terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

O poema não cabe no teste

[Folhear, folhear livros de poesia e não encontrar um poema que sirva a resposta fácil. Este, por exemplo, tão belo, nunca seria escolhido.]
 
 
 
Visto de perto é a melancolia.
Assim todas as manhãs a de hoje e a seguinte.
 
 
Visto de perto não é barco é melancolia.
 
 
João Miguel Fernandes Jorge, À beira do mar de Junho, Lisboa, Na Regra do Jogo, 1982.
 

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Século XVIII

Em Mafra, ficaram os Meninos surpreendidos com os amores freiráticos de D. João V, tão longamente íntimo da Madre Paula, abadessa do mosteiro de S. Dinis, em Odivelas. Não é fácil imaginar outras épocas, em que os papéis sociais e os afectos se distribuíam duma forma muito diversa da actual. Compreende-se a reacção.
 
Aconselha-se a leitura do novo livro de António Mega Ferreira e, a propósito do convento de Odivelas e das suas ligações, a "Carta Quinta: À condessa Coronini, dama da corte do Eleitor da Baviera".
 
 

Por exemplo, estas passagens:
 
"Neste convento, encerram-se umas seiscentas almas, mais ou menos devotas, das quais apenas metade tomaram votos definitivamente. Porém, se quiséssemos medir o pulso à nobreza de Portugal e aferir o seu quilate, não seria desaconselhável começar por aqui, onde se reúnem as filhas segundas de todas as casas nobres, as suas primas, as suas irmãs, as suas amigas. Umas por direito próprio ou prenda particular, outras por forte empenho de quem tem acesso aos corredores do poder, todas sonham com o dia em que passam a grade da entrada, aparentemente destinadas a uma vida de recolhimento e clausura, na verdade libertas da dura disciplina familiar, que as mantém fechadas nas suas casas, de onde apenas se ausentam para frequentar a igreja, e mesmo assim escoltadas por uma aia ou por um criado velho. O locutório destas discípulas de S. Bernardo, que o defunto rei João estragou com mimos, benesses e indulgências, é uma espécie de corte em formato reduzido, porque metade dos marqueses, condes e barões lá se encontram regularmente, menos para saber das suas familiares do que cortejar as amigas destas, quando não mesmo as suas rivais." (p. 152)
 
[O encontro no locutório]
 
"Os nobres de Lisboa, habitualmente tão pouco cuidados na sua indumentária e no seu aspeto, tinham caprichado para a ocasião: reluziam as belas casacas e coletes de cetim, azul-ferrete, amarelo, cor-de-rosa, feriam a vista as meias de seda brancas e as fivelas de prata dos sapatos pretos, erguiam-se bem alto as perucas muito frisadas dos velhos, que com elas encobriam a calvice, enquanto os mais novos faziam gala em exibi-las curtas, bem empoadas, à maneira francesa." (pp. 156-57)
 
"A certo ponto, uma freira que fazia de mestre de cerimónias deu ordem para que a multidão, que quase enchia a sala, se aquietasse. Viraram-se todos os olhares para a grade e, lentamente, a cortina que corria por detrás começou a abrir-se, dando lugar a um espaço sabiamente iluminado. Pouco a pouco, foi fazendo a sua entrada uma revoada de meninas, vestidas de branco ou de azul pálido, de olhos no chão e dedos entrançados no crucifixo que traziam ao peito, aparentando uma timidez e uma reserva a que nenhum homem poderia ficar indiferente. Era um teatro do Céu numa alcova de freiras, una cosa stupenda, e o meu coração bateu mais forte, porque o quadro inspirava os mais desvairados anseios e mortificações. Sucederam-se as exclamações, os sussurros e os suspiros dos freiráticos. Eu não conseguia fixar o olhar em nenhuma delas, porque a impressão de conjunto era tão intensa que os meus sentidos mergulharam numa espécie de beatitude celestial. E depois, uma a uma, foram-se aproximando da grade, espreitando, por detrás do véu de gaze muito fina, para localizar o seu pretendente. Movimentou-se aquela vaga de homens deslumbrados, acenando com a ponta dos dedos dos quais pendia um lenço de cambraia, e, por momentos, deixámos de ver as freiras, porque o topete das cabeleiras ocupava toda a linha do nosso olhar. Minutos depois, no entanto, recomposta a organização que ali os levara, e encontrando o par por que juravam e arruinavam as bolsas, estabeleceu-se a assembleia. As meninas, esquecida a compostura do primeiro encontro, entregavam-se agora alegremente ao doce suplício dos arrufos e promessas, trocando prendas e entrelaçando os dedos, e, até, em alguns casos, ousando beijos trocados através da grade, prontamente reprimido pelas freiras mais velhas, mas já não a tempo de lhes anular o efeito." (pp. 158-59)
 
