quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

são rosas, mas tinham pedido pão de forma


À tarde e à noite, os professores preparam as suas aulas. Alguns preparam-nas sempre mal (quase sempre, vá...). Ei-las, às evidências - óóóóóóó-óóó-úúú-óú-óó-íí-óóóóóóó -  etc. e mais a seguir:
 
 
 
 Binómio de Newton
 
 
 
(a + b) n = n C0 a n + n C1 a n-1  b + n C2 a n-2  b 2  + ... + n C n-1 a  b n-1  + n Cn bn
 
 
Vénus de Milo
 
 
 

 
Vento

óóóó — óóóóóóóóó — óóóóóóóóóóóóóóó
 
 
 
????????????????????????????????????????
 
 
-O que é isto? Quem adivinha, quem é? Quem consegue relacionar os três elementos?
- ...
- o poeta
 
 
 
 
O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo.
O que há é pouca gente para dar por isso.
 
óóóó — óóóóóóóóó — óóóóóóóóóóóóóóó
 
(O vento lá fora).
 
 
Álvaro de Campos
 s.d.
Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).
 

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

cada árvore

 
Para Ujm, in heaven
 

 
Cada árvore é um ser para ser em nós
Para ver uma árvore não basta vê-la
a árvore é uma lenta reverência
uma pessoa reminiscente
uma habitação perdida
e encontrada
À sombra de uma árvore
o tempo já não é o tempo
mas a magia de um instante que começa sem fim
a árvore apazigua-nos com a sua atmosfera de folhas
e de sombras interiores
nós habitamos a árvore com a nossa respiração
com a da árvore
com a árvore nós partilhamos o mundo dos deuses
 
 
António Ramos Rosa, cada árvore é um ser para ser em nós, s.l., In-Libris, 2002.
(Este livro é composto por poemas de António Ramos Rosa e fotografias de Paulo Gaspar Ferreira e, ainda, por um CD, que contém a captação do som que rodeia a árvore fotografada em 2001, em Belgais; a edição audio foi executada por Brendan Hemsworth.)

domingo, 27 de janeiro de 2013

das cinzas


Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias.

Sophia de Mello Breyner Andresen, "Poesia I" in Obra Poética I, Lisboa, Caminho, 1995.

sábado, 26 de janeiro de 2013

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Pronomes e falácias

"Com efeito, é evidente que a unicidade e a subjectividade inerentes ao «eu» contradizem a possibilidade de uma pluralização. Se não pode haver vários «eu» concebidos pelo próprio «eu» que fala, é que «nós» é, não uma multiplicação de objectos idênticos, mas uma junção entre o «eu» e o «não-eu», seja qual for o conteúdo desse «não-eu»." (Émile Benveniste, O homem na Linguagem)
 
A primeira pessoa do plural é, de facto, uma entidade misteriosa. Quando alguém diz «nós», a quem se refere? Segundo Benveniste, na passagem supracitada, será a "uma junção entre o «eu» e o «não-eu»". Ora, quem será este «eu»? Quem será este «não-eu»? O enigma não se resolve teoricamente, que o cérebro da leitora está doente e cansado, não dá para mais. Tentemos antes uma aproximação prática, baseada na análise de frases, não dos tratados de linguística, mas sim dos mass media, mais modestos. Consideremos, por exemplo, este afirmação mil vezes repetida e ouvida ad nauseam:
 
Voltámos aos mercados.
 
Quem é que voltou aos mercados? «nós»? «eu»? «não-eu»? «eu» + «não-eu»? Este saco, aqui comigo, está vazio, e cada vez mais, pelo que posso inferir que não foi o meu «eu» que entrou em comércios. Ou este aqui é, ao invés, o lugar do «não-eu», o desprovido, o esvaziado, o expoliado de 30% do seu rendimento, enquanto lá é o lugar do «eu», o preenchido, o cheio, o receptáculo dos 30% que se foram de aqui?
 
Confirma-se, então, que a junção não é de partes idênticas, nem tem os mesmos efeitos nas instâncias assim reunidas. Veja-se o acontecido no concreto da parte que me coube: se antes era «eu» só, agora, na companhia de outro «eu», sou só «não-eu», casa vazia! Espanto.
 
 Benveniste descreve, deste modo, o fenómeno:

"Esta junção forma uma totalidade nova e de um tipo muito particular, cujos componentes não são equivalentes: em «nós», é sempre «eu» que predomina visto que não há «nós» senão a partir do «eu», e este «eu» subordina a si o elemento «não-eu» pela sua qualidade transcendente. A presença do «eu» é constitutiva do «nós»." (Émile Benveniste, O homem na Linguagem)

Pois.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Estesia

Está patente na Gulbenkian uma exposição lindíssima - As Idades do Mar (só até 27 de Janeiro!).

