domingo, 27 de abril de 2014

"A liberdade até pode ser uma coisa boa, eu é que não tenho serventia para ela." ("Melhor que falecer" - Ricardo Araújo Pereira - TVI)

Maria Helena Vieira da Silva (cartaz)
Sophia de Mello Breyner Andresen (frase)
Esta foi talvez a frase mais triste que ouvi nos últimos tempos. Será humor negro; seja o que for, é genial. Foi o 10º episódio de "Melhor que falecer", programa de Ricardo Araújo Pereira na TVI, que passou no dia 25 de Abril. Excelente Maria do Céu Guerra. Este Portugal continua aí, está no meio de nós, está dentro de nós. 

Ainda a propósito dos 40 anos do 25 de Abril, assinalo a edição especial do Jornal de Letras e dois artigos: "A Revolução revisitada", de Eduardo Lourenço, e "Lembrar o momento perfeito", de Lídia Jorge. 

Cito, do primeiro, o final, que vem ao encontro de algumas leituras sobre a identidade nacional realizadas noutro contexto:

"A grande questão, a que merece ainda ser colocada, hoje em dia, em tempo de crise, nacional e europeia, é esta: adquirimos, para além das aparências, esse rosto novo que a memorável Revolução nos teria dado? Durante séculos, ser português significava implicitamente sentir-se filho de um país colonizador e, por essa razão, dotado de uma espécie de identidade universal imaginária. Agora, que com excelentes motivos, não nos podemos prevalecer deste rosto imaginário, em que é que nos convertemos? Estamos na Europa, mas custa-nos, a nível simbólico, definir-nos como europeus. O "europeísmo" não acrescenta nada - por enquanto - àquilo que nos sentimos ser. Sobretudo, não substituiu a inscrição no espaço, ao mesmo tempo onírico e real, que nos fez sonhar durante 500 anos.
E isto leva, para terminar, ao único tipo de carência que, ao fim destes 40 anos de pós-revolução de Abril, se pode assimilar a uma certa desilusão que toca o coração mesmo da Revolução e da histórica Revolução. A democracia foi legitimada; os seus efeitos na vida política e quotidiana dos cidadãos são inegáveis, por mais que a crise atual o ensombre. Vivemos num país livre e só aqueles que não conheceram nunca o custo de ter passado largos anos - ou toda uma vida - numa não-democracia, podem considerar estas regalias como formais ou desprezíveis. Todavia, de certo modo, a nossa democracia é ainda ao cabo de 40 anos uma espécie de regime sem nome.
Queremos dizer com isto que a Revolução - a de todos nós que ela restituiu ao gozo de uma cidadania adulta e, naturalmente, aqueles que historicamente foram os seus atores por a terem desejado e sonhado - não suscitou ainda um verdadeiro imaginário, como outrora o da primeira República e, mesmo, o Estado Novo.
Só o seu momento inaugural permanece vivo e recebeu na véspera da sua celebração, a primeira das suas evocações fictícias apta a converter, ou ser já, uma memória viva e realmente "memorável" [Eduardo Lourenço refere-se ao romance Os Memoráveis, de Lídia Jorge, conforme é indicado em nota de rodapé.]. Esperamos que esse retrato mitificado desse momento, para nós sempre presente, nos abra a porta para esse imaginário ausente que até hoje nos faltava para enterrarmos dignamente o imaginário de séculos que a mesma Revolução, em nome de exigências agora universais, sepultou para sempre."

Eduardo Lourenço, "A Revolução revisitada", Jornal de Letras, Artes e Ideias, nº 1136, de 16 a 29 de abril de 2014.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

So awesome!

André Carrilho
Jon Hamm as Don Draper
Cover illustration for the Arts&Books supplement of the Independent on Sunday
andrecarrilho.tumblr.com



sábado, 12 de abril de 2014

A escola pública e a comunicação social


Fotografia retirada do site da Escola Secundária Passos Manuel

"Se na Saúde tivéssemos esta performance significava que metade dos doentes morria ou ficava gravemente doente e que a outra metade ficava bem. Seria intolerável, do ponto de vista social. Mas na Educação convive-se bem com isto. Há uma marca cultural pesadíssima, em que se aceita que a fronteira do sucesso está na linha de corte: quando tenho 10 não estou a ter sucesso, estou na fronteira do insucesso e muito longe do que seria desejável. Esta perceção das famílias é particularmente grave no ensino básico. [...]"

