segunda-feira, 25 de março de 2013

A política, em Portugal!

(...)

Já quase em desespero, Galvão Telles [Ministro da Educação] convida Ulisses Cortês [Ministro das Finanças] para um almoço a dois - num bom restaurante do Chiado - e defende de viva voz o seu projecto, com toda a verve e poder argumentativo de alguém que, além de professor de Direito, é um excelente advogado.
O seu colega das Finanças, já na sobremesa, diz-lhe que não é possível: a guerra do Ultramar é a prioridade da política financeira, e não se lhe pode cortar uma fatia tão importante.
Já durante o café, o Prof. Galvão Telles tem então a chamada «inspiração divina», e diz ao seu colega:
- Ó Ulisses, esqueça por uns instantes que somos Ministros. O que lhe peço é um gesto pessoal, de amigo a amigo. Faça-me lá esse favor!
Resposta imediata de Ulisses Cortês:
- Ó meu caro Amigo: mas isso muda o caso de figura. Se me põe o problema dessa forma, o seu projecto será imediatamente aprovado!
 
Parafraseando Júlio Dantas, como é diferente a política, em Portugal!
 
 
Diogo Freitas do Amaral, Ao correr da memória: Pequenas histórias da minha vida, Lisboa, Bertrand, 2003.
 
 
 
 
Aí está a biografia de Mário Soares, em 851 páginas, da autoria do jornalista Joaquim Vieira, da esfera dos livros (2013). Depois do ensaio autobiográfico do político português, algures pelas estantes familiares, é um bom livro para a compreensão da figura e da época histórica que viveu e marcou.
Da leitura de memórias, autobiografias, entrevistas, biografias ou outros textos deste género, constrói-se uma imagem de um tempo já passado muito interessante, em que sobressai a componente humana e, até, casual dos acontecimentos que ganharam lugar nos registos da História. Outro aspecto, para já evidente, em casos tão diversos como os de Adriano Moreira ou Mário Soares, por exemplo, para além da qualidade intelectual, é a importância das ligações pessoais para a acção política.
Pergunto: será mesmo essa a natureza da política ou é uma particularidade da situação portuguesa? Nas leituras em curso, ressalta uma certa coerência de classe, isto é, não obstante as diferenças ideológicas e as singulares histórias de vida, em que os vários protagonistas estiveram tantas vezes em lados opostos da barricada, parece evidenciar-se uma certa linguagem e maneiras que designaria como sendo próprias da classe média, ou melhor, da burguesia. As formas de tratamento, aquilo que se dizia e o modo como se dizia, o que se calava, as solidariedades estabelecidas, as incompreensões, as concepções de vida, as circunstâncias das amizades e dos contactos criados no liceu, na universidade e noutras instituições, até mesmo, em alguns casos, as referências, ou ausência delas, a figuras populares ou pequenos episódios vividos com as massas, todos estes aspectos parecem constituir sinais de uma certa identidade de classe.



Sem comentários:

Enviar um comentário