SO-NETO JORGE, Luiza
A silabar que o poema é estulto
o amado abre os dentes e eu deslizo:
sismos, orgasmos, tremem-lhe no olhar
enquanto eu, quase a rimar, exulto.
Conheço toda a terra só de amar:
sem nós e sem desvãos, um corpo liso.
Tenho o mênstruo escondido num reduto
onde teoricamente chega o mar.
Nos desertos - íntimos, insuspeitos -
já caem com a calma as avestruzes
- ou a distância, com os oásis, finda;
à medida que nos arcaicos leitos
se vão molhando vozes e alcatruzes
ao descerem ao fundo pego, e à vinda.
Luiza Neto Jorge, Poesia 1960-1989, Lisboa, Assírio e Alvim, 2001.
[Um dia as estantes estarão arrumadas; a vida arrumadinha.]

Sem comentários:
Publicar um comentário