamento, exequível, checar, fraturante, imperdível, abrangente, atempadamente, alavancar, empolamento – e há mais.
 
Reconheço o meu verdete por certas palavras e expressões. Não é embirração de caturra, nem rabugice de um reta-pronúncia. Será o gosto da palavra, a alegria de com elas trabalhar há longuíssimos anos, a circunstância de ser um leitor com fôlego, o facto de ter tido professores como o gramático e linguista Emílio Menezes, goês paciente, sábio e afável; e de haver frequentado alguns dos maiores escritores do século passado, para os quais o ato de escrever representava moral em ação. Lembro, com emoção e orgulho, Aquilino, José Gomes Ferreira, Miguéis, Sena, Mário Dionísio, Carlos de Oliveira, Manuel da Fonseca, Abelaira.
 
Esta crónica foi, também, um pretexto para os lembrar. 
 
 
Baptista-Bastos, Diário de Notícias, 04/02/2009.
 
(Texto publicado inicialmente noutro contexto de acordo com o AO, por dever de ofício)
 


sábado, 1 de junho de 2013

Herbero Helder

 
Herbero Helder, Servidões,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2013.
 
 
já não tenho mão com que escreva nem lâmpada,
pois se me fundiu a alma,
já nada em mim sabe quanto não sei
da noite através da luz: livros, frutas na mesa, o relógio que mede
 
minha turva eternidade
e o tempo da terra monstruosa,
já nada tenho com que morrer depressa,
excepto
tanta hora somada  a nada:
acautela a tua dor que se não torne académica

 
Herbero Helder, Servidões, Lisboa, Assírio & Alvim, 2013.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Pedras e flores





Voz do meu amado   ei-lo que chega
corre pelos montes   salta nas colinas
o meu amado é semelhante a um gamo   ou a uma cria de gazela
ei-lo por detrás dos nossos muros
olha pelas janelas  espreita pelas frinchas
fala o meu amado e diz-me
levanta-te minha amada   minha bela vem para mim
pois o inverno já acabou   a chuva passou de vez
despontam flores na terra   chegou o tempo das canções
ouve-se na nossa terra   a voz da rola
a figueira brota seus frutos   e a vinha florida exala perfume
levanta-te minha amada   minha bela vem para mim.


Cântico dos Cânticos, Lisboa, Cotovia, 1999 (tradução do hebraico, introdução e notas de José Tolentino Mendonça; desenhos de Ilda David).

Sete rosas mais tarde



COM A PALAVRA-SEIXO na mão fechada,
esqueces que esqueces,

do pulso irrompem,
refulgentes, os sinais de pontuação,

pela terra fendida
como um pente
vêm as pausas a cavalo,

ali, junto
ao cacho de oferendas,
onde se extingue o fogo da memória,
apanha-vos O
Sopro.


DIZEM-ME QUE O MACHADO FLORIU,
dizem-me que não se pode nomear o lugar,

dizem-me que o pão que o olha
salva o enforcado,
o pão que  a mulher lhe cozeu,

dizem-me que chamam à vida 
o único refúgio.



Paul  Celan, Sete rosas mais tarde - Antologia poética, Lisboa, Cotovia, 1993 (selecção, tradução e introdução de João Barrento e Y. K. Centeno).



quarta-feira, 15 de maio de 2013

Morituri salutant

 ... vamos fugir de lugares mal frequentados e de palavras inacreditáveis, primeiro a rir e depois a recitar belas orações...


1- Um livro da 1ª classe que não frequentei


2- Uma estampinha da infância

Google images - Nossa Senhora de Fátima


3- Uma oração muito bela
Salve Rainha
Salve, Rainha, mãe de misericórdia,
vida, doçura, esperança nossa, salve.
A vós bradamos os degredados filhos de Eva.
A vós suspiramos, gemendo e chorando
neste vale de lágrimas.
Eia, pois, advogada nossa,
esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei,
e depois deste desterro mostrai-nos Jesus,
bendito fruto do vosso ventre,
Ó clemente, ó piedosa,
ó doce sempre Virgem Maria
V.: Rogai por nós Santa Mãe de Deus
R.: Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.


