domingo, 13 de janeiro de 2013

Árvore bibliográfica

"Penso que não podia ter melhor herança, melhor vício, melhor entusiasmo."
Pedro Mexia, "Ler é Maçada: Árvore bibliográfica", Ler, Janeiro de 2013.

Pedro Mexia escreve na Ler de Janeiro uma interessante crónica sobre a sua relação com os livros, à qual deu o sugestivo título de "Árvore bibliográfica". Como as árvores genealógicas, também esta radica nos avós, passa pelos pais e floresce no tenro ramo em que se situa o autor das linhas citadas. Da estante do avô materno herdou autores políticos, "conservadores integralistas", Eça e Júlio Verne; da arrumadíssima biblioteca do pai, recebeu os prosadores clássicos portugueses, "de Camilo a Tomaz de Figueiredo", "poetas semimodernistas", literatura autobiográfica e ensaios não-académicos; a mãe facultou-lhe o acesso aos prosadores anglo-americanos, com destaque para Hemingway, e, the last but not the least, apresentou-lhe Hölderlin e Rilke, poetas da sua predilecção, aos quais deve muito da sua "mitologia amorosa", "por exemplo à exaltação hölderliniana, feita de sublimes e possíveis impossíveis". O cronista também deu o seu contributo para o crescimento desta árvores, através da compra de livros, na mítica e saudosa, digo, livraria Buchholz ou na Feira do Livro. Deste lote, destacam-se os livros do Tintim, álbuns sobre História, monografias e outras obras de síntese e divulgação, romances e poesia, sendo os seguintes os autores referidos: Eliot, Larkin, Wallace Stevens, Plath, Beaudelaire e Beckett; também se incluem filósofos como Kierkegaard e Burke. A semente desta planta? A Bíblia, onde "tudo começou".

A contemplação de árvore tão frondosa e bem podada não pode deixar de lembrar outros exemplares da espécie. A árvore bibliográfica da leitora é muito mais selvagem do que esta. Nasceu de raminhos vários, enxertados ao sabor do acaso, todos sobre uma raiz oral e rústica muito firme e resistente: as histórias, ladainhas, máximas, provérbios (ditados), rimas e lengalengas contadas na casa da Avó ou em serões dispersos. Depois, as histórias da menina A., a catequista, e o deslumbramento da palavra escrita. Os livros da irmã, os livros da escola, os livros da biblioteca. A biblioteca itinerante da Gulbenkian, onde requisitava os livros cujos títulos encontrara no manual escolar, depois daqueles excertos ou poemas mais bonitos ou interessantes, onde procurava as obras ou o autor que alguém tinha mencionado, de onde trazia volumes aconselhados pelo senhor X.. Reconhece hoje a importância deste "bibliotecário" para a sua formação, pois que lhe terá apresentado clássicos da literatura portuguesa e universal e da literatura juvenil; lembra-se bem de As Meninas Exemplares, da Condessa de Ségur, de As Mulherzinhas, de Louisa May Alcott ou de As Pupilas do Senhor Reitor, de Júlio Dinis, que a levou às lágrimas, a ponto de a Mãe a ameaçar com a proibição de tão sofrido prazer. Mas nem só de leituras edificantes e femininas se fez a educação da leitora. Era livre, e a partir da adolescência leu tudo o que lhe apareceu à frente: Eça, Dostoievsky, Camilo, Zola, Hugo, literatura erótica, literatura de cordel e tantos, tantos cujos títulos ou autores nunca reteve, desconhecedora de nacionalidades, períodos literários, escolas ou géneros, só seguidora do seu gosto e da sua compulsão. Livros lidos num ápice, em qualquer lugar, livros deixados a meio, um despropósito!
Leitora compulsiva e indisciplinada, só recebeu coordenadas na escola, especialmente no ensino secundário. Dessa altura, lembra-se das cantigas de amigo, de Fernão Lopes, de Garrett, de Herculano, de Eça, de Cesário, de Pessoa e de muitos outros. Mais tarde, o curso na Faculdade de Letras. Um curso por amor. Uma alegria.

Os seus amores legentes terão sido vários, mas as paixões ou amores profundos contam-se pelos dedos: Florbela Espanca (adolescência), Mário de Sá-Carneiro (Faculdade), Camilo Pessanha, Maria Gabriela Llansol, Luísa Dacosta...

Esta memória é também uma homenagem à Biblioteca Itinerante da Fundação Calouste Gulbenkian e à Escola, espaços de liberdade e de conhecimento, tão necessários, em especial para aqueles que não têm bibliotecas geracionais ou heranças de família eruditas.

3 comentários:

  1. Belas lembranças, boa genealogia e boas auto-aquisições. Falar de livros é um prazer e eu sinto-o quer se trata de escrever quer se trate de ler.

    Aquela curiosidade que algumas pessoas têm em ver nas revistas as casas dos outros? Comigo passa-se uma coisa parecida mas em relação aos livros. O que leram, o que estão a ler, como são as estantes? Pancada minha.

    Mas, por isso, foi um prazer ler este seu texto.

    Uma boa semana, Leitora.

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  2. Como a compreendo! Também tenho essa curiosidade e esse prazer, por isso gostei tanto desta crónica de Pedro Mexia. Será "pancada" de leitores...

    Para contemplar algumas estantes, livros e livrarias, recomendo um dos blogues do, agora, Telmo:

    http://livariofilia.blogspot.pt/

    Boas leituras e boa semana!

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