quinta-feira, 25 de abril de 2013

Comemorar a liberdade

Luísa Alvim publica hoje, no Facebook, um trabalho que fez sobre livros: Os livros portugueses proibidos no regime fascista: Bibliografia. São estes estudos que nos permitem ver o que ganhámos com a revolução e o fim da censura. Ganhámos liberdade de conhecer e, consequentemente, de escolha, o que não é pouco. A seguir transcrevo um poema de Natália Correia incluído numa famosa antologia poética organizada pela poetisa - Antologia de poesia portuguesa erótica e satírica (dos cancioneiros medievais à actualidade) . Escusado será dizer que a obra, editada pela Afrodite* (Lisboa) em 1965, foi proibida e a sua autora alvo de perseguição, tendo mesmo respondido em tribunal pelo feito**. O poema, para além de mostrar a coragem e espírito subversivo da grande mulher que foi Natália, revela, também, a possibilidade de libertação erótica e da palavra, talvez a mais difícil, mormente se colocada no feminino.
 
Ei-lo:
 
COSMOCÓPULA
 
I
 
Membro a pino
dia é macho
submarino
é entre coxas
teu mergulho
vício de ostras.
 
II
 
O corpo é praia a boca é nascente
e é na vulva que a areia é mais sedenta
poro a poro vou sendo o curso de água
da tua língua demasiada e lenta
dentes e unhas rebentam como pinhas
de carnívoras plantas te é meu ventre
abro-te as coxas e deixo-te crescer
duro e cheiroso como o aloendro.
 
 
 
Natália Correia
 
 
Natália Correia (selecção, prefácio e notas), Antologia de poesia portuguesa erótica e satírica (dos cancioneiros medievais à actualidade), Lisboa, Antígona e Frenesi, 1999.

 
*Esta editora - Edições Afrodite - foi criada em 1965, por Fernando Ribeiro Bento de Mello, tendo provocado escândalo com a publicação de obras polémicas e proibidas, que originaram processos judiciais por ultraje aos bons costumes. Mais informações podem ser consultadas no blogue sobre a editora Aqui.

**Leio que Natália Correia foi condenada a três anos de prisão com pena suspensa. Trsite Portugal.



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