4- Um hino belíssimo

Hino Órfico à Noite
(Grécia)
Cantarei a criadora dos homens e deuses - cantarei a Noite.
Noite, fonte universal.
Ó forte divindade ardendo com as estrelas, Sol negro,
invadida pela paz e o tranquilo e múltiplo sono,
ó Felicidade e Encantamento, Rainha das vigílias, Mãe do sonho,
e Consoladora, onde as misérias repousam as campânulas de sangue,
ó Embaladora, Cavaleira, Luz Negra, Amiga Geral,
ó Incompleta, alternadamente terrestre e celeste,
ó Arredondada no meio das forças tenebrosas,
leve afastando a luz da casa dos mortos e de novo te afastando tu própria.
A terrível Fatalidade é a mãe de todas as coisas,
ó Noite Maravilhosa, Constelação Calma, Ternura Secreta do Tempo,
escuta, ó Indulgente Antiga, a imploração terrena,
e aparece com teu rosto obscuro e lento no meio dos vivos terrores do
mundo.



Herberto Helder, "O bebedouro nocturno", in Poesia Toda, Lisboa, Assírio & Alvim, 1990.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Happy Days - Emily Dickinson

 
 
On a vintage shelf...

 
 

 
Emily Dickinson, poeta (poetisa) norte-americana, nascida a 10 de Dezembro de 1830, em Amherst, Massachusetts, e falecida na mesma cidade, a 15 de Maio de 1886. Entre estas duas datas poucos factos houve a registar, só os seus poemas brilham , esplendorosos.
 
O livro que agora se lê é de Jorge de Sena, que traduziu magistralmente 80 dos poemas de Dickinson, mas os originais, em inglês, resplandecem mais intensamente. Por exemplo:
 
 
 
A sepal, petal, anda a thorn
Upon a common summer's morn -
A flask of Dew - A Bee or two -
A Breeze - a caper in the trees -
And I'm a Rose!


Sépala, pétala, espinho,
Na vulgar manhã de Verão -
Brilho de orvalho - um abelha ou duas -
Brisa saltando nas árvores -
- E sou uma rosa!


.................


Some Days retired from the rest
In soft distinction lie
The Day that a Companion came
Or was obliged to die
 
 
Alguns Dias dos outros se separaram
Para com distinção adormecer -
O Dia em que um Companheiro chegou
Ou foi forçado a morrer.
 
 
Jorge de Sena, 80 poemas de Emily Dickinson (Tradução e apresentação), Obras Completas de Jorge de Sena, Lisboa, Edições 70, 1979.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Penas (tantas)

 
"Sobre as ondas asas. Sobre o meu coração penas."

 
 
Luísa Dacosta, Morrer a Ocidente, Porto, Figueirinhas, 1990.

Mais penas

CANTIGA ALHEIA

Perdigão perdeu a pena,
no há mal que lhe não venha.

VOLTAS

Perdigão, que o pensamento
subiu em alto lugar,
perde a pena do voar,
ganha a pena do tormento.
Não tem no ar nem no vento
asas com que se sustenha:
não há mal que lhe não venha.

Quis voar a ua alta torre,
mas achou-se desasado;
e, vendo-se depenado,
de puro penado morre.
Se a queixumes se socorre,
lança no fogo mais lenha:
não há mal que lhe não venha.

Luís de Camões, Lírica Completa - I, Lisboa, INCM, 1986.

Penas


"Vivemos na língua e na cultura das almas penadas - não apenas arrependidas ou culpabilizadas mas sentenciadas a penas eternas de prisão. Não deveríamos tratar levemente a pena. Não é a mesma coisa que o sorry inglês, que é uma versão frívola da tristeza do sorrow."
 
 
Miguel Esteves Cardoso, Como é linda a puta da vida, Porto, Porto Editora, 2013.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

A barata exteriorizada

Afinal, cá em casa havia um livro de Clarice Lispector – Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, de 1999. Estava ali, com outros, em trânsito de estante. Quando chegou? Nesse ano da edição portuguesa ou em 2000? A data é imprecisa, mas terá sido antes do fim da adolescência, que ocorreu precisamente naquele dia, naquela hora em que a dermatologista sentenciou que aquele remédio seria bom, sim, se tivesse dezoito anos! Essa idade perdera-se há muito na poeira da estrada; seriam trinta, trinta e dois, quem o saberá? A verdade é que não estava pronta para Clarice.
Só agora chegara, ali, face a face com a matéria branca da barata exteriorizada, lia, lia, sem conseguir parar, em estado de arrebatamento, como o crítico que ficara doente com a leitura de A paixão segundo G. H.? Foram longos e penosos os caminhos, tão áridos, mas, ainda assim, percorridos com alegria e intensidade. Seria uma leitora “de alma já formada” como desejara a escritora, na nota de abertura daquele livro? 
 
