sábado, 12 de abril de 2014

A escola pública e a comunicação social


Fotografia retirada do site da Escola Secundária Passos Manuel

"Se na Saúde tivéssemos esta performance significava que metade dos doentes morria ou ficava gravemente doente e que a outra metade ficava bem. Seria intolerável, do ponto de vista social. Mas na Educação convive-se bem com isto. Há uma marca cultural pesadíssima, em que se aceita que a fronteira do sucesso está na linha de corte: quando tenho 10 não estou a ter sucesso, estou na fronteira do insucesso e muito longe do que seria desejável. Esta perceção das famílias é particularmente grave no ensino básico. [...]"

Entrevista de Hélder Sousa, diretor do Instituto de Avaliação Educativa, ao Expresso de hoje (nº 2163, 12 de abril de 2014); a jornalista foi Isabel Leiria e a parte a negrito foi destacada numa caixa.


Não nego que a frase assinalada a negrito tenha impacto junto dos potenciais leitores do jornal, mas este destaque dá que pensar, tanto como a citada afirmação. Colocar metade dos alunos portugueses a par dos defuntos e dos estropiados ou moribundos parece-me um pouco hiperbólico, digamos assim. Afinal, por muito importante que seja a escolarização dos filhos de cada qual, já descontando as famílias que desvalorizam a educação, esta não se compara ao valor da saúde e da vida. Neste sentido, é compreensível que seja mais fácil convencer uma pessoa a tomar um comprimido ou uma colher de xarope, por mais intragável que seja, e a obrigar o respectivo filho a fazer o mesmo do que persuadi-la a ler um livro e a incutir tal hábito no seu delfim, ainda que isso pudesse beneficiar a sua educação. Se a diferença na aceitação do "remédio" específico não fosse elucidativa, poderíamos questionar a disponibilidade para o procurar, isto é, para ir ao médico ou à escola e logo concluiríamos que a Saúde e a Educação são realidades diversas.

Reconhecendo esta disparidade, por que motivo são tantas vezes comparadas e, geralmente, para se inferir que a Saúde é um caso de sucesso, enquanto a Educação é um fracasso de quarenta anos? Não digo que Hélder Sousa o tenha afirmado, muito menos pensado, mas a sua frase e o destaque que lhe foi dado podem sugerir tal ideia. Ora, os dados de avaliações externas, segundo tem sido divulgado, não o demonstram, nem a observação empírica o confirma. Quem está no terreno sabe que a Escola não está bem, mas estava melhor há quarenta anos? Não, decerto. Há menos de quarenta anos fui eu e outros meninos da minha aldeia e da aldeia vizinha para a primeira classe e, de todos, só eu fui para a Universidade, outros foram trabalhar aos doze anos, concluído o segundo ano do ciclo preparatório, ou nem isso. Entretanto, já fui professora de alguns filhos deles, que tinham planos inquestionáveis de prosseguir estudos e fizeram-no. Os casos particulares valem o que valem, mas são também sinais da realidade e estes evidenciam que ela não será tão má como quererão fazer crer.

A quem interessa, então, se é que interessa a alguém, negar a evolução social positiva que ocorreu em Portugal e, consequentemente, nos níveis de escolaridade da sua população? A quem interessa convencer as famílias e os jovens de que a sua escola não é boa e de que eles só seriam bons se estivessem noutro lugar, no fantástico colégio, por exemplo? A quem interessa que não acabe o rumor de que a Educação em Portugal é um desastre? Ainda não é, mas para lá caminhamos se as condições de trabalho se deteriorarem mais e a população deixar de acreditar nela.


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