sexta-feira, 19 de abril de 2013

Clarice iridiscente

 

"Mas possuía um milagre, sim. O milagre das folhas. Estava andando na rua e do vento lhe caíra exatamente nos cabelos: a incidência de linha de milhões de folhas transformada em uma que caía, e de milhões de pessoas a incidência de reduzi-lo a ela. Isso lhe acontecia tantas vezes que passou a se considerar modestamente a escolhida das folhas. Com gestos furtivos tirara a folha dos cabelos e guardara-a na bolsa, como o mais diminuto diamante. Até que um dia, abrindo a bolsa, encontrara entre os mil objetos que sempre carregava a folha seca, engelhada e morta. Jogara-a fora: não lhe interessava o fetiche morto como lembrança. E também porque sabia que novas folhas iriam coincidir com ela. Um dia uma folha que caíra batera-lhe nos cílios. Achou então Deus de uma grande delicadeza."
 
 
Clarice Lispector, Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres, Lisboa, Relógio d'Água, 2013 (1ª ed. 1969).

2 comentários:

  1. Olá leitora,

    Está a gostar, não está? Não é luminosa esta mulher que tem o seu quê de transgressora?

    Gosto imenso dela e, quanto mais a leio, mais gosto. Tenho agora aqui ao meu lado o 'A Descoberta do Mundo', crónicas, um livro enorme. Fico doente por não ter tempo para o ler como deve ser mas abro ao acaso, leio um pouco, e, apesar de tão pouco, fico logo outra, como quando respiro a maresia na beira do rio (como fiz há pouco).

    Quando puder, não deixe de ler também este livro. Acho que vai gostar muito.

    Um abraço, Leitora!

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  2. Estou em estado de seduzida por esta escrita tão estranha e tão transgressora, concordo consigo, irresistível.

    Já tinha visto o livro de crónicas, mas hesitei, pelo tamanho e pela tentativa de contenção...

    Se mo aconselha, e com essa comparação, vou lê-lo assim que puder.

    Um beijinho

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