sábado, 23 de fevereiro de 2013

Século XVIII

Em Mafra, ficaram os Meninos surpreendidos com os amores freiráticos de D. João V, tão longamente íntimo da Madre Paula, abadessa do mosteiro de S. Dinis, em Odivelas. Não é fácil imaginar outras épocas, em que os papéis sociais e os afectos se distribuíam duma forma muito diversa da actual. Compreende-se a reacção.
 
Aconselha-se a leitura do novo livro de António Mega Ferreira e, a propósito do convento de Odivelas e das suas ligações, a "Carta Quinta: À condessa Coronini, dama da corte do Eleitor da Baviera".
 
 

Por exemplo, estas passagens:
 
"Neste convento, encerram-se umas seiscentas almas, mais ou menos devotas, das quais apenas metade tomaram votos definitivamente. Porém, se quiséssemos medir o pulso à nobreza de Portugal e aferir o seu quilate, não seria desaconselhável começar por aqui, onde se reúnem as filhas segundas de todas as casas nobres, as suas primas, as suas irmãs, as suas amigas. Umas por direito próprio ou prenda particular, outras por forte empenho de quem tem acesso aos corredores do poder, todas sonham com o dia em que passam a grade da entrada, aparentemente destinadas a uma vida de recolhimento e clausura, na verdade libertas da dura disciplina familiar, que as mantém fechadas nas suas casas, de onde apenas se ausentam para frequentar a igreja, e mesmo assim escoltadas por uma aia ou por um criado velho. O locutório destas discípulas de S. Bernardo, que o defunto rei João estragou com mimos, benesses e indulgências, é uma espécie de corte em formato reduzido, porque metade dos marqueses, condes e barões lá se encontram regularmente, menos para saber das suas familiares do que cortejar as amigas destas, quando não mesmo as suas rivais." (p. 152)
 
[O encontro no locutório]
 
"Os nobres de Lisboa, habitualmente tão pouco cuidados na sua indumentária e no seu aspeto, tinham caprichado para a ocasião: reluziam as belas casacas e coletes de cetim, azul-ferrete, amarelo, cor-de-rosa, feriam a vista as meias de seda brancas e as fivelas de prata dos sapatos pretos, erguiam-se bem alto as perucas muito frisadas dos velhos, que com elas encobriam a calvice, enquanto os mais novos faziam gala em exibi-las curtas, bem empoadas, à maneira francesa." (pp. 156-57)
 
"A certo ponto, uma freira que fazia de mestre de cerimónias deu ordem para que a multidão, que quase enchia a sala, se aquietasse. Viraram-se todos os olhares para a grade e, lentamente, a cortina que corria por detrás começou a abrir-se, dando lugar a um espaço sabiamente iluminado. Pouco a pouco, foi fazendo a sua entrada uma revoada de meninas, vestidas de branco ou de azul pálido, de olhos no chão e dedos entrançados no crucifixo que traziam ao peito, aparentando uma timidez e uma reserva a que nenhum homem poderia ficar indiferente. Era um teatro do Céu numa alcova de freiras, una cosa stupenda, e o meu coração bateu mais forte, porque o quadro inspirava os mais desvairados anseios e mortificações. Sucederam-se as exclamações, os sussurros e os suspiros dos freiráticos. Eu não conseguia fixar o olhar em nenhuma delas, porque a impressão de conjunto era tão intensa que os meus sentidos mergulharam numa espécie de beatitude celestial. E depois, uma a uma, foram-se aproximando da grade, espreitando, por detrás do véu de gaze muito fina, para localizar o seu pretendente. Movimentou-se aquela vaga de homens deslumbrados, acenando com a ponta dos dedos dos quais pendia um lenço de cambraia, e, por momentos, deixámos de ver as freiras, porque o topete das cabeleiras ocupava toda a linha do nosso olhar. Minutos depois, no entanto, recomposta a organização que ali os levara, e encontrando o par por que juravam e arruinavam as bolsas, estabeleceu-se a assembleia. As meninas, esquecida a compostura do primeiro encontro, entregavam-se agora alegremente ao doce suplício dos arrufos e promessas, trocando prendas e entrelaçando os dedos, e, até, em alguns casos, ousando beijos trocados através da grade, prontamente reprimido pelas freiras mais velhas, mas já não a tempo de lhes anular o efeito." (pp. 158-59)
 
 
António Mega Ferreira, Cartas de Casanova: Lisboa, 1757, Lisboa, Sextante Editora, 2013.

3 comentários:

  1. Tenho cá este livro. A ver se arranjo maneira de o ler. Gosto da maneira de escrever do António Mega Ferreira.

    Recomenda a leitura de livros fora do programa aos seus alunos? Ainda há alguns que gostam de ler? Para uma professora deve ser um estímulo muito grande quando tem alunos interessados.

    Um beijinho, Leitora!

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  2. Ainda há jovens que gostam de ler, sim! A maioria talvez não, mas penso que, mesmo assim, é dever de um professor dar a conhecer e recomendar outros livros, filmes, exposições, documentários, etc.
    Há tanto mundo, e a maior parte conhece tão pouco, que cabe aos professores abrirem portas, indicarem caminhos, mesmo correndo o risco de serem vistos como maluquinhos por alguns alunos e não só. A docência combina com persistência e resistência...

    Boa segunda-feira!

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  3. Acrescento que uma das principais coisas que ensinamos é a liberdade. Talvez haja uma certa arrogância nesta ideia, mas acredito nela e esforço-me, na medida das minhas capacidades.

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