quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Palavra-corpo-magia

"O corpo; o amor do visível e do tangível; a conversão do subjectivo em objectivo; o apetite, a voracidade de e na própria criação: tudo isto se patenteia nas obras dos melhores poetas e narradores da língua portuguesa.
Em semelhante perspectiva, não deixará de inquietar - ou pelo menos de parecer estranha - a tão positiva aura de  que actualmente goza no estrangeiro uma obra como a de Fernando Pessoa: ela pode afigurar-se a grande, a genial excepção à regra. O certo, porém, é que Pessoa, a despeito da insensibilidade ou desconfiança diante dos valores do corpo, não cessa de sucumbir, sob variados aspectos, às múltiplas seduções da palavra-corpo: não falo dos seus jogos ornamentais de «em horas inda louras, lindas/Clarindas e Belindas brandas» e outros afins, característicos da primeira fase do poeta ortónimo; falo sobretudo do suporte «carnal» de muitos daqueles «oxímoros dialécticos» oportunamente postos em relevo pela crítica mais especializada; e também, particularmente em Álvaro de Campos, da concreta substancialidade inerente ao seu modo de exprimir e comunicar o abstracto."
 
David Mourão-Ferreira, Magia, Palavra, Corpo, Lisboa, Cotovia, 1993.

2 comentários:

  1. Gosto dessa do suporte carnal dos oxímoros dialécticos. Soa-me a piada do João Quadros dita pelo Bruno Nogueira.

    Já 'o corpo; o amor do visível e do tangível; a conversão do subjectivo em objectivo; o apetite, a voracidade de e na própria criação' me parece mais David Mourão-Ferreira, um mestre da magia dos corpos e das palavras.

    Um beijinho, Leitora!

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  2. :)

    ... David Mourão-Ferreira é mesmo um poeta maior, que leva a língua portuguesa para caminhos muito belos...

    Até breve!

    (Vou agora ao seu consultório...)

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