terça-feira, 22 de outubro de 2013

A menina ri; ri de quê?

 
No início do ano letivo, uma professora que estava a dar aulas à noite há vários anos e que, pelas contingências de horário, se via remetida ao ensino diurno, lamentava-se:
- O quê? A sério? É preciso isso? O ensino tornou-se tão chato!
 
Tinha razão, a colega, e não só por causa das inúmeras "grelhas". De facto, a burocracia não se traduz apenas em muita "papelada" - grelhas de avaliação, relatórios, critérios, parâmetros, listas e etc. -, mais grave que toda esta inutilidade é o fechamento do espírito. Criou-se o hábito das receitas, dos textos conformes a modelos, propícios  a uma abordagem estruturalista, segura e conducente a leituras consensuais. Está bem amarrado, o professor, como estão atados, de pés e mãos, os alunos. Talvez por isso o cinzentismo impere: os Meninos não gostam de ler, os Mestres não têm prazer em ler-lhes; o famigerado Programa insiste nos textos dos media e do domínio transacional; a poesia, de preferência épica ou lírica, vá lá, ainda se aceita, mesmo se for para dizer que não se percebe nada;  já o humor... Oh, não! C'horror! Então, essas coisas na sala de aula?
 
Fui reparando, ao longo dos anos, que a adolescência é muito mais conservadora do que aquilo que se pensa, a diferença é que, em tempos, a confiança no professor, no seu saber e na sua seriedade, era maior. Por outo lado, a pressão das "notas" e das "médias" era, talvez, menor. Agora, nas turmas do ensino regular, ditas "normais", constituídas por alunos que querem tirar cursos superiores e ocupar cargos de responsabilidade, quiçá de chefia, é preciso medir o que se diz com a bitola do politicamente correto, não vá alguma alma ficar chocada por qualquer murmúrio não previsto no breviário da tacanhez. Ainda assim, há oásis de liberdade. Em nome da liberdade, chamo à sala Cesariny, Alexandre O'Neill, Natália Correia, Nuno Artur Silva, Inês Fonseca Santos, Ricardo Araújo Pereira, António Lobo Antunes, Fernando Ribeiro de Mello e tantos outros, até O meu Pipi* (Ai! Agora é que resvalou.)

 
   *Aqui um exercício de autocensura: "Este foi só de raspão, por engano..."
 

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