domingo, 31 de março de 2013

Por um grão de romã


Dante Gabriel Rossetti, Proserpine, 1874, Tate Gallery
 
Os mortais desesperam com este Inverno tão longo. Por que tarda Perséfone?
 
Diz a narrativa mítica que, após Hades ter raptado Cora, Deméter se recusou a ocupar o seu lugar no Olimpo e na ordem do mundo, a fim de carpir a sua dor e de procurar a sua amada filha, provocando, assim, um interminável Inverno, agreste e carente. Só a intervenção de Zeus apaziguou o desespero da deusa, prometendo-lhe a restituição da jovem, caso esta não tivesse provado qualquer alimento dos territórios infernais. Mas como resistir à tentação da sombra? Perséfone ingerira um grão de romã, o que para sempre a ligaria ao tenebroso mundo subterrâneo; seria restituída à luz e ao mundo florido da superficie, sim, mas só sazonalmente. Desta forma, Deméter teria de esperar o regresso da rainha dos Infernos a cada Primavera e, só nessa altura, libertaria as energias vitais necessárias à regeneração e reprodução da natureza e dos homens.
 
Este ano a espera parece infindável. O que retém a bela rainha? Dizem que se demora em inusitados preparos, que Hades hesita em deixá-la partir, dizem que outro deus a levou. Tantos dizeres, e a terra ansiando pela sua chegada vivificante!
 
 
(da internet, de autor desconhecido)
Dizem que esta é a deusa, em seu recato...


quinta-feira, 28 de março de 2013

Imagem

...

Palavras de negação, mas não de cobardia.
Nos seus olhos a aceitação triste;
dentro da casa, um corpo caído,
exangue.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Um poema de amor, e o quotidiano à espera



São horas de voltar. Tu já não vens, e a espera
gastou a luz de mais um dia. Agora, quem passar
trará um corpo incerto dentro do nevoeiro,
mas terá outro nome e outro perfume. Eu volto

à casa onde contigo se demorou o verão e arrumo
os livros, escondo as cartas, viro os retratos
para a mesa. Sei que o tempo se magoou de nós,
sei que não voltas, e ouço dizer que as aves
partem sempre assim, subitamente. Outras virão

em março, apago as luzes do quarto, nunca as mesmas.


Maria do Rosário Pedreira, A casa e o cheiro dos livros, Lisboa, Gótica, 2002.

segunda-feira, 25 de março de 2013

A política, em Portugal!

(...)

Já quase em desespero, Galvão Telles [Ministro da Educação] convida Ulisses Cortês [Ministro das Finanças] para um almoço a dois - num bom restaurante do Chiado - e defende de viva voz o seu projecto, com toda a verve e poder argumentativo de alguém que, além de professor de Direito, é um excelente advogado.
O seu colega das Finanças, já na sobremesa, diz-lhe que não é possível: a guerra do Ultramar é a prioridade da política financeira, e não se lhe pode cortar uma fatia tão importante.
Já durante o café, o Prof. Galvão Telles tem então a chamada «inspiração divina», e diz ao seu colega:
- Ó Ulisses, esqueça por uns instantes que somos Ministros. O que lhe peço é um gesto pessoal, de amigo a amigo. Faça-me lá esse favor!
Resposta imediata de Ulisses Cortês:
- Ó meu caro Amigo: mas isso muda o caso de figura. Se me põe o problema dessa forma, o seu projecto será imediatamente aprovado!
 
Parafraseando Júlio Dantas, como é diferente a política, em Portugal!
 
 
Diogo Freitas do Amaral, Ao correr da memória: Pequenas histórias da minha vida, Lisboa, Bertrand, 2003.
 
 
 
 
Aí está a biografia de Mário Soares, em 851 páginas, da autoria do jornalista Joaquim Vieira, da esfera dos livros (2013). Depois do ensaio autobiográfico do político português, algures pelas estantes familiares, é um bom livro para a compreensão da figura e da época histórica que viveu e marcou.
Da leitura de memórias, autobiografias, entrevistas, biografias ou outros textos deste género, constrói-se uma imagem de um tempo já passado muito interessante, em que sobressai a componente humana e, até, casual dos acontecimentos que ganharam lugar nos registos da História. Outro aspecto, para já evidente, em casos tão diversos como os de Adriano Moreira ou Mário Soares, por exemplo, para além da qualidade intelectual, é a importância das ligações pessoais para a acção política.
Pergunto: será mesmo essa a natureza da política ou é uma particularidade da situação portuguesa? Nas leituras em curso, ressalta uma certa coerência de classe, isto é, não obstante as diferenças ideológicas e as singulares histórias de vida, em que os vários protagonistas estiveram tantas vezes em lados opostos da barricada, parece evidenciar-se uma certa linguagem e maneiras que designaria como sendo próprias da classe média, ou melhor, da burguesia. As formas de tratamento, aquilo que se dizia e o modo como se dizia, o que se calava, as solidariedades estabelecidas, as incompreensões, as concepções de vida, as circunstâncias das amizades e dos contactos criados no liceu, na universidade e noutras instituições, até mesmo, em alguns casos, as referências, ou ausência delas, a figuras populares ou pequenos episódios vividos com as massas, todos estes aspectos parecem constituir sinais de uma certa identidade de classe.