Esta:
A possíveis leitores
 

Este livro é como um livro qualquer. Mas eu ficaria contente se fosse lido apenas por pessoas de alma já formada. Aquelas que sabem que a aproximação, do que quer que seja, se faz gradualmente e penosamente – atravessando inclusive o oposto daquilo de que se vai aproximar. Aquelas pessoas que, só elas, entenderão bem devagar que este livro nada tira de ninguém. A mim, por exemplo, o personagem G. H. foi dando pouco a pouco uma alegria difícil; mas chama-se alegria. 
 

C. L.

Clarice Lispector, A Paixão Segundo G. H., Lisboa, Relógio d’Água, 2013.
 
 
Era uma mulher pronta --------------
 

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Comemorar a liberdade

Luísa Alvim publica hoje, no Facebook, um trabalho que fez sobre livros: Os livros portugueses proibidos no regime fascista: Bibliografia. São estes estudos que nos permitem ver o que ganhámos com a revolução e o fim da censura. Ganhámos liberdade de conhecer e, consequentemente, de escolha, o que não é pouco. A seguir transcrevo um poema de Natália Correia incluído numa famosa antologia poética organizada pela poetisa - Antologia de poesia portuguesa erótica e satírica (dos cancioneiros medievais à actualidade) . Escusado será dizer que a obra, editada pela Afrodite* (Lisboa) em 1965, foi proibida e a sua autora alvo de perseguição, tendo mesmo respondido em tribunal pelo feito**. O poema, para além de mostrar a coragem e espírito subversivo da grande mulher que foi Natália, revela, também, a possibilidade de libertação erótica e da palavra, talvez a mais difícil, mormente se colocada no feminino.
 
Ei-lo:
 
COSMOCÓPULA
 
I
 
Membro a pino
dia é macho
submarino
é entre coxas
teu mergulho
vício de ostras.
 
II
 
O corpo é praia a boca é nascente
e é na vulva que a areia é mais sedenta
poro a poro vou sendo o curso de água
da tua língua demasiada e lenta
dentes e unhas rebentam como pinhas
de carnívoras plantas te é meu ventre
abro-te as coxas e deixo-te crescer
duro e cheiroso como o aloendro.
 
 
 
Natália Correia
 
 
Natália Correia (selecção, prefácio e notas), Antologia de poesia portuguesa erótica e satírica (dos cancioneiros medievais à actualidade), Lisboa, Antígona e Frenesi, 1999.

 
*Esta editora - Edições Afrodite - foi criada em 1965, por Fernando Ribeiro Bento de Mello, tendo provocado escândalo com a publicação de obras polémicas e proibidas, que originaram processos judiciais por ultraje aos bons costumes. Mais informações podem ser consultadas no blogue sobre a editora Aqui.

**Leio que Natália Correia foi condenada a três anos de prisão com pena suspensa. Trsite Portugal.



quarta-feira, 24 de abril de 2013

Felicidade clandestina*

Dou continuidade ao meu encontro com Clarice Lispector. Leio as suas crónicas, em vez de arrumar a casa, de corrigir trabalhos dos alunos, de preparar aulas, de fazer telefonemas úteis ou de realizar quaisquer outras tarefas de igual interesse. Faço de conta que estou de férias, como se a leitura fosse um prazer clandestino, desses que se provam devagarinho para durarem. Um jeito manso, que me sugeriu este livro, adivinhou a felicidade que estas palavras me trariam.
 
 
 
Abro o livro ao acaso, leio o início da crónica "17 de abril: Ao correr da máquina":
 