Organiza-se em cinco núcleos temáticos: A Idade dos Mitos, A Idade do Poder, A Idade das Tormentas, A Idade Efémera e A Idade Infinita. São todos óptimos, mas, nesta nota breve, saliento o primeiro - A Idade dos Mitos - e este quadro surpreendente:
 
 
Sirenes, 1875 - Arnold Böcklin (1827-1901) | Foto: Andres Kilger ©2012. Photo Scala, Florence/BPK, Bildagentur für Kunst, Kultur und Geschichte, Berlin
Têmpera sobre tela 46 x 31 cm Staatliche Museen zu Berlin, Nationalgalerie - Inv. A I 754Arnold B
 
 
É conhecida a riquíssima simbologia do mar, alicerçada nos mitos, com destaque para os greco-latinos (deuses, semideuses e outros semelhantes que habitam as águas ou a costa). Todos sabemos que esta simbologia tanto pode ser masculina, como feminina, basta pensarmos nas inúmeras representações de Vénus/Afrodite ou de Neptuno/Poseidon, por exemplo, bem patentes na exposição, principalmente as representações dos mitos femininos. Agora, ver nas sedutoras e belas sereias estas galinhas é que não esperava!


Injustiça

Em vez de ficar em casa enredada em papéis ou deprimente/depressiva (des)arrumação, um passeio. Trânsito entre paisagens aparentemente incomunicáveis: uma, urbana, serena, com elegantes em cultural cafetaria; outra, movel, atormentada, atravessada por gente batida em busca de transporte para o subúrbio ou mais além. Uns, harmoniosos, dando bom nome ao estilo casual; outros, retorcidos, lembrando que até o traje pode ser um grito ou feio esgar.

domingo, 20 de janeiro de 2013

sábado, 19 de janeiro de 2013

Noite

Cecília Meireles

Uma poesia bela, luminosa, com uma tristeza fininha...

NOITE

Húmido gosto da terra,
cheiro de pedra lavada,
- tempo inseguro do tempo! -
sombra do flanco da serra,
nua e fria, sem mais nada.

Brilho de areias pisadas,
sabor de folhas mordidas,
- lábios da voz sem ventura! -
suspiro das madrugadas
sem coisas acontecidas.

A noite abria a frescura
dos campos todos molhados,
- sozinha, com o seu perfume! -
preparando a flor mais pura
com ares de todos os lados.

Bem que a vida estava quieta.
Mas passava o pensamento...
- de onde vinha aquela música?
E era uma nuvem repleta,
entre as estrelas e o vento.

 
Cecília Meireles, Antologia Poética, Lisboa, Relógio d'Água, 2002. 

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

 
Hino Órfico à Noite
 
(Grécia)
 
 
Cantarei a criadora dos homens e deuses - cantarei a Noite.
Noite, fonte universal.
Ó forte divindade ardendo com as estrelas, Sol negro,
invadida pela paz e o tranquilo e múltiplo sono,
ó Felicidade e Encantamento, Rainha das vigílias, Mãe do sonho,
e Consoladora, onde as misérias repousam as campânulas de sangue,
ó Embaladora, Cavaleira, Luz Negra, Amiga Geral,
ó Incompleta, alternadamente terrestre e celeste,
ó Arredondada no meio das forças tenebrosas,
leve afastando a luz da casa dos mortos e de novo te afastando tu própria.
A terrível Fatalidade é a mãe de todas as coisas,
ó Noite Maravilhosa, Constelação Calma, Ternura Secreta do Tempo,
escuta, ó Indulgente Antiga, a imploração terrena,
e aparece com teu rosto obscuro e lento no meio dos vivos terrores do
mundo.


Herberto Helder, "O bebedouro nocturno", in Poesia Toda, Lisboa, Assírio & Alvim, 1990.

domingo, 13 de janeiro de 2013

Árvore bibliográfica

"Penso que não podia ter melhor herança, melhor vício, melhor entusiasmo."
Pedro Mexia, "Ler é Maçada: Árvore bibliográfica", Ler, Janeiro de 2013.