 
António Mega Ferreira, Cartas de Casanova: Lisboa, 1757, Lisboa, Sextante Editora, 2013.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

"Chegaste depressa ao outono"*


John William Waterhouse, Vanity


A secretária também pode servir de suporte ao espelho. Lia tranquilamente João Luís Barreto Guimarães, até ser interpelada por este poema: "Auto-retrato (aos quarenta e cinco)". Os versos "Chegaste depressa ao outono", "os ramos nus e incertos da árvore sob a janela/são ossos que reconheces sob a pele", "(dentro da sala de banho escutas o/estalar de ossos ao enrodilhares o corpo/na vastidão da banheira)." provocaram estranheza e inquietação.
Sim, quarenta e cinco (quatro, mais precisamente), mas tão longe de um sentimento de outono ou de ossos a estalarem. Terá andado distraída? Já no outro dia, a propósito de doenças, se assustara com a idade de todos os males, insidiosos horrores em que nunca pensara.
O corpo mostra a incrição do tempo, porém, a idade não será, em grande medida, cosa mentale? Estará a chegar, agora que as palavras dos outros afectam a imagem que de si tinha?


*João Luís Barreto Guimarães, você está aqui, Lisboa, Quetzal, 2013.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Sábado à tarde



 
Sábado à tarde, depois das compras e das visitas, a secretária prepara-se para a leitura ou para a escrita, com o barulho da máquina de lavar ao fundo. Folheei já o livro de João Luís Barreto Guimarães, as Cartas de Casanova (António Mega Ferreira), enquanto os outros esperam. Temo, porém, que o caos já se esteja a instalar e que a cabeça comece a rodar entre a poesia, a prosa, os livros de "apoio ao professor", a fotocópia e, até, a carta da ars, sem esquecer o bloco de apontamentos e o dário (fora da fotografia, "os envelopes").
 
Quase me parece uma instalação surrealista, daquelas que poderiam soar a qualquer coisa e dar bastante que falar nos escritórios e nas salas de jantar. [Aqui, cito, ainda que mal, Alberto Pimenta. Grande poeta, de sempre, mas óptimo para os tempos que correm; refiro-me ao seu último livro, al Face-book, cuja leitura, pelo próprio, já apresentei neste blogue.]
 
Foram boas as compras, a secretária também não é má, espaçosa...
 


você está aqui


Da rapidez de janeiro

time is the very fabric of reality
 
Jan Kyrre Berg Friis
 
A
acédia vai vencendo o apelo redobrado
para que desmanche o pinheiro que
nos serviu no Natal.
Terminou o mês dos Reis (vai
jogar-se ao Carnaval) já
as amêndoas da Páscoa subiram às prateleiras
desautorizando as agendas. É o
tempo surpreendido pelo seu
próprio movimento -
pressinto a duração se convido as serpentinas
para render no pinheiro os
enfeites de Natal.
Abro o presente aos pés da
árvore de Carnaval.
 
João Luís Barreto Guimarães, você está aqui, Lisboa, Quetzal, 2013.
 
 
[Não conhecia este poeta; muito bom.]

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Carnaval (palhaços tristes e outras máscaras)


AQUELOUTRO


O dúbio mascarado, o mentiroso
Afinal, que passou a vida incógnito;
o Rei-lua postiço, o falso atónito;
Bem no fundo o covarde rigoroso...

Em vez de Pagem bobo presunçoso...
Sua alma de neve asco de vómito...
Seu ânimo cantado como indómito
Um lacaio invertido e pressuroso...

O sem nervos nem ânsia, o papa-açorda...
(Seu coração talvez movido a corda...)
Apesar dos seus berros ao Ideal,

O corrido, o raimoso, o desleal,
O balofo arrotando Império astral,
O mago sem condão, o Esfinge Gorda...

Mário de Sá-Carneiro, Poesias, Lisboa, ática, 1989.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

ia ali, mas vou ali e já venho

Dirigia-se para consultório especial, quando se lembrou da conversa desta tarde...

Recebera a carta, pelo que se dirigira aos serviços:
- ...
- Agora, volte no prazo de um ano.
- ?
- Sim, tem de registar pelo menos uma por ano.
- Mas... eu não tenho nada.
- Pois, mas se quiser continuar... tem de ser uma por ano.
- Mas...
- Então, e r... faz sentido?
- ?!?
- Pois, não a r...? Recebeu o que tinha a receber?
- !!...
- Pois. É assim que... (pip!)... é assim que tem de ser.