domingo, 24 de março de 2013

leituras de domingo (os jornais)

  
 
Muito se lê nos jornais, ao domingo. Destaco a entrevista a Alberto Pimenta, no Jornal de Letras (20/03 a 02/04), grande poeta e clarividente, tanto no domínio do saber poético, como no diagnóstico dos tempos que correm:


 
 
"[O apoético, o não poético] É o prosaico, o quotidiano. É uma existência desprovida de pesquisa de si mesma, que vai acontecendo, sem levantar questões sobre esse acontecer. E quando se levantam essas questões, não é necessariamente poético."
 
" Mas parece-me que para a poesia uma das componentes fundamentais é a sensação de perda, ou melhor de incompletude, de falta de qualquer coisa, mesmo nos momentos mais esplendorosos. É a diferença entre sujeito e objeto, a incapacidade de fusão."
 
"Tenho uma consciência muito aguda de que, na sociedade humana, sempre houve dois grupos de pessoas: os poderosos e os outros, aqueles a que se pode chamar escravos ou trabalhadores."
 
"[...] estamos num momento histórico, porque é a primeira vez, na História da Humanidade, que há uma revolução dos ricos contra os pobres."
 
 
(Alberto Pimenta dixit)

quinta-feira, 21 de março de 2013

alguém para a matar em cada minuto da vida dela


Ontem foi o dia da Primavera, dizem, e a leitora que sempre acreditou que a estação se iniciava a 21 de Março, dia da Primavera e da Poesia!
 
Hoje, então, é o Dia da Poesia, mas nenhum livro de poemas foi lido ou folheado por ela. Em vez disso, Flannery O'Connor num café lisboeta. Lisboa estava formosa, como é da sua condição, especialmente com a luz primaveril que invadia a sala decorada ao gosto austríaco ou português ou simplesmente urbano. Os transeuntes flanavam pelas mesas, pelas ruas, nesta época repletas de turistas e de portugueses de vários estilos, eram anónimos e ela também. É gostoso o anonimato à mesa de um café citadino, sobre a qual esperam bandeja com bule e chávena e livros acabados de adquirir.
 
Porquê Flannery O'Connor? Porque a P. é sua leitora e referiu algumas vezes o seu gosto pelos contos desta escritora norte-americana e um livro seu estava em destaque na livraria - Um bom homem é difícil de encontrar. Só o primeiro conto, com o mesmo título, foi lido, mas, desde já, é evidente que é uma óptima escritora: a atenção ao detalhe, as comparações inesperadas, ao mesmo tempo suaves e demolidoras (veja-se, por exemplo, esta descrição da mãe: "uma mulher jovem de calças elegantes, cuja face era tão larga e inocente como uma couve, rodeada por um lenço verde com duas pontas atadas no alto da cabeça, como as orelhas de um coelho."), as relações familiares, banais e cruéis, o acaso fortuito que tudo destrói, inesperada e violentamente. É um conto aparentemente suave, centrado na avó manipuladora e tagarela, mas cheio de humor e de uma acutilância que chega a ser cruel, e, no final, a negação da bondade naquela figura do inadaptado, psicopata, cujos olhos, sem óculos, "eram pálidos e tinham uma expressão indefesa".
 
[Aqui, parênteses para aqueles que ouvem muitas vezes este vocabulário do campo semântico, agora lexical, do desgraçadinho: inadaptado, bom no fundo, especial, invulgar, etc. Este conto desmonta essa ideia que as pessoas nem boas nem más têm de que todos distinguem o bem do mal e que todos escolherão o bem, até os aparentemente maus, quando cairem em si; fá-lo oferecendo-nos uma personagem que se chamava a si mesma O Inadaptado, porque se esquecia dos seus crimes e não encontrava correspondência entre estes e os castigos que lhe aplicavam por causa deles. No final, depois da atrocidade cometida, diz, acerca da avó: "Teria sido uma boa mulher (...) se tivesse estado lá alguém para a matar em cada minuto da vida dela". Horrível, não é?]

Flannery O'Connor, Um bom homem é difícil de encontrar, Lisboa, Cavalo de Ferro, 2008 (tradução de Clara Pinto Correia).

quarta-feira, 20 de março de 2013

domingo, 3 de março de 2013

Leituras


"Quando era jovem, como todos os jovens, gostava de imaginar quem iria ser. Agora gosto de imaginar quem não sou."
 
Helder Macedo
 
(Jornal de Letras, 20 de fevreiro a 5 de março de 2013 - entrevista de Maria Leonor Nunes)