Pedro Mexia escreve na Ler de Janeiro uma interessante crónica sobre a sua relação com os livros, à qual deu o sugestivo título de "Árvore bibliográfica". Como as árvores genealógicas, também esta radica nos avós, passa pelos pais e floresce no tenro ramo em que se situa o autor das linhas citadas. Da estante do avô materno herdou autores políticos, "conservadores integralistas", Eça e Júlio Verne; da arrumadíssima biblioteca do pai, recebeu os prosadores clássicos portugueses, "de Camilo a Tomaz de Figueiredo", "poetas semimodernistas", literatura autobiográfica e ensaios não-académicos; a mãe facultou-lhe o acesso aos prosadores anglo-americanos, com destaque para Hemingway, e, the last but not the least, apresentou-lhe Hölderlin e Rilke, poetas da sua predilecção, aos quais deve muito da sua "mitologia amorosa", "por exemplo à exaltação hölderliniana, feita de sublimes e possíveis impossíveis". O cronista também deu o seu contributo para o crescimento desta árvores, através da compra de livros, na mítica e saudosa, digo, livraria Buchholz ou na Feira do Livro. Deste lote, destacam-se os livros do Tintim, álbuns sobre História, monografias e outras obras de síntese e divulgação, romances e poesia, sendo os seguintes os autores referidos: Eliot, Larkin, Wallace Stevens, Plath, Beaudelaire e Beckett; também se incluem filósofos como Kierkegaard e Burke. A semente desta planta? A Bíblia, onde "tudo começou".

A contemplação de árvore tão frondosa e bem podada não pode deixar de lembrar outros exemplares da espécie. A árvore bibliográfica da leitora é muito mais selvagem do que esta. Nasceu de raminhos vários, enxertados ao sabor do acaso, todos sobre uma raiz oral e rústica muito firme e resistente: as histórias, ladainhas, máximas, provérbios (ditados), rimas e lengalengas contadas na casa da Avó ou em serões dispersos. Depois, as histórias da menina A., a catequista, e o deslumbramento da palavra escrita. Os livros da irmã, os livros da escola, os livros da biblioteca. A biblioteca itinerante da Gulbenkian, onde requisitava os livros cujos títulos encontrara no manual escolar, depois daqueles excertos ou poemas mais bonitos ou interessantes, onde procurava as obras ou o autor que alguém tinha mencionado, de onde trazia volumes aconselhados pelo senhor X.. Reconhece hoje a importância deste "bibliotecário" para a sua formação, pois que lhe terá apresentado clássicos da literatura portuguesa e universal e da literatura juvenil; lembra-se bem de As Meninas Exemplares, da Condessa de Ségur, de As Mulherzinhas, de Louisa May Alcott ou de As Pupilas do Senhor Reitor, de Júlio Dinis, que a levou às lágrimas, a ponto de a Mãe a ameaçar com a proibição de tão sofrido prazer. Mas nem só de leituras edificantes e femininas se fez a educação da leitora. Era livre, e a partir da adolescência leu tudo o que lhe apareceu à frente: Eça, Dostoievsky, Camilo, Zola, Hugo, literatura erótica, literatura de cordel e tantos, tantos cujos títulos ou autores nunca reteve, desconhecedora de nacionalidades, períodos literários, escolas ou géneros, só seguidora do seu gosto e da sua compulsão. Livros lidos num ápice, em qualquer lugar, livros deixados a meio, um despropósito!
Leitora compulsiva e indisciplinada, só recebeu coordenadas na escola, especialmente no ensino secundário. Dessa altura, lembra-se das cantigas de amigo, de Fernão Lopes, de Garrett, de Herculano, de Eça, de Cesário, de Pessoa e de muitos outros. Mais tarde, o curso na Faculdade de Letras. Um curso por amor. Uma alegria.

Os seus amores legentes terão sido vários, mas as paixões ou amores profundos contam-se pelos dedos: Florbela Espanca (adolescência), Mário de Sá-Carneiro (Faculdade), Camilo Pessanha, Maria Gabriela Llansol, Luísa Dacosta...

Esta memória é também uma homenagem à Biblioteca Itinerante da Fundação Calouste Gulbenkian e à Escola, espaços de liberdade e de conhecimento, tão necessários, em especial para aqueles que não têm bibliotecas geracionais ou heranças de família eruditas.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

sair do buraco cair no abismo sair do buraco cair no abismo sair do buraco cair no abismo sair do buraco cair no abismo sair do buraco cair


(do blogue No vazio da onda)
 
 
 
[É melhor rir, mesmo sem vontade.]

Luís de Camões

Diz a memória que os primeiros contactos com o grande Poeta se deram nos bancos de escola (cadeiras, sejamos precisos). Desde então não se esgotou o fascínio por esta poesia, especialmente pela lírica.
 