Decisão: não ir ao consultório sentimental, ir antes ao sns e ficar.

Santé!

 
Jamie Beck

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Palavra-corpo-magia

"O corpo; o amor do visível e do tangível; a conversão do subjectivo em objectivo; o apetite, a voracidade de e na própria criação: tudo isto se patenteia nas obras dos melhores poetas e narradores da língua portuguesa.
Em semelhante perspectiva, não deixará de inquietar - ou pelo menos de parecer estranha - a tão positiva aura de  que actualmente goza no estrangeiro uma obra como a de Fernando Pessoa: ela pode afigurar-se a grande, a genial excepção à regra. O certo, porém, é que Pessoa, a despeito da insensibilidade ou desconfiança diante dos valores do corpo, não cessa de sucumbir, sob variados aspectos, às múltiplas seduções da palavra-corpo: não falo dos seus jogos ornamentais de «em horas inda louras, lindas/Clarindas e Belindas brandas» e outros afins, característicos da primeira fase do poeta ortónimo; falo sobretudo do suporte «carnal» de muitos daqueles «oxímoros dialécticos» oportunamente postos em relevo pela crítica mais especializada; e também, particularmente em Álvaro de Campos, da concreta substancialidade inerente ao seu modo de exprimir e comunicar o abstracto."
 
David Mourão-Ferreira, Magia, Palavra, Corpo, Lisboa, Cotovia, 1993.

Bela, belíssima, e ainda com potencial!


Floreça, fale, cante, ouça-se   e viva
A Portuguesa língua, e já onde for,
Senhora vá de si, soberba e altiva.
Se téqui esteve baixa e sem louvor,
Culpa é dos que a mal exercitaram:
Esquecimento nosso, e desamor.
 
António Ferreira
 
 
Virá a Língua Portuguesa a ser, um dia, a fala de muito mais de duzentos milhões de criaturas, tão ditosamente semeadas no globo que sob a rosa do Sol se debruçam em todos os mares, disfrutam as mais fecundas terras e lhes pertencem as mais belas margens do Atlântico?
 
 
Afonso Lopes Vieira
 
 
Parece que a resposta à pergunta do poeta Afonso Lopes Viera é afirmativa. Segundo recente estudo*, a língua portuguesa é falada por cerca de 250 milhões de pessoas, 3,7% da população mundial, tendendo este número a aumentar. Esta língua afirma-se, cada vez mais, como uma língua supercentral pelo número de falantes de língua materna, pelo número de países de língua oficial, pelos emigrantes e respectivos descendentes, pela internet, pela cultura e pela ciência e, naturalmente, pela importância e reconhecimento internacionais dos países de língua portuguesa, com destaque para o Brasil.
Segundo Luís Antero Reto et al., o português poderá vir a ocupar o segundo lugar como língua franca a nível global, depois do inglês, ocupando já a quarta posição, quanto ao número de falantes (Observatório da Língua Portuguesa - Quadro 1.1). Esta potencialidade da língua resulta, igualmente, da intercompreensão existente entre o português e o espanhol e da crescente importância da comunidade ibero-americana, em que a língua lusa tem vantagem, por estar implantada nos quatro continentes.
Saliente-se do estudo referido, a título de curiosidade, que o valor da língua é de aproximadamente 17% do PIB nacional, sendo que a riqueza produzida pelo setor criativo e cultural, em que a língua tem um valor fundamental, é superior à das indústrias alimentares e das bebidas, bem como dos têxteis e do vestuário.
 
*Luís Antero Reto, coord., Potencial Económico da Língua Portuguesa, Lisboa, Texto, 2012.


domingo, 3 de fevereiro de 2013

domingo à noite, vidas vidinhas


(...)

Temos todos duas vidas:
A verdadeira, que é a que sonhámos na infância,
E que continuamos sonhando, adultos num substrato de névoa;
A falsa, que é a que vivemos em convivência com outros,
Que é a prática, a útil,
Aquela em que acabam por nos meter num caixão.

(...)

Álvaro de Campos, "Datilografia" (do manual em uso)

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

a rir com Álvaro de Campos e Alberto Pimenta, pela mão de Telmo

A publicação de T. de hoje é simplesmente hilariante! Que lufada de ar, de oxigénio, trouxe à leitora! Sentiu-se compreendida e acompanhada. Nem mais: os exames de Português, o seu ruído, o estado das coisas e esse poeta  acutilante e irresistível que é Alberto Pimenta. A resposta ao tempo que corre.
 
No vídeo que se segue, o poeta apresenta o seu livro Al Face-book (7nós: 2012), no café-livraria Gato Vadio, e lê o poema, a partir dos vinte e dois minutos. Magnífico!