quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Reencontros


"'It must have been fifteen - no, twenty years ago - that I last saw her' [...] And was Carrie still living at Marlow, and was everything still the same? Oh she could remember it as if it was yesterday [...] And it was still going on, Mrs Ramsay mused, gliding like a ghost among the chairs and tables of that drawing-room on the banKs of Thames where she had been so very, very cold twenty years ago; but now she went among them like a ghost; and it fascinated her, as if, while she had changed, that particular day, now become very still and beautiful, had remained there, all these years."
 
"For it was extraordinary to think that they had been capable of going on living all these years when she had not thought of them more than once all that time. How eventful her own life had been, during those same years. Yet perhaps Carrie Manning had not thought about her either. The thought was very strange and distasteful."
  
Virginia Woolf, To the Lighthouse, Grafton Books, London, 1988.
 
 

As primeiras leituras de Virginia Woolf constituíram um deslumbramento. Foi precisamente o livro citado o que primeiro cativou o seu olhar, pela beleza e elegância da linguagem, pela inesperada forma de construção de personagens e da sua relação com o espaço e o tempo. Mrs Ramsay destacou-se desde logo. Hoje ainda lhe ensina muito.
 
A passagem transcrita ocorreu-lhe recentemente. Esta espelha uma forma de egocentrismo (egoísmo), que consiste na impossibilidade de concebermos o mundo para além de nós mesmos, impossibilidade esta que pode existir em estados mais agravados ou mais atenuados, conforme e inteligência de cada um. O tempo torna ainda mais nítido este facto. Na verdade, quantas vezes nos deixamos enganar pelos fantasmas do passado, crendo que os conhecidos de outrora são, hoje, aqueles de quem nos lembramos, os mesmos que se sentaram connosco à mesa de distantes cafés ou em pretéritas salas de estar? Também somos confundidos com a imagem que outros criaram das nossas pessoas. E, assim, damos por nós estupefactos perante o desacerto entre a face adolescente há muito perdida e a cara da medusa, ali, plasmada à nossa frente.
 
(Aqui um parêntesis para dizer que "cara de medusa" é, talvez, uma forma pretensamente erudita de nomear aquilo que A. P. defende em termos mais claros: as pessoas pioram com a idade; o que eram características peculiares na adolescência são defeitos e vícios aos quarenta e mais além. A primeira vez que ouvi esta tese, ri-me; hoje já não me apetece tanto, pois começo a pensar que há nela verdade. )

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