Neste início de 2º Período, estuda-se a lírica camoniana, o que tem despertado algum interesse e gosto entre os adolescentes. Hoje, uma breve ficha sobre um poema lembrou leituras e emoções antigas. Foi este o soneto escolhido:
 
 
Está o lascivo e doce passarinho
com o biquinho as penas ordenando,
o verso sem medida, alegre e brando,
espedindo no rústico raminho.
 
O cruel caçador (que do caminho
se vem calado e manso desviando),
na pronta vista a seta endireitando,
lhe dá no Estígio Lago eterno ninho.
 
Dest'arte o coração, que livre andava
(posto que já de longe destinado),
onde menos temia, foi ferido.
 
Porque o Frecheiro cego me esperava,
pera que me tomasse descuidado,
em vossos claros olhos escondido.
 
 
Luís de Camões, Lírica Completa-II, Lisboa, INCM, 1994.
 
 


segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

... continuarei a buscar, a escutar e a esperar...*

 
O Natal começa no início de Dezembro, quando se enfeita a Árvore e se alinda a casa com os ornamentos próprios da época; termina em Janeiro, no dia de Reis, quando as casas amanhecem com corações pintados nas paredes (amanheciam...). Era assim; ainda é um pouco, que as tradições não se vão completamente, ficam sempre restos, sinais de afectos e ligações.
 
Este ano, três contos de natal estiveram sempre presentes, através da leitura ou da reflexão:
 
- Eça de Queirós, "Suave milagre" in Contos (Anagrama);
- Sophia de Mello Breyner Andresen, "Os três reis do Oriente", in Contos Exemplares (Figueirinhas);
- Luísa Dacosta, "Os magos que não chegaram a Belém", in Natal com Aleluia (Asa).


 




O que nos dizem estes textos?
 
O primeiro não nos fala do mistério do nascimento, revela-nos, sim, o deslumbramento da palavra e da obra de Jesus, tão procurado, mas só visto por "aqueles ditosos que o seu desejo escolhia"; neste conto, surpreendentemente, um desses escolhidos é uma frágil criança, acompanhada só de sua mãe, da dor e da esperança.
 
O segundo, segue a tradição dos Reis Magos - Gaspar, Melchior, Baltasar - para nos propor a redenção, a fraternidade e a busca de um deus que a todos proteja, pois todos, a um tempo, somos "humilhados e oprimidos":
 
"- Dizei-me onde está o altar do deus que protege os humilhados e os oprimidos, para que eu o implore e adore.
Ao cabo de um longo silêncio, os sacerdotes responderam:
- Desse deus nada sabemos.
*
Naquela noite, o rei Baltasar, depois de a Lua ter desaparecido atrás das montanhas, subiu ao cimo dos seus terraços e disse:
- Senhor, eu vi. Vi  a carne e o sofrimento, o rosto da humilhação, o olhar da paciência. E como pode aquele que viu estas coisas não te ver? E como poderei suportar o que vi se não te vir?"
 
O terceiro conto liberta os Magos do peso do ouro, das ricas oferendas, do poder e da fama e mostra-nos três homens bons, "magos, sacerdotes que estudavam o céu e os seus astros". Três homens, entre muitos, que não chegaram a Belém e que não figuram no presépio: "Há sempre os que conseguem e os outros. Os que ficam pelo caminho." Estes magos regressaram à sua terra, a fim de protegerem um menino abandonado que encontraram numa escura gruta, escolhendo o difícil caminho da desistência de objectivos traçados, ainda que pelos melhores motivos, os que se enraizam no amor. Todavia, não o fizeram sem protestação:
 
"- Regressar?! E a Luz que vínhamos a seguir? - protestou o mais novo, para quem era doloroso, depois de tantos trabalhos e canseiras, não levar a cabo o que se tinha proposto. - Desistimos assim da Luz que nos guiou até aqui? Desistimos, agora, quando estávamos tão perto?
- Compreendo o que sentes, irmão, também já fui novo... Mas há a criança. Como poderemos abandoná-la?"
 
Boas leituras a fechar o Natal...
 
(* do conto de Sophia supracitado)

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Keep calm and carry on

O ano de 2013 chegou. Será um ano de renovação ou de continuidade, difícil, de certeza. Comecemos com a história de uma livraria - Barter Books - e de um cartaz, que se tornou icónico e que bem poderia ser um auxiliar para os dias vindouros. O seu slogan é simples e significativo:
 
 
Keep calm
and
Carry On