sexta-feira, 26 de abril de 2013

A barata exteriorizada

Afinal, cá em casa havia um livro de Clarice Lispector – Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, de 1999. Estava ali, com outros, em trânsito de estante. Quando chegou? Nesse ano da edição portuguesa ou em 2000? A data é imprecisa, mas terá sido antes do fim da adolescência, que ocorreu precisamente naquele dia, naquela hora em que a dermatologista sentenciou que aquele remédio seria bom, sim, se tivesse dezoito anos! Essa idade perdera-se há muito na poeira da estrada; seriam trinta, trinta e dois, quem o saberá? A verdade é que não estava pronta para Clarice.
Só agora chegara, ali, face a face com a matéria branca da barata exteriorizada, lia, lia, sem conseguir parar, em estado de arrebatamento, como o crítico que ficara doente com a leitura de A paixão segundo G. H.? Foram longos e penosos os caminhos, tão áridos, mas, ainda assim, percorridos com alegria e intensidade. Seria uma leitora “de alma já formada” como desejara a escritora, na nota de abertura daquele livro? 
 
Esta:
A possíveis leitores
 

Este livro é como um livro qualquer. Mas eu ficaria contente se fosse lido apenas por pessoas de alma já formada. Aquelas que sabem que a aproximação, do que quer que seja, se faz gradualmente e penosamente – atravessando inclusive o oposto daquilo de que se vai aproximar. Aquelas pessoas que, só elas, entenderão bem devagar que este livro nada tira de ninguém. A mim, por exemplo, o personagem G. H. foi dando pouco a pouco uma alegria difícil; mas chama-se alegria. 
 

C. L.

Clarice Lispector, A Paixão Segundo G. H., Lisboa, Relógio d’Água, 2013.
 
 
Era uma mulher pronta --------------
 

2 comentários:

  1. E onde quer que eu leia palavras assim, toda me rendo. Podem ler-se de forma solta - como eu leio -, pode, se calhar, ler-se de seguida, que são sempre palavras que trazem o espanto dentro delas. Não é?

    A minha filha que gosta tanto de ler, quando foi morar para casa dela, levou uns quantos livros fundamentais que lhe arranjei. Pois, para minha surpresa, não gostou de Clarice, achou que era uma maluquice. Nunca percebi até hoje ter lido aqui a explicação: era muito novinha, não tinha a alma pronta.

    Beijinhos, Leitora!

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    1. Também leio de forma solta, principalmente poesia. Outros livros gosto de lê-los de seguida; foi o que me acontecia há muitos anos com Virginia Woolf, Maria Gabriela Llansol ou Luísa Dacosta, e agora com Clarice Lispector.

      Vou lendo e, de repente, uma frase ou uma passagem que é quase uma revelação. Tal como lhe aconteceu com a leitura desta nota de "A Paixão Segundo G. H.". São assim os grandes escritores.

      Bom fim-de-semana

      Um beijinho

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