domingo, 14 de agosto de 2016

Excelente - Lucia Berlin


Primeira leitura de férias - Lucia Berlin. Excelente.

Stephen Emersen reuniu neste volume os melhores contos (short stories) de Lucia Berlin; são textos de extensão variável, mas geralmente curtos, inesperados e empolgantes, de uma grande vivacidade e riqueza humana.
Lucia Berlin, Manual para mulheres da limpeza,
Lisboa, Alfaguara, 2016.
Aos olhos do leitor passam inúmeras personagens e situações, que revelam não só o sudoeste americano, com a sua diversidade cultural, mas também a massa humana que, de costa  a costa, se desloca de autocarro, atravessa as ruas em velhos automóveis, ou prefere deixar o porsche na garagem e deslocar-se a pé para aquela visita ao bairro pobre. Todos se movem entre preconceitos, violência, sofrimento, amor e alegrias; não se pense, todavia, que é um livro trágico, a tragédia está presente, mas a capacidade de rir e de sobreviver da narradora e de muitas personagens atenua o peso que algumas situações poderiam tornar insuportável - a morte da jovem que faz um aborto clandestino, as violações e os abusos, a morte de Jesus, o alcoolismo, por exemplo. A capacidade para arranjar e aceitar novos empregos, tão diversos como fazer limpezas, ser rececionista, enfermeira ou professora, também ajudam a "dar a volta por cima". Será uma característica da sociedade americana, é uma característica da protagonista, que no último conto, "Voltar a casa", se manifesta assim: "O único motivo por que vivi tanto tempo foi ter largado o meu passado. Fechar a porta à dor, ao arrependimento e ao remorso. Se os deixar entrar, basta uma nesga autocomplacente, zás, a porta abre-se por inteiro e eis que entra uma torrente de dor que me rasga o coração e me cega os olhos de vergonha, parte chávenas e garrafas, derruba frascos e estilhaça janelas, faz-me tropeçar, ensanguentada, em açúcar entornado e em vidro partido, sufocando de pavor até que, num último estremecimento e soluço, fecho a porta pesada. Apanho os cacos uma vez mais." (pp. 508-509).
Ressalve-se, ainda, que estes contos têm uma grande unidade entre si, seja pela recