sexta-feira, 11 de julho de 2014

O bom povo



"O antigo embaixador inclinou-se para a bandeja do copeiro, ajustou o casaco de seda em cuja algibeira havia canetas douradas, e falou em português - «Pode crer, miss Machado, que nunca encontrei ao longo do meu percurso um povo tão sensato como aquele a que você pertence. Um povo pobre, sem álgebra, sem letras, cinquenta anos de ditadura sobre as costas, o pé amarrado à terra, e de repente acontece um golpe de Estado, todos vêm para a rua gritar, cada um com sua alucinação, seu projecto e seu interesse, uns ameaçando os outros, corpo a corpo, cara a cara, muitos têm armas na mão, e ao fim e ao cabo insultam-se, batem-se, prendem-se, e não se matam. Eu vi, eu assisti. É esta realidade que é preciso contar antes que seja tarde. Compreende o que estou a dizer?» (p.17)

Lídia Jorge, Os Memoráveis, Lisboa, D. Quixote, 2014. 

Comecei agora mesmo esta leitura, vou já na página 20, e não me parece um livro heroico, como certos comentários me fizeram crer. A tristeza é o que desliza destas páginas iniciais. Este povo tão sensato continua amarrado à terra, à pobreza, à falta de letras. Perseguem-se laços, ramificações, amordaçam-se raivas contidas de há séculos...

Sem comentários:

Enviar um comentário