"Meu Deus, como o amor impede a morte! Não sei o que estou querendo dizer com isso: confio na minha incompreensão, que tem me dado vida institiva e intuitiva, enquanto a chamada compreensão é tão limitada. Perdi amigos. Não entendo a morte. Mas não tenho medo de morrer. Vai ser um descanso: um berço enfim. Não a apressarei, viverei até a última gota de fel. Não gosto quando dizem que tenho afinidade com Virginia Woolf (só a li, aliás, depois de escrever o meu primeiro livro): é que não quero perdoar o fato de ela se ter suicidado. O horrível dever é ir até ao fim. E sem contar com ninguém. Viver a própria realidade. Descobrir a verdade. E, para sofrer menos, embotar-me um pouco. Pois não posso mais carregar as dores do mundo. Que fazer, se sinto totalmente o que as outras pessoas são e sentem? Eu vivo na delas mas não tenho mais força. Vou viver um pouco na minha. Vou me impermeabilizar um pouco mais. - Há coisas que jamais direi: nem em livros e muito menso em jornais. E não direi a ninguém no mundo. Um homem me disse que no Talmude falam de coisas que a gente não pode contar a muitos, há outras a poucos, e outras a ninguém. Acrescento: não quero contar nem a mim mesma certas coisas. Sinto que sei de umas verdades. Mas não sei se as entenderia mentalmente. E preciso amadurecer um pouco mais para me chegar a essas verdades. Que já pressinto. Mas as verdades não têm palavras. Verdades ou verdade? Não, nem pensem que vou falar em Deus: é um segredo meu."
 
 
Clarice Lispector, A descoberta do mundo, Lisboa, Relógio d'Água, 2013 (1ª ed. 1984).
 
 
*Título de um conto de Clarice Lispector incluído no manual Antologia, já referido neste blogue.

terça-feira, 23 de abril de 2013

A Pedagogia do deslumbramento, as abelhas e a agricultura


Em tempos de carência, a pequenez dos espíritos evidencia-se, a confiança e a alegria esgarçam-se. Neste contexto, aqueles que não aceitam a derrota tentam recorrer aos exemplos dos mestres que não se vergaram a modas ou ao fácil.

Luísa Dacosta pertence a este escol de professores inspiradores. A escritora defende a “pedagogia do deslumbramento”, que sintetiza assim: “Na minha infância, como não havia televisão, fui criada com histórias da tradição portuguesa. E empenhei-me em passar esse amor da palavra aos alunos, tentar deslumbrar os alunos pela palavra. A minha pedagogia pode não estar na moda, mas foi uma pedagogia do deslumbramento. A mim interessa-me deslumbrar os alunos.”[1] Destas afirmações, destaquemos o sentido dos afectos e do amor às palavras vivido pelo professor, assim avesso a burocracias e a qualquer aplicação de fórmulas autoritárias na sua arte, que não têm outro préstimo senão excluir os alunos, seres humanos, e substituí-los por autómatos. O que este método de ensino pretende é, ao invés, ajudar os jovens a serem livres, capazes de criar, ver e sonhar, de pensar por si. Isto nos ensina a escritora em Na Água do Tempo: Diário[2], nas páginas dedicadas ao seu estágio pedagógico, realizado em 1971/72, quando redacções habituais ainda estavam subordinadas a temas vazios como “Abelhas” e “Agricultura”, servindo a formação de cidadãos obedientes e conformes ao sistema – “Os «sim, senhor professor», «sim, senhor doutor», «sim, senhor inspector», sim… Os futuros adultos que não dão, nem põem, nem tiveram problemas, os que não sabem dizer «NÃO» Irra!”[3]

Às vezes tenho a impressão de que regressámos às abelhas e à agricultura, mesmo que travestidas de novas tecnologias ou de igualmente novíssimos temas ecológicos, sociais, panfletários… Parece que mudam os tempos, mas permanecem os atavismos.


[1] Luísa Dacosta, “Empenhei-me a deslumbrar os alunos pela palavra”, Jornal de Notícias, 25/06/1997 (entrevista de Fernando Basto).

[2] Luísa Dacosta, Na Água do Tempo: Diário, Porto, Asa, 2005, pp. 149-170. A escritora, em nota de rodapé, identifica estas páginas deste modo: “Esta Agenda Escolar «Folhas Soltas» é constituída pelos artigos publicados na Vida Mundial entre 29/10/71 e 12/05/72 e fez parte da minha tese de exame de estado”- p. 149.

[3] Idem, p. 170.

Dia Mundial do Livro

O texto que se publica foi escrito por esta leitora em 2010, no âmbito de uma acção de formação de professores de Português. Lembrei-me dele neste dia em que, por aqui, não se comemorou o Dia Mundial do Livro.



