sábado, 31 de maio de 2014

Casas

 O livro que está em cima da mesinha é a Granta: Portugal, nº 3, dedicado ao tema Casa. A revista é muito boa, e este número é especialmente interessante. Os textos são óptimos e as fotografias também, até a fotonovela seduz. Este género é, para mim, uma reminiscência da infância e das misteriosas leituras de primas e vizinhas mais velhas, que suspiravam com heróis chamados Dário, Sérgio ou outros que tais. Só a Simplesmente Maria (radionovela) suplantava estes melodramas em espanto.

As recordações do passado não se ficaram por aqui, pois o tema é propício à interrogação sobre a identidade e às buscas pelo "sótão da casa de família", ou por outros cómodos igualmente depositários dos objectos memoráveis. Neste canto, por exemplo, está a mesinha do tio E., sobre a qual costumava estar a televisão, na casa do avô e da tia; a cadeira é de desconhecida proveniência, mas foi restaurada pelo marido da prima M. A., que talvez lesse Corin Tellado, quando jovem.

Gosto de objectos com história, minha ou de outros, não só de móveis antigos, como também de elementos de decoração que transportem memórias de pequenas alegrias. É o caso dos ovos que fotografei para este blogue, comprados na Hungria, numa cidade cujo nome esqueci há muito, só me lembro de ser uma cidade de artistas, onde se vendiam muitas peças de artesanato. Os ovos pintados ou esculpidos estavam por todo o lado e eram muito bonitos. Trouxe vários, mas só estes sobreviveram, talvez porque tivessem ficado guardados numa caixa durante alguns anos, até agora, quando uma prateleira de uma nova estante pediu a sua presença. Ficam bem. Conferem ao espaço um tom de alegria e delicadeza apaziguadoras, para além de incitarem à viagem. Aliás, as viagens estão bem assinaladas nessa estante, com diversos guias e livros alusivos, adquiridos ao longo do tempo e que um dia lerei. Convites à evasão, seja no espaço, seja no tempo.

Na Granta, diferentes autores procuram ou mostram (as suas) casas, todavia a fugacidade dessa imagem identitária e de intimidade é o traço que me parece mais constante. Também eu busco a minha casa. Já vivi em vários lugares, mas aquele que aparece como A Minha Casa é essa casa da infância da qual não guardo qualquer objecto. 

Cada lembrança é um  memento mori.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Afrontamento

Paulo Nazolino in http://cineteratura.blogs.sapo.pt/fotografia-9-9004

Partia de Cesário Verde para refletir sobre a estesia da cidade, que preferia à do campo. Mas uma passagem do blogue Horas Extraordinárias impôs-se. Conta Maria do Rosário Pedreira sobre Einstein:

"Interrogado sobre se achava mais importante a imaginação ou o conhecimento, o genial cientista respondeu que, sem qualquer dúvida, a imaginação. E, quando o entrevistador quis saber porquê, explicou esta maravilha: «É que o conhecimento leva-nos de A para B, mas a imaginação leva-nos de A para todo o lado.»"

Vem muito a propósito este relevo dado à imaginação, não só por causa do Poeta em estudo, mas também devido aos tempos correntes, pois é ela que permite a liberdade e a fuga aos grilhões do real, tão necessárias. Se a razão diz que A conduz a B, inexoravelmente, a vitalidade precisa de saber que o caminho é constituído por múltiplas possibilidades, sob pena de definhamento. 

Assim, nas horas velozes do dever, uma mulher pode evadir-se numa qualquer paisagem citadina pela imaginação, pela leitura, pela beleza fulgurante destes versos:


Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

(...)

E, enorme, nesta massa irregular
De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,
A Dor humana busca os amplos horizontes,
E tem marés de fel como um sinistro mar!


Cesário Verde, O Livro de Cesário Verde e poesias dispersas, Lisboa, Europa-América, s.d.
(primeira e última estrofe do poema "O Sentimento dum Ocidental", constituído por quatro secções)