quinta-feira, 21 de março de 2013

alguém para a matar em cada minuto da vida dela


Ontem foi o dia da Primavera, dizem, e a leitora que sempre acreditou que a estação se iniciava a 21 de Março, dia da Primavera e da Poesia!
 
Hoje, então, é o Dia da Poesia, mas nenhum livro de poemas foi lido ou folheado por ela. Em vez disso, Flannery O'Connor num café lisboeta. Lisboa estava formosa, como é da sua condição, especialmente com a luz primaveril que invadia a sala decorada ao gosto austríaco ou português ou simplesmente urbano. Os transeuntes flanavam pelas mesas, pelas ruas, nesta época repletas de turistas e de portugueses de vários estilos, eram anónimos e ela também. É gostoso o anonimato à mesa de um café citadino, sobre a qual esperam bandeja com bule e chávena e livros acabados de adquirir.
 
Porquê Flannery O'Connor? Porque a P. é sua leitora e referiu algumas vezes o seu gosto pelos contos desta escritora norte-americana e um livro seu estava em destaque na livraria - Um bom homem é difícil de encontrar. Só o primeiro conto, com o mesmo título, foi lido, mas, desde já, é evidente que é uma óptima escritora: a atenção ao detalhe, as comparações inesperadas, ao mesmo tempo suaves e demolidoras (veja-se, por exemplo, esta descrição da mãe: "uma mulher jovem de calças elegantes, cuja face era tão larga e inocente como uma couve, rodeada por um lenço verde com duas pontas atadas no alto da cabeça, como as orelhas de um coelho."), as relações familiares, banais e cruéis, o acaso fortuito que tudo destrói, inesperada e violentamente. É um conto aparentemente suave, centrado na avó manipuladora e tagarela, mas cheio de humor e de uma acutilância que chega a ser cruel, e, no final, a negação da bondade naquela figura do inadaptado, psicopata, cujos olhos, sem óculos, "eram pálidos e tinham uma expressão indefesa".
 
[Aqui, parênteses para aqueles que ouvem muitas vezes este vocabulário do campo semântico, agora lexical, do desgraçadinho: inadaptado, bom no fundo, especial, invulgar, etc. Este conto desmonta essa ideia que as pessoas nem boas nem más têm de que todos distinguem o bem do mal e que todos escolherão o bem, até os aparentemente maus, quando cairem em si; fá-lo oferecendo-nos uma personagem que se chamava a si mesma O Inadaptado, porque se esquecia dos seus crimes e não encontrava correspondência entre estes e os castigos que lhe aplicavam por causa deles. No final, depois da atrocidade cometida, diz, acerca da avó: "Teria sido uma boa mulher (...) se tivesse estado lá alguém para a matar em cada minuto da vida dela". Horrível, não é?]

Flannery O'Connor, Um bom homem é difícil de encontrar, Lisboa, Cavalo de Ferro, 2008 (tradução de Clara Pinto Correia).

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