O texto em discussão prossegue um debate originado pelos Novos Programas de Português do Ensino Secundário, defendendo a tese de que estes “representa[m] uma opção anti-canónica do ensino do Português.” Tal entendimento do documento legislativo vem ao encontro da percepção que fui desenvolvendo ao longo destes anos, seja a partir da prática pedagógica, seja a partir da audição de dispersas intervenções públicas, seja pela leitura dos próprios programas.
De facto, o emagrecimento da lista de nomes e épocas do cânone literário nacional é o sintoma maior daquilo que me parece ser uma tentativa de descentração do papel da literatura nas aulas de língua materna, a que se junta a organização do corpus de leituras em tipologias, e não nos tradicionais modos e géneros literários, postulando a separação clara e rígida entre textos literários e não literários, com o reforço da presença destes últimos; o “desprezo” pelo cânone é ainda sugerido pela ausência total de nomes de poetas ou prosadores no programa do décimo ano, excepção feita a Luís de Camões, cuja lírica aparece estranhamente incluída no conjunto dos textos autobiográficos. Esta aparição do poeta quinhentista vinda de nenhures, erradicada toda a espessura do espaço e do tempo, corre o sério risco de se converter num espectro difuso, que atormentará o aluno incauto em convívio com o “professor tecnocrata”. A maravilha desta poesia não seria muito mais perceptível para o jovem estudante se este já antes tivesse convivido com a delicadeza de uma cantiga de amigo, por exemplo? Parece-me que sim; aliás, não compreendo a ausência de, pelo menos, trezentos anos de literatura, assim como não compreendo outras omissões ou inclusões, que neste momento não é possível explanar. Apesar de tudo, apraz-me constatar a introdução explícita de outras artes (ou registos) nos programas, o que serve, creio, uma amplificação da cultura dos alunos e o aprofundamento das suas capacidades cognitivas e emocionais, da sua criatividade, em suma.
Regressando a Carlos Ceia, ressalvo a denúncia das más práticas de ensino de Português, responsáveis pelo descrédito da história e do cânone literários, cujo protagonista é o famigerado “professor tecnocrata”, seguidor de um método classificatório e ilustrativo. A esta figura docente contrapõe o “professor metódico”, aquele que não tem medo do cânone, porque o “interpreta”, porque o vive, porque “usa a história literária como arte de adestrar ou pôr em exercício a literatura.”
O “professor metódico”, ao contrário do seu triste alter-ego, é um homem livre e culto, que mobiliza vários campos do saber, como podemos inferir destas palavras de Ceia: “A aula do professor metódico é um acto do seu próprio pensamento […]. Simplesmente, o pensamento linguístico do professor metódico de Português é inseparável do pensamento literário, do pensamento cultural, do pensamento político, do pensamento ético, etc.”
Este é o professor de Português que todos nós quereríamos ser, diria eu. Gostaria que um professor assim pudesse crescer nas nossas escolas, pois acredito que a literatura é o meio mais completo para que um professor possa ajudar os seus alunos a serem cidadãos livres, racional e emocionalmente equilibrados, rigorosos e criativos. A propósito da importância desta arte no mundo contemporâneo, refere Italo Calvino, citado por David Mourão-Ferreira em Magia, Palavra, Corpo[2]: “ A literatura (e talvez apenas a literatura) é que pode criar anti-corpos capazes de se oporem à expansão da peste da linguagem”. Infelizmente, sou levada, mais uma vez, a concordar com Carlos Ceia, que vê, na escola portuguesa, o aparecimento do “professor-escrivão”: “Na escola portuguesa actual, só parece haver lugar para quem souber executar tarefas programadas por decreto-lei. Está a impor-se o burocrata das fichas, registos de faltas, grelhas, matrizes, relatórios, actas, planificações, projectos educativos, planos individuais, etc. O professor que tem o poder de pensar na matéria do seu ensino, reflectir sobre a melhor aprendizagem dos seus alunos e conduzir-se a um patamar de realização profissional de excelência académica está a ser suprimido por decreto” (Ceia: 2008[3]).
 
  
14 de Março de 2010


 
[1] "Considerações sobre o cânone e o professor de Português", Colóquio "Ensino do Português para o Século XXI", Faculdade de Letras de Lisboa, 25 de Março de 2004 (http://www.fcsh.unl.pt/docentes/cceia/images/stories/PDF/educare/consideracoes_canone.pdf).
 
[2] David Mourão-Ferreira, Magia, Palavra, Corpo, Lisboa, Cotovia, 1993.

[3] "O tempo do professor-escrivão" (2008). http://www.fcsh.unl.pt/docentes/cceia/images/stories/PDF/educare/professor-escriba.pdf