quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Surpresas

Vinha a caminho de casa a olhar para anteontem, quando a caixa do correio resolveu surpreender-me: em vez das cartas circunstanciais do costume, promessas de "Grande Aventura" e "Super Fim de Semana", au Lidle. Nem mais!
 
 
 
Nem mais, disse? Havia mais: a oferta de um exemplar da revista Visão (nº 1076 - 17 a 23 de outubro de 2013), com uma belíssima crónica de António Lobo Antunes - "Olhar para ontem".
 
Cito:
 
"[...] tanto tédio, tanto ressentimento, tanto cansaço, se mudasses de penteado, se comprasses uns vestidos novos, se usasses saltos mais altos, se me surpreendesses, tornámo-nos tão quotidianos, meu Deus, tão monótonos, não dizes nenhuma coisa que me interesse, não digo nenhuma coisa que te interesse e não é possível não dizermos nunca seja o que for que não interesse o outro havendo pessoas que nos acham divertidos, cultos, se calhar fascinantes [...]"
 
(O possível é vasto, e a esperança também, diz a vozinha intrometida.)
 
Li pouco Lobo Antunes; as crónicas leio, com um prazer sempre renovado, já os romances esquivam-se, desde aquele dia, nos verdes anos da adolescência, em que não consegui continuar o Caminho do Inferno. A intensidade, o susto, o medo, ou lá o que era, obrigou-me a fechar o livro. Esta reação intempestiva, irracional, só me aconteceu com outro escritor, Mishima, não me lembro do título do romance. A força narrativa e expressiva destes textos, um dia, longe, obrigaram-me a desviar o olhar. Não me esqueci.
 
As coisas novas e velhas vêm e vão, vão e vêm, nunca nos deixam sós nem deixam de nos surpreender. Hoje, também a antiga mesa de estudo, restaurada, mas com uma leve folga no tecido a lembrar o tempo passado, me saudou. Convidava-me para uma bisca lambida ou para cair nas profundezas dos calhamaços sábios?
 
 

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