sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Literatura e ensino do português


Um livro interessante seguido de debate:


José Augusto Bernardes e Rui Afonso Mateus.
 
Literatura e Ensino do Português.
 Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2013.
«Está, portanto, em debate o papel das Belas Letras nas Letras Nacionais. Os autores defendem, com argumentos sabiamente pensados e expostos, que, no quadro educativo, não há nem pode haver Letras sem Belas Letras. Que não se pode ensinar Português sem se ensinar também, obviamente na medida certa, Literatura: Camões, Gil Vicente, o Padre António Vieira, Almeida Garrett, Camilo Castelo Branco, Eça de Queiroz, Fernando Pessoa e outros não podem deixar de estar nas nossas escolas. E também defendem que a medida actual está aquém da medida certa. Por medida não se deve entender apenas a quantidade mas também e sobretudo a qualidade. Neste domínio, segundo eles, interessa o “quanto” e interessa o “quê” e o “como”. Será necessário, nesta como noutras áreas, que, na busca da medida certa, sejamos mais exigentes para connosco próprios.»

Carlos Fiolhais, «Prefácio» in João Augusto Bernardes e Rui Afonso Mateus. Literatura e Ensino do Português. Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2013.

«Frequentar glossários, escandir versos, identificar figuras de retórica e outros processos técnico-formais, conhecer a história factual e os pressupostos ideológicos de um texto ou de um autor, integrar uma obra num determinado movimento ou escola, relacionando-a com um quadro, um filme ou uma peça musical, eis as atividades que defendemos para balizar a cultura literária de um professor de Literatura no século XXI. Não nos parece que essas atividades possam encontrar correspondência, no passado, num só tempo de formação e de exercício da docência. Julgamos, aliás, que a novidade da proposta que aqui se deixa consiste, tão-só, na conjugação de componentes que antes prevaleciam com exclusão de outras. Trata-se, bem o sabemos, de um modelo de caráter superlativo; mas, pelos motivos já enumerados, cremos que não pode deixar de ser assim. Justifica-o a necessidade de reagir contra um estado de crise, não com desespero, mas com lucidez e algum sentido prático. Todos sabemos como a resposta a uma situação deste tipo se revela infrutífera se não vier acompanhada de alguma contrição e de suficiente veemência. A alternativa, neste caso, é só uma: a de o saber literário continuar a ser tomado por aleatório, diletante ou mesmo ocioso.

 [...]

O maior desígnio do novo modelo formativo que aqui advogamos, porém, é o de formar professores mais humildes. Esperamos que esta palavra de profundo significado moral (e até teológico) não surpreenda, nesta ocasião. Na verdade, a circunstância provada de se ensinar tão pouco a partir de textos literários pode facilmente criar nos professores a sensação de que sabem muito mais do que necessitariam para cumprir o que os programas estabelecem. E não é assim, de facto. A verdadeira humildade só se robustece com a tentativa de conhecer. Só perseverando nessa gostosa escalada nos apercebemos do muito caminho que sempre nos faltará percorrer. Permanecendo num nível baixo de conhecimento mas, ainda assim, inevitavelmente acima do dos alunos, pode assaltar-nos a tentação de acreditar que estamos no alto de alguma coisa, quando, afinal, não passámos dos primeiros degraus de uma imensa escada. Cada novo patamar que se conseguir alcançar (através da leitura de livros e da participação em atividades de formação) constituirá um ganho para o profissional do ensino. Sabendo um pouco mais, ensinará sempre um pouco melhor e, sobretudo, estará em muito melhores condições para servir de exemplo aos seus alunos, os quais são, sobretudo, leitores a conquistar.»

José Augusto Bernardes e Rui Afonso Mateus. Literatura e Ensino do Português. Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2013.

domingo, 12 de outubro de 2014

WC

Textos engraçados... textos engraçados... para exercícios gramaticais... folhear livros... este... aquele...


Não resisti a partilhar estas informações para viajantes audaciosos, aqueles para quem a comida ou a ida à casa de banho não constituem embaraços:

W.C. - Instruções de uso

Agora é que vais passar pelo verdadeiro teste das tuas capacidades de viajante: as casas de banho públicas do Terceiro Mundo. Pensa positivo: cresceste em Portugal, onde, até há bem pouco tempo, não havia grande diferença entre as nossas retretes e as da Nigéria. E ainda podes ir parar a um desses «poços de m...» nigerianos se não tens cuidado. Assim, estás mais bem preparado do que os teus colegas mochileiros da Noruega, da Suíça ou do Canadá. A seguir, todas as cábulas que te podem ajudar a passar com distinção neste autêntico «teste psicotécnico» para descobrires se tens ou não aptidão para viajar pelos W.C. do mundo.

Tipo de instalações

Habitua-te à ideia de não haver divisões entre as retretes, ou seja, entre os utentes. [...]

Tipo de retrete

Quase sempre do género «buraco no chão». Aliás, a sanita tipo «trono» nem sequer é conhecida para lá de Istambul. Acredita, o teu metabolismo funciona muito melhor nesta posição, em que todos os músculos das tuas pernas e torso estão contraídos. [...]

Papel higiénico

Não há. Sais fora do mundo ocidental e habituas-te a usar outras formas de asseio. Na Ásia, é a tua mão esquerda. Por isso é que é mesmo muito má educação tocares em alguém com a tua mão esquerda. Tens água ao lado da retrete para te limpares; nos W.C. mais sofisticados, até tens uma mangueira com uma pressão razoável: é só apontares para o «castanho» residual e... boa pontaria, para não saíres com a nuca molhada e as tuas roupas encharcadas.

Gonçalo Cadilhe, O mundo é fácil: aprenda a viajar, Alfragide, Oficina do livro, 2010.