quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Pronomes e falácias

"Com efeito, é evidente que a unicidade e a subjectividade inerentes ao «eu» contradizem a possibilidade de uma pluralização. Se não pode haver vários «eu» concebidos pelo próprio «eu» que fala, é que «nós» é, não uma multiplicação de objectos idênticos, mas uma junção entre o «eu» e o «não-eu», seja qual for o conteúdo desse «não-eu»." (Émile Benveniste, O homem na Linguagem)
 
A primeira pessoa do plural é, de facto, uma entidade misteriosa. Quando alguém diz «nós», a quem se refere? Segundo Benveniste, na passagem supracitada, será a "uma junção entre o «eu» e o «não-eu»". Ora, quem será este «eu»? Quem será este «não-eu»? O enigma não se resolve teoricamente, que o cérebro da leitora está doente e cansado, não dá para mais. Tentemos antes uma aproximação prática, baseada na análise de frases, não dos tratados de linguística, mas sim dos mass media, mais modestos. Consideremos, por exemplo, este afirmação mil vezes repetida e ouvida ad nauseam:
 
Voltámos aos mercados.
 
Quem é que voltou aos mercados? «nós»? «eu»? «não-eu»? «eu» + «não-eu»? Este saco, aqui comigo, está vazio, e cada vez mais, pelo que posso inferir que não foi o meu «eu» que entrou em comércios. Ou este aqui é, ao invés, o lugar do «não-eu», o desprovido, o esvaziado, o expoliado de 30% do seu rendimento, enquanto lá é o lugar do «eu», o preenchido, o cheio, o receptáculo dos 30% que se foram de aqui?
 
Confirma-se, então, que a junção não é de partes idênticas, nem tem os mesmos efeitos nas instâncias assim reunidas. Veja-se o acontecido no concreto da parte que me coube: se antes era «eu» só, agora, na companhia de outro «eu», sou só «não-eu», casa vazia! Espanto.
 
 Benveniste descreve, deste modo, o fenómeno:

"Esta junção forma uma totalidade nova e de um tipo muito particular, cujos componentes não são equivalentes: em «nós», é sempre «eu» que predomina visto que não há «nós» senão a partir do «eu», e este «eu» subordina a si o elemento «não-eu» pela sua qualidade transcendente. A presença do «eu» é constitutiva do «nós»." (Émile Benveniste, O homem na Linguagem)

Pois.

2 comentários:

  1. Adorei!

    Deve ser das melhores (e mais inovadoras) abordagens ao tema que já vi. Parabéns.

    ResponderEliminar
  2. Obrigada!

    (Quiçá, merecia já umas equivalências a um canudo em Análise de Algo...)

    Um beijinho

    Bom fim-de-semana!

    ResponderEliminar