Entrevista de Hélder Sousa, diretor do Instituto de Avaliação Educativa, ao Expresso de hoje (nº 2163, 12 de abril de 2014); a jornalista foi Isabel Leiria e a parte a negrito foi destacada numa caixa.


Não nego que a frase assinalada a negrito tenha impacto junto dos potenciais leitores do jornal, mas este destaque dá que pensar, tanto como a citada afirmação. Colocar metade dos alunos portugueses a par dos defuntos e dos estropiados ou moribundos parece-me um pouco hiperbólico, digamos assim. Afinal, por muito importante que seja a escolarização dos filhos de cada qual, já descontando as famílias que desvalorizam a educação, esta não se compara ao valor da saúde e da vida. Neste sentido, é compreensível que seja mais fácil convencer uma pessoa a tomar um comprimido ou uma colher de xarope, por mais intragável que seja, e a obrigar o respectivo filho a fazer o mesmo do que persuadi-la a ler um livro e a incutir tal hábito no seu delfim, ainda que isso pudesse beneficiar a sua educação. Se a diferença na aceitação do "remédio" específico não fosse elucidativa, poderíamos questionar a disponibilidade para o procurar, isto é, para ir ao médico ou à escola e logo concluiríamos que a Saúde e a Educação são realidades diversas.

Reconhecendo esta disparidade, por que motivo são tantas vezes comparadas e, geralmente, para se inferir que a Saúde é um caso de sucesso, enquanto a Educação é um fracasso de quarenta anos? Não digo que Hélder Sousa o tenha afirmado, muito menos pensado, mas a sua frase e o destaque que lhe foi dado podem sugerir tal ideia. Ora, os dados de avaliações externas, segundo tem sido divulgado, não o demonstram, nem a observação empírica o confirma. Quem está no terreno sabe que a Escola não está bem, mas estava melhor há quarenta anos? Não, decerto. Há menos de quarenta anos fui eu e outros meninos da minha aldeia e da aldeia vizinha para a primeira classe e, de todos, só eu fui para a Universidade, outros foram trabalhar aos doze anos, concluído o segundo ano do ciclo preparatório, ou nem isso. Entretanto, já fui professora de alguns filhos deles, que tinham planos inquestionáveis de prosseguir estudos e fizeram-no. Os casos particulares valem o que valem, mas são também sinais da realidade e estes evidenciam que ela não será tão má como quererão fazer crer.

A quem interessa, então, se é que interessa a alguém, negar a evolução social positiva que ocorreu em Portugal e, consequentemente, nos níveis de escolaridade da sua população? A quem interessa convencer as famílias e os jovens de que a sua escola não é boa e de que eles só seriam bons se estivessem noutro lugar, no fantástico colégio, por exemplo? A quem interessa que não acabe o rumor de que a Educação em Portugal é um desastre? Ainda não é, mas para lá caminhamos se as condições de trabalho se deteriorarem mais e a população deixar de acreditar nela.


sexta-feira, 11 de abril de 2014

Escárnio e maldizer


Procurava uma cantiga de escárnio e maldizer apresentável, isto é, que pudesse ser dita em qualquer salão requintado, mas as dificuldades foram grandes, pois as obscenidades, a virulência e até a violência são frequentes. Encontrei duas: uma paródia ao amor cortês e "um malicioso quadro de amores campestres" (Graça Videira Lopes, p. 446). De qualquer modo, são lindas, estas e as outras, cuja leitura recomendo.


Quer-mi a mi ũa dona mal
como se lhi quisess'eu bem, 
por que houvesse por mi mal 
ou eu por ela algum bem; 
pois lh'eu nom quero mal nem bem, 
por que mi há ela querer mal? 

Colheu comigo desamor 
como se lh'houvess'amor eu, 
por que houvesse desamor 
d'alguém por mi ou amor eu; 
Non'a desamo nem am'eu; 
ela por que mi há desamor?


