quarta-feira, 9 de julho de 2014

Conselhos de D. Francisco Manuel de Melo

"Uma das cousas que mais assegurar podem a futura felicidade dos casados é a proporção do casamento. A desigualdade no sangue, nas idades, na fazenda causa contradição; a contradição, discórdia. E eis aqui os trabalhos por donde vem. Perde-se a paz e a vida é inferno.
Para a satisfação dos pais convém muito a proporção do sangue, para o proveito dos filhos a da fazenda, para o gosto dos casados a das idades. Não, porém, que seja preciso uma conformidade de dia por dia entre o marido e a mulher, mas que não seja excessiva a ventagem de um a outro. Deve ser esta ventagem, quando a haja, sempre a parte do marido, em tudo à mulher superior. E quando em tudo sejam iguais, essa é a suma felicidade do casamento.
Dizia um nosso grande cortesão, havia três castas de casamentos no mundo: casamento de Deus, casamento do Diabo, casamento da Morte; de Deus, o do mancebo com a moça; do Diabo, o da velha com o mancebo; da Morte, o da moça com o velho. Ele certo tinha razão, porque os casados moços podem viver com alegria; as velhas casadas com moços vivem em perpétua discórdia; os velhos casados com as moças apressam a morte, ora pelas desconfianças, ora pelas demasias." (p.46)

D. Francisco Manuel de Mello, Carta de Guia de Casados (5 de março de 1650), Vila do Conde, Quidnovi, 2011.

D. Francisco Manuel, durante a sua prisão na Torre Velha, escreve esta carta a um amigo, guiando-o e avisando-o em matéria de casamento (sobre a vida dos cônjuges,  sobre as relações domésticas e em sociedade); demora-se, especialmente, na caracterização das mulheres, nos comportamentos reprováveis ou a incentivar, bem como no trato que devem receber dos seus esposos. 

Deste texto não está ausente o machismo da época nem alguma misoginia, mas lê-se com divertimento, ou com certos reconhecimentos, porque nem tudo se perdeu no tempo.   

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