quinta-feira, 31 de outubro de 2013

domingo, 27 de outubro de 2013

Onde estais, D. Ricardo, O Coração de Leão?

 
 
An illustration of the Sheriff of Nottingham from
 Bold Robin Hood and His Outlaw Band:
Their Famous Exploits in Sherwood Forest. Louis Rhead.
New York: Blue Ribbon Books, 1912.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Interrogar o riso


Ainda a propósito do riso, cito, do catálogo da exposição "Riso", que decorreu no Museu da Eletricidade, em Lisboa, de 19 de outubro de 2012 a 17 de março de 2013:
 
"Rimos de quê? De nós e dos outros, da vida e da morte, do bem e do mal, da felicidade e da desgraça, da autoridade e da anarquia, dos deuses e dos demónios, da terra e do céu.
Rimos como? Com a mente e com o corpo, com o som e com o silêncio, com alegria e com tristeza, com generosidade e com agressão, com compreensão e com intolerância, com inteligência e com estupidez, com bondade e com maldade, com subtileza e com grosseria, com oportunidade e sem ela.
Rimos porquê? Porque queremos ser superiores àquilo de que rimos, porque queremos que a nossa inferioridade resista à superioridade dos outros, porque queremos vingar-nos do que nos fizeram, porque queremos afirmar poder e saber, porque queremos mostrar indiferença ao que não nos é indiferente, porque queremos que reparem em nós, porque queremos criticar, porque queremos castigar o que achamos mal, porque queremos disfarçar, porque queremos esconder, porque não temos palavras para dizer o que queremos dizer, porque nos fazem cócegas, porque estamos nervosos, porque estamos carentes, porque temos medo, porque temos vergonha, porque queremos mudar de assunto, porque achamos graça, porque queremos ter graça, porque somos loucos, porque estamos felizes." 
 
 
Nuno Crespo et alii, "Riso, modos de usar" in Riso, Lisboa, Fundação EDP e Tinta da China Edições, 2012, pp. 26 e 27.

A menina ri; ri de quê?

 
No início do ano letivo, uma professora que estava a dar aulas à noite há vários anos e que, pelas contingências de horário, se via remetida ao ensino diurno, lamentava-se:
- O quê? A sério? É preciso isso? O ensino tornou-se tão chato!
 
Tinha razão, a colega, e não só por causa das inúmeras "grelhas". De facto, a burocracia não se traduz apenas em muita "papelada" - grelhas de avaliação, relatórios, critérios, parâmetros, listas e etc. -, mais grave que toda esta inutilidade é o fechamento do espírito. Criou-se o hábito das receitas, dos textos conformes a modelos, propícios  a uma abordagem estruturalista, segura e conducente a leituras consensuais. Está bem amarrado, o professor, como estão atados, de pés e mãos, os alunos. Talvez por isso o cinzentismo impere: os Meninos não gostam de ler, os Mestres não têm prazer em ler-lhes; o famigerado Programa insiste nos textos dos media e do domínio transacional; a poesia, de preferência épica ou lírica, vá lá, ainda se aceita, mesmo se for para dizer que não se percebe nada;  já o humor... Oh, não! C'horror! Então, essas coisas na sala de aula?
 
Fui reparando, ao longo dos anos, que a adolescência é muito mais conservadora do que aquilo que se pensa, a diferença é que, em tempos, a confiança no professor, no seu saber e na sua seriedade, era maior. Por outo lado, a pressão das "notas" e das "médias" era, talvez, menor. Agora, nas turmas do ensino regular, ditas "normais", constituídas por alunos que querem tirar cursos superiores e ocupar cargos de responsabilidade, quiçá de chefia, é preciso medir o que se diz com a bitola do politicamente correto, não vá alguma alma ficar chocada por qualquer murmúrio não previsto no breviário da tacanhez. Ainda assim, há oásis de liberdade. Em nome da liberdade, chamo à sala Cesariny, Alexandre O'Neill, Natália Correia, Nuno Artur Silva, Inês Fonseca Santos, Ricardo Araújo Pereira, António Lobo Antunes, Fernando Ribeiro de Mello e tantos outros, até O meu Pipi* (Ai! Agora é que resvalou.)

 
   *Aqui um exercício de autocensura: "Este foi só de raspão, por engano..."
 

domingo, 20 de outubro de 2013

"insistir e esperar"


Leituras de fim de semana: José Tolentino Mendonça



As crónicas de José Tolentino Mendonça no Expresso (Revista) tornaram-se de leitura esperada. A cada fim de semana, o pensamento e a escrita fluída, bela e profunda deste homem, poeta e padre, iluminam o mundo em redor e o interior. Neste sábado, era possível ouvir um hino à vida e ao perdão. Nestas passagens, por exemplo:
 
"Pode parecer estranho, mas a dada altura agarramo-nos à dor como se ela fosse um heroísmo e pomo-nos a expor feridas como quem exibe condecorações. O nosso desígnio, inconfessado, mas claríssimo, passa a ser atravessar a vida (e o que nos resta dela) com o estatuto de vítima. "
 
"Muitas vezes aproveitamos a dor para nos instalarmos nela. Preferimos ficar a esgravatar na ferida, a comer diariamente o pão velho da nossa maldade, em vez de termos sede de beleza, desejo de outra coisa. Parece que aquilo que aconteceu (e de mal, ainda por cima) saciou-nos completamente. As ofensas recebidas revelam-nos um duro e irónico retrato de nós. Ora, para perdoar é preciso ter uma furiosa e paciente sede do que (ainda) não há. O perdão começa por ser uma luzinha. E é bom insistir e esperar."
 
