domingo, 23 de março de 2014

Primaverar




SO-NETO JORGE, Luiza

A silabar que o poema é estulto
o amado abre os dentes e eu deslizo:
sismos, orgasmos, tremem-lhe no olhar
enquanto eu, quase a rimar, exulto.

Conheço toda a terra só de amar:
sem nós e sem desvãos, um corpo liso.
Tenho o mênstruo escondido num reduto
onde teoricamente chega o mar.

Nos desertos - íntimos, insuspeitos -
já caem com a calma as avestruzes
- ou a distância, com os oásis, finda; 

à medida que nos arcaicos leitos
se vão molhando vozes e alcatruzes
ao descerem ao fundo pego, e à vinda.

Luiza Neto Jorge, Poesia 1960-1989, Lisboa, Assírio e Alvim, 2001.

[Um dia as estantes estarão arrumadas; a vida arrumadinha.]

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