quarta-feira, 9 de abril de 2014

Alfabetos

Claudio Magris, Alfabetos: Ensaios de Literatura,
Lisboa, Quetzal, 2013 (trad. António Sabler)

Terminados que estão os trabalhos burocráticos, por agora, é possível o regresso à leitura: Claudio Magris, Alfabetos: Ensaios de Literatura (recolha de vários textos publicados, maioritariamente, no Corriere della Sera). Há bastante tempo que não lia um livro tão interessante e que, a cada página, tanto ensina. A volúpia da leitura impele à escrita ou ao amor, em múltiplos sentidos. São diálogos possíveis, hipótese de transcendência das tarefas e do seu linguajar exceliano-doméstico. Felicidade e melancolia.

Felicidade e melancolia, temas contemplados, a propósito dos quais cito estas passagens:

"A deusa faz morrer Cléobis e Bíton porque, depois de um dia absoluto, teriam sofrido demasiado a viver dias diversos daquele, mas também porque não teriam sequer podido suportar muitos dias como aquele. Na verdade, naquele dia não ocorreu nada de excepcional, nenhuma extraordinária aventura, nenhum êxtase particular; só horas serenas, jogos, amizade, alegre abandono. Mas Sólon - ou Heródoto por ele - sabe que nessas coisas aparentemente pequenas e banais é que consiste a felicidade [...]"

"Para Sólon, no entanto, Cléobis e Bíton ficam em segundo lugar: o primeiro cabe a Telo, ou seja, a quem é capaz de inserir na continuidade da vida também todas as mortes, as separações, as perdas, as desagregações, que a desfazem incessantemente."

"Felicidade" (Corriere della Sera, 15 de agosto de 1999), pp. 46 e 47.

"A melancolia não é só depressão psíquica ou tristeza tortuosa e morbidamente acalentada. [...] Nenhuma vida e nenhuma poesia de vida podem ignorar a melancolia, a caducidade do tempo que passa, aquilo que sempre falta em toda a felicidade e em todo o amor, mesmo feliz, o corromper das coisas e dos sentimentos, mesmo os mais puros, o desencanto, o incessante alterar-se e esvanecer-se."

"Melancolia e Modernidade" (Corriere della Sera, 22 de maio de 2007), p. 71.

2 comentários:

  1. Que sorte, Leitora. Quem me dera poder ter também umas feriazitas jeitosas por esta altura do ano. Tenho que fazer esticar os meus vinte e dois ou vinte e três dias por ano para me renderem ao longo de todo o ano.

    E o que eu queria agora uma semanita para pôr as leituras em dia. Ainda agora tenho aqui ao meu lado e limito-me a espreitá-lo, uma ou outra frase por dia, o 'A História não acabou' do referido Claudio Magris.

    É uma escrita sábia, culta, limpa. Aprende-se com ele e, mais do que isso, inspira-nos.

    Boa escolha a sua. Alfabetos é muito bom.

    Um abraço e boas férias!

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    1. Obrigada pelos votos de boas férias!

      Estava a precisar de reduzir o volume sonoro, bem como de me deitar antes das 3, 4 da manhã e de me levantar depois das sete... Agora, são só leituras, preparação de aulas, arrumação do escritório e do resto da casa, que não vê pano desde fevereiro, pelo menos, preparar o terceiro período, pois ainda haverá a acção de formação obrigatória e não aguentarei dormir 4 horas por dia durante mais de 15 dias...

      Férias? Depende do conceito, ainda assim é bom estar em casa, sem barulho...

      Beijinhos!

      :)

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