"Dizemos que certas coisas não têm perdão - ou que nunca nos perdoaremos a nós próprios. Mas perdoamos - fazemo-lo a todo o momento."
 
Expresso: Revista, 19/0ut/2013
 
 
 
Umas leituras convocam outras, e esta chamou um livro maravilhoso, do mesmo autor, José Tolentino Mendonça - Nenhum caminho será longo: Para uma teologia da amizade:
 
"Que quer dizer: «Tu és deveras meu amigo?» Simão compreende finalmente Jesus; que Jesus não nos pede o que nós não somos capazes de dar. Ele aceita a nossa amizade que fraqueja, os nossos sins ainda incipientes, os passos que damos vacilantes. Para fazer-nos subir até si, Jesus desce até nós.
O Evangelho conta que Pedro ficou triste por Jesus se ter de adaptar à nossa humanidade. Mas é esta adaptação de Jesus, esta aceitação radical da nossa pobreza, este seu caminhar incessante ao encontro da nossa amizade, a fonte da nossa esperança. E tal como ao primeiro entre os discípulos, também a nós, a cada um de nós, Jesus repete apenas: "Segue-me.»" (p. 70)
 
 José Tolentino Mendonça, Nenhum caminho será longo: Para uma teologia da amizade, Lisboa, Paulinas Editora, 2012.
 
 
[E nós, aceitamos? E, tão importante, confiamos?]

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Surpresas

Vinha a caminho de casa a olhar para anteontem, quando a caixa do correio resolveu surpreender-me: em vez das cartas circunstanciais do costume, promessas de "Grande Aventura" e "Super Fim de Semana", au Lidle. Nem mais!
 
 
 
Nem mais, disse? Havia mais: a oferta de um exemplar da revista Visão (nº 1076 - 17 a 23 de outubro de 2013), com uma belíssima crónica de António Lobo Antunes - "Olhar para ontem".
 
Cito:
 
"[...] tanto tédio, tanto ressentimento, tanto cansaço, se mudasses de penteado, se comprasses uns vestidos novos, se usasses saltos mais altos, se me surpreendesses, tornámo-nos tão quotidianos, meu Deus, tão monótonos, não dizes nenhuma coisa que me interesse, não digo nenhuma coisa que te interesse e não é possível não dizermos nunca seja o que for que não interesse o outro havendo pessoas que nos acham divertidos, cultos, se calhar fascinantes [...]"
 
(O possível é vasto, e a esperança também, diz a vozinha intrometida.)
 
Li pouco Lobo Antunes; as crónicas leio, com um prazer sempre renovado, já os romances esquivam-se, desde aquele dia, nos verdes anos da adolescência, em que não consegui continuar o Caminho do Inferno. A intensidade, o susto, o medo, ou lá o que era, obrigou-me a fechar o livro. Esta reação intempestiva, irracional, só me aconteceu com outro escritor, Mishima, não me lembro do título do romance. A força narrativa e expressiva destes textos, um dia, longe, obrigaram-me a desviar o olhar. Não me esqueci.
 
As coisas novas e velhas vêm e vão, vão e vêm, nunca nos deixam sós nem deixam de nos surpreender. Hoje, também a antiga mesa de estudo, restaurada, mas com uma leve folga no tecido a lembrar o tempo passado, me saudou. Convidava-me para uma bisca lambida ou para cair nas profundezas dos calhamaços sábios?
 
 

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

"Servidões" (Herberto Helder)

 
Cine Povero: um vídeo para um poema de Herberto Hélder - "Um quarto dos poemas é imitação"
 

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Barómetro

 


Não entendo a razão para a polémica que se diz andar por aí. O barómetro é o da crítica e do ruído à volta dos livros e dos seus autores, por isso é tanta a vozearia; comentam-se e indignam-se uns aos outros, é o que é. Para o público mais leitor de jornais que de livros tem interesse. Também é sempre gratificante relembrar Alexandre O'Neill, Carlos de Oliveira, Knopfli, Ferreira de Castro, ficar com vontade de procurar as narrativas de Teresa Veiga. Considero injusta a desvalorização de Torga, muito lido, e merecidamente; nem entendo a menção a certo jornalista autor. Enfim, também esta leitora tem os seus gostos e antipatias. Onde estão Luísa Dacosta, Maria Gabriela Llansol ou Rui Nunes? Onde Vergílio Ferreira, Aquilino, Luiza Neto Jorge e outros?
Seja como for, não nego a importância da crítica literária jornalística para a divulgação dos livros, para a promoção da leitura e para a criação de novos leitores, para sacudir o pó a alguns nomes há muito adormecidos nas estantes dos armazéns ou de recuadas bibliotecas. Os livros, de poesia ou prosa, precisam igualmente destas vozes para chegarem às mãos dos muitos que os poderão resgatar ao tempo devorador. De facto, não vivem só de estudos académicos, de eruditos e de criadores (outros poetas, outros escritores), de leitores amadores, ainda que todos estes sejam muito importantes. O que cansa é a algazarra, a vida social reunida à volta dos "encontros", das "tertúlias", dos lançamentos, dos suplementos dos jornais, das revistas, a intriga e a maledicência. São os lobbies, dizem, as influências, é a moda. Mas alguém desconhecia a existência de acantonamentos revisteiros, de redes, de estrelas de plástico...? Basta andar por aí, ter olhos e ver, e ler, ter ouvidos e ouvir...
(...de qualquer modo, não faz mal dar o nome às coisas dos "bastidores" e publicá-las, dá-las a conhecer, pois há sempre alguém distraído.)