domingo, 20 de outubro de 2013

"insistir e esperar"


Leituras de fim de semana: José Tolentino Mendonça



As crónicas de José Tolentino Mendonça no Expresso (Revista) tornaram-se de leitura esperada. A cada fim de semana, o pensamento e a escrita fluída, bela e profunda deste homem, poeta e padre, iluminam o mundo em redor e o interior. Neste sábado, era possível ouvir um hino à vida e ao perdão. Nestas passagens, por exemplo:
 
"Pode parecer estranho, mas a dada altura agarramo-nos à dor como se ela fosse um heroísmo e pomo-nos a expor feridas como quem exibe condecorações. O nosso desígnio, inconfessado, mas claríssimo, passa a ser atravessar a vida (e o que nos resta dela) com o estatuto de vítima. "
 
"Muitas vezes aproveitamos a dor para nos instalarmos nela. Preferimos ficar a esgravatar na ferida, a comer diariamente o pão velho da nossa maldade, em vez de termos sede de beleza, desejo de outra coisa. Parece que aquilo que aconteceu (e de mal, ainda por cima) saciou-nos completamente. As ofensas recebidas revelam-nos um duro e irónico retrato de nós. Ora, para perdoar é preciso ter uma furiosa e paciente sede do que (ainda) não há. O perdão começa por ser uma luzinha. E é bom insistir e esperar."
 
"Dizemos que certas coisas não têm perdão - ou que nunca nos perdoaremos a nós próprios. Mas perdoamos - fazemo-lo a todo o momento."
 
Expresso: Revista, 19/0ut/2013
 
 
 
Umas leituras convocam outras, e esta chamou um livro maravilhoso, do mesmo autor, José Tolentino Mendonça - Nenhum caminho será longo: Para uma teologia da amizade:
 
"Que quer dizer: «Tu és deveras meu amigo?» Simão compreende finalmente Jesus; que Jesus não nos pede o que nós não somos capazes de dar. Ele aceita a nossa amizade que fraqueja, os nossos sins ainda incipientes, os passos que damos vacilantes. Para fazer-nos subir até si, Jesus desce até nós.
O Evangelho conta que Pedro ficou triste por Jesus se ter de adaptar à nossa humanidade. Mas é esta adaptação de Jesus, esta aceitação radical da nossa pobreza, este seu caminhar incessante ao encontro da nossa amizade, a fonte da nossa esperança. E tal como ao primeiro entre os discípulos, também a nós, a cada um de nós, Jesus repete apenas: "Segue-me.»" (p. 70)
 
 José Tolentino Mendonça, Nenhum caminho será longo: Para uma teologia da amizade, Lisboa, Paulinas Editora, 2012.
 
 
[E nós, aceitamos? E, tão importante, confiamos?]

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