terça-feira, 23 de abril de 2013

Dia Mundial do Livro

O texto que se publica foi escrito por esta leitora em 2010, no âmbito de uma acção de formação de professores de Português. Lembrei-me dele neste dia em que, por aqui, não se comemorou o Dia Mundial do Livro.



O texto em discussão prossegue um debate originado pelos Novos Programas de Português do Ensino Secundário, defendendo a tese de que estes “representa[m] uma opção anti-canónica do ensino do Português.” Tal entendimento do documento legislativo vem ao encontro da percepção que fui desenvolvendo ao longo destes anos, seja a partir da prática pedagógica, seja a partir da audição de dispersas intervenções públicas, seja pela leitura dos próprios programas.
De facto, o emagrecimento da lista de nomes e épocas do cânone literário nacional é o sintoma maior daquilo que me parece ser uma tentativa de descentração do papel da literatura nas aulas de língua materna, a que se junta a organização do corpus de leituras em tipologias, e não nos tradicionais modos e géneros literários, postulando a separação clara e rígida entre textos literários e não literários, com o reforço da presença destes últimos; o “desprezo” pelo cânone é ainda sugerido pela ausência total de nomes de poetas ou prosadores no programa do décimo ano, excepção feita a Luís de Camões, cuja lírica aparece estranhamente incluída no conjunto dos textos autobiográficos. Esta aparição do poeta quinhentista vinda de nenhures, erradicada toda a espessura do espaço e do tempo, corre o sério risco de se converter num espectro difuso, que atormentará o aluno incauto em convívio com o “professor tecnocrata”. A maravilha desta poesia não seria muito mais perceptível para o jovem estudante se este já antes tivesse convivido com a delicadeza de uma cantiga de amigo, por exemplo? Parece-me que sim; aliás, não compreendo a ausência de, pelo menos, trezentos anos de literatura, assim como não compreendo outras omissões ou inclusões, que neste momento não é possível explanar. Apesar de tudo, apraz-me constatar a introdução explícita de outras artes (ou registos) nos programas, o que serve, creio, uma amplificação da cultura dos alunos e o aprofundamento das suas capacidades cognitivas e emocionais, da sua criatividade, em suma.
Regressando a Carlos Ceia, ressalvo a denúncia das más práticas de ensino de Português, responsáveis pelo descrédito da história e do cânone literários, cujo protagonista é o famigerado “professor tecnocrata”, seguidor de um método classificatório e ilustrativo. A esta figura docente contrapõe o “professor metódico”, aquele que não tem medo do cânone, porque o “interpreta”, porque o vive, porque “usa a história literária como arte de adestrar ou pôr em exercício a literatura.”
O “professor metódico”, ao contrário do seu triste alter-ego, é um homem livre e culto, que mobiliza vários campos do saber, como podemos inferir destas palavras de Ceia: “A aula do professor metódico é um acto do seu próprio pensamento […]. Simplesmente, o pensamento linguístico do professor metódico de Português é inseparável do pensamento literário, do pensamento cultural, do pensamento político, do pensamento ético, etc.”
Este é o professor de Português que todos nós quereríamos ser, diria eu. Gostaria que um professor assim pudesse crescer nas nossas escolas, pois acredito que a literatura é o meio mais completo para que um professor possa ajudar os seus alunos a serem cidadãos livres, racional e emocionalmente equilibrados, rigorosos e criativos. A propósito da importância desta arte no mundo contemporâneo, refere Italo Calvino, citado por David Mourão-Ferreira em Magia, Palavra, Corpo[2]: “ A literatura (e talvez apenas a literatura) é que pode criar anti-corpos capazes de se oporem à expansão da peste da linguagem”. Infelizmente, sou levada, mais uma vez, a concordar com Carlos Ceia, que vê, na escola portuguesa, o aparecimento do “professor-escrivão”: “Na escola portuguesa actual, só parece haver lugar para quem souber executar tarefas programadas por decreto-lei. Está a impor-se o burocrata das fichas, registos de faltas, grelhas, matrizes, relatórios, actas, planificações, projectos educativos, planos individuais, etc. O professor que tem o poder de pensar na matéria do seu ensino, reflectir sobre a melhor aprendizagem dos seus alunos e conduzir-se a um patamar de realização profissional de excelência académica está a ser suprimido por decreto” (Ceia: 2008[3]).
 
  
14 de Março de 2010


 
[1] "Considerações sobre o cânone e o professor de Português", Colóquio "Ensino do Português para o Século XXI", Faculdade de Letras de Lisboa, 25 de Março de 2004 (http://www.fcsh.unl.pt/docentes/cceia/images/stories/PDF/educare/consideracoes_canone.pdf).
 
[2] David Mourão-Ferreira, Magia, Palavra, Corpo, Lisboa, Cotovia, 1993.

[3] "O tempo do professor-escrivão" (2008). http://www.fcsh.unl.pt/docentes/cceia/images/stories/PDF/educare/professor-escriba.pdf

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