segunda-feira, 20 de maio de 2013

Pedras e flores





Voz do meu amado   ei-lo que chega
corre pelos montes   salta nas colinas
o meu amado é semelhante a um gamo   ou a uma cria de gazela
ei-lo por detrás dos nossos muros
olha pelas janelas  espreita pelas frinchas
fala o meu amado e diz-me
levanta-te minha amada   minha bela vem para mim
pois o inverno já acabou   a chuva passou de vez
despontam flores na terra   chegou o tempo das canções
ouve-se na nossa terra   a voz da rola
a figueira brota seus frutos   e a vinha florida exala perfume
levanta-te minha amada   minha bela vem para mim.


Cântico dos Cânticos, Lisboa, Cotovia, 1999 (tradução do hebraico, introdução e notas de José Tolentino Mendonça; desenhos de Ilda David).

Sete rosas mais tarde



COM A PALAVRA-SEIXO na mão fechada,
esqueces que esqueces,

do pulso irrompem,
refulgentes, os sinais de pontuação,

pela terra fendida
como um pente
vêm as pausas a cavalo,

ali, junto
ao cacho de oferendas,
onde se extingue o fogo da memória,
apanha-vos O
Sopro.


DIZEM-ME QUE O MACHADO FLORIU,
dizem-me que não se pode nomear o lugar,

dizem-me que o pão que o olha
salva o enforcado,
o pão que  a mulher lhe cozeu,

dizem-me que chamam à vida 
o único refúgio.



Paul  Celan, Sete rosas mais tarde - Antologia poética, Lisboa, Cotovia, 1993 (selecção, tradução e introdução de João Barrento e Y. K. Centeno).



quarta-feira, 15 de maio de 2013

Morituri salutant

 ... vamos fugir de lugares mal frequentados e de palavras inacreditáveis, primeiro a rir e depois a recitar belas orações...


1- Um livro da 1ª classe que não frequentei


2- Uma estampinha da infância

Google images - Nossa Senhora de Fátima


3- Uma oração muito bela
Salve Rainha
Salve, Rainha, mãe de misericórdia,
vida, doçura, esperança nossa, salve.
A vós bradamos os degredados filhos de Eva.
A vós suspiramos, gemendo e chorando
neste vale de lágrimas.
Eia, pois, advogada nossa,
esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei,
e depois deste desterro mostrai-nos Jesus,
bendito fruto do vosso ventre,
Ó clemente, ó piedosa,
ó doce sempre Virgem Maria
V.: Rogai por nós Santa Mãe de Deus
R.: Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.


4- Um hino belíssimo

Hino Órfico à Noite
(Grécia)
Cantarei a criadora dos homens e deuses - cantarei a Noite.
Noite, fonte universal.
Ó forte divindade ardendo com as estrelas, Sol negro,
invadida pela paz e o tranquilo e múltiplo sono,
ó Felicidade e Encantamento, Rainha das vigílias, Mãe do sonho,
e Consoladora, onde as misérias repousam as campânulas de sangue,
ó Embaladora, Cavaleira, Luz Negra, Amiga Geral,
ó Incompleta, alternadamente terrestre e celeste,
ó Arredondada no meio das forças tenebrosas,
leve afastando a luz da casa dos mortos e de novo te afastando tu própria.
A terrível Fatalidade é a mãe de todas as coisas,
ó Noite Maravilhosa, Constelação Calma, Ternura Secreta do Tempo,
escuta, ó Indulgente Antiga, a imploração terrena,
e aparece com teu rosto obscuro e lento no meio dos vivos terrores do
mundo.



Herberto Helder, "O bebedouro nocturno", in Poesia Toda, Lisboa, Assírio & Alvim, 1990.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Happy Days - Emily Dickinson

 
 
On a vintage shelf...

 
 

 
Emily Dickinson, poeta (poetisa) norte-americana, nascida a 10 de Dezembro de 1830, em Amherst, Massachusetts, e falecida na mesma cidade, a 15 de Maio de 1886. Entre estas duas datas poucos factos houve a registar, só os seus poemas brilham , esplendorosos.
 
O livro que agora se lê é de Jorge de Sena, que traduziu magistralmente 80 dos poemas de Dickinson, mas os originais, em inglês, resplandecem mais intensamente. Por exemplo:
 
 
 
A sepal, petal, anda a thorn
Upon a common summer's morn -
A flask of Dew - A Bee or two -
A Breeze - a caper in the trees -
And I'm a Rose!


Sépala, pétala, espinho,
Na vulgar manhã de Verão -
Brilho de orvalho - um abelha ou duas -
Brisa saltando nas árvores -
- E sou uma rosa!


.................


Some Days retired from the rest
In soft distinction lie
The Day that a Companion came
Or was obliged to die
 
 
Alguns Dias dos outros se separaram
Para com distinção adormecer -
O Dia em que um Companheiro chegou
Ou foi forçado a morrer.
 
 
Jorge de Sena, 80 poemas de Emily Dickinson (Tradução e apresentação), Obras Completas de Jorge de Sena, Lisboa, Edições 70, 1979.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Penas (tantas)

 
"Sobre as ondas asas. Sobre o meu coração penas."

 
 
Luísa Dacosta, Morrer a Ocidente, Porto, Figueirinhas, 1990.

Mais penas

CANTIGA ALHEIA

Perdigão perdeu a pena,
no há mal que lhe não venha.

VOLTAS

Perdigão, que o pensamento
subiu em alto lugar,
perde a pena do voar,
ganha a pena do tormento.
Não tem no ar nem no vento
asas com que se sustenha:
não há mal que lhe não venha.

Quis voar a ua alta torre,
mas achou-se desasado;
e, vendo-se depenado,
de puro penado morre.
Se a queixumes se socorre,
lança no fogo mais lenha:
não há mal que lhe não venha.

Luís de Camões, Lírica Completa - I, Lisboa, INCM, 1986.

Penas


"Vivemos na língua e na cultura das almas penadas - não apenas arrependidas ou culpabilizadas mas sentenciadas a penas eternas de prisão. Não deveríamos tratar levemente a pena. Não é a mesma coisa que o sorry inglês, que é uma versão frívola da tristeza do sorrow."
 
 
Miguel Esteves Cardoso, Como é linda a puta da vida, Porto, Porto Editora, 2013.