quarta-feira, 24 de abril de 2013

Felicidade clandestina*

Dou continuidade ao meu encontro com Clarice Lispector. Leio as suas crónicas, em vez de arrumar a casa, de corrigir trabalhos dos alunos, de preparar aulas, de fazer telefonemas úteis ou de realizar quaisquer outras tarefas de igual interesse. Faço de conta que estou de férias, como se a leitura fosse um prazer clandestino, desses que se provam devagarinho para durarem. Um jeito manso, que me sugeriu este livro, adivinhou a felicidade que estas palavras me trariam.
 
 
 
Abro o livro ao acaso, leio o início da crónica "17 de abril: Ao correr da máquina":
 
"Meu Deus, como o amor impede a morte! Não sei o que estou querendo dizer com isso: confio na minha incompreensão, que tem me dado vida institiva e intuitiva, enquanto a chamada compreensão é tão limitada. Perdi amigos. Não entendo a morte. Mas não tenho medo de morrer. Vai ser um descanso: um berço enfim. Não a apressarei, viverei até a última gota de fel. Não gosto quando dizem que tenho afinidade com Virginia Woolf (só a li, aliás, depois de escrever o meu primeiro livro): é que não quero perdoar o fato de ela se ter suicidado. O horrível dever é ir até ao fim. E sem contar com ninguém. Viver a própria realidade. Descobrir a verdade. E, para sofrer menos, embotar-me um pouco. Pois não posso mais carregar as dores do mundo. Que fazer, se sinto totalmente o que as outras pessoas são e sentem? Eu vivo na delas mas não tenho mais força. Vou viver um pouco na minha. Vou me impermeabilizar um pouco mais. - Há coisas que jamais direi: nem em livros e muito menso em jornais. E não direi a ninguém no mundo. Um homem me disse que no Talmude falam de coisas que a gente não pode contar a muitos, há outras a poucos, e outras a ninguém. Acrescento: não quero contar nem a mim mesma certas coisas. Sinto que sei de umas verdades. Mas não sei se as entenderia mentalmente. E preciso amadurecer um pouco mais para me chegar a essas verdades. Que já pressinto. Mas as verdades não têm palavras. Verdades ou verdade? Não, nem pensem que vou falar em Deus: é um segredo meu."
 
 
Clarice Lispector, A descoberta do mundo, Lisboa, Relógio d'Água, 2013 (1ª ed. 1984).
 
 
*Título de um conto de Clarice Lispector incluído no manual Antologia, já referido neste blogue.

2 comentários:

  1. Não é mesmo uma maravilha? Eu sabia mesmo que ia gostar. São palavras tresloucadas, daquelas que correm dentro de nós misturadas com o sangue, são palavras que falam de nós de uma forma muito visceral. Não sei.

    Clarice Lispector é uma companhia para mim para todas as estações, desde há muito tempo. Abro um livro qualquer ao acaso e leio um bocado. E fico agarrada às palavras dela, quase sem conseguir prosseguir, com vontade de aspirar aquelas palavras como se fossem ar ou maresia.

    Estas crónicas têm isto de bom, não se fica com remorsos de não ler de seguida.

    Fiquei contente por saber que estava a gostar.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigada!

      Um beijinho e tenha um muito bom dia de Liberdade!

      Eliminar