Gil Peres Conde 

Esta cantiga é o que poderemos designar por escárnio de amor, paródia ao universo do amor cortês, a partir de alguns dos seus clichés. Aqui a tradicional má-vontade da senhor em relação ao trovador não passa de um equívoco, uma vez que ela, neste caso, lhe é totalmente indiferente. [...]
3 per que - como se. 6 = há-de. 9-10 Os versos não são totalmente claros. Deverão ser, de qualquer forma, paralelos aos vv. 3-4 e o seu sentido será: como se, por causa de mm, alguém não gostasse dela, ou como se eu a amasse.



- Maria Genta, Maria Genta da saia cintada, 
u masestes esta noit'ou quem pôs cevada?
Alva, abríades-m'alá!

- Albergámos eu e outra [e]na carreira,
e rapazes com amores furtam ceveira.
Alva, abríades-m'alá! 

- U eu maj'aquesta noite, houv'i gram cea,
e rapazes com amores furtam avea.
Alva, abríades-m'alá! 


Rui Pais de Ribela

Notável cantiga dialogada que transforma subtilmente uma alba num malicioso quadro de amores campestres. É muito provável que se tratasse novamnete de uma cantiga de seguir. Repare-se que o lindíssimo refrâo («abria-se-me a alva ao longe»), na sequência do corpo das estrofes que descrevem a orgia nocturna, ganha um sentido irónico (e erótico), totalmente diferente do que teria na cantiga original.
1 É possível que Genta não seja um apelido, mas esteja no sentido de «gentil», como aparece, por exemplo, no Lais de Leonoreta Senhor genta...»). 2 masestes - pernoitaste. 2 ou quem pôs cevada - a expressão não é evidente. A cevada era um alimento para os criados e os animais. O sentido talvez seja, pois, «quem pagou a festa?», vindo a resposta na segunda estrofe (foram os rapazes com os seus roubos). Sigo a interpretação de Barbieri, o editor mais recente do trovador. 4 carreira - caminho. 5 ceveira - espécie de cevada para a alimentação do gado.

Os textos e as notas foram retirados do seguinte livro:

Graça Videira Lopes (ed.), Cantigas de Escárnio e Maldizer dos Trovadores e Jograis Galego-Portugueses, Lisboa, Editorial Estampa, 2002.


quarta-feira, 9 de abril de 2014

Alfabetos

Claudio Magris, Alfabetos: Ensaios de Literatura,
Lisboa, Quetzal, 2013 (trad. António Sabler)

Terminados que estão os trabalhos burocráticos, por agora, é possível o regresso à leitura: Claudio Magris, Alfabetos: Ensaios de Literatura (recolha de vários textos publicados, maioritariamente, no Corriere della Sera). Há bastante tempo que não lia um livro tão interessante e que, a cada página, tanto ensina. A volúpia da leitura impele à escrita ou ao amor, em múltiplos sentidos. São diálogos possíveis, hipótese de transcendência das tarefas e do seu linguajar exceliano-doméstico. Felicidade e melancolia.

Felicidade e melancolia, temas contemplados, a propósito dos quais cito estas passagens:

"A deusa faz morrer Cléobis e Bíton porque, depois de um dia absoluto, teriam sofrido demasiado a viver dias diversos daquele, mas também porque não teriam sequer podido suportar muitos dias como aquele. Na verdade, naquele dia não ocorreu nada de excepcional, nenhuma extraordinária aventura, nenhum êxtase particular; só horas serenas, jogos, amizade, alegre abandono. Mas Sólon - ou Heródoto por ele - sabe que nessas coisas aparentemente pequenas e banais é que consiste a felicidade [...]"

"Para Sólon, no entanto, Cléobis e Bíton ficam em segundo lugar: o primeiro cabe a Telo, ou seja, a quem é capaz de inserir na continuidade da vida também todas as mortes, as separações, as perdas, as desagregações, que a desfazem incessantemente."

"Felicidade" (Corriere della Sera, 15 de agosto de 1999), pp. 46 e 47.

"A melancolia não é só depressão psíquica ou tristeza tortuosa e morbidamente acalentada. [...] Nenhuma vida e nenhuma poesia de vida podem ignorar a melancolia, a caducidade do tempo que passa, aquilo que sempre falta em toda a felicidade e em todo o amor, mesmo feliz, o corromper das coisas e dos sentimentos, mesmo os mais puros, o desencanto, o incessante alterar-se e esvanecer-se."

"Melancolia e Modernidade" (Corriere della Sera, 22 de maio de 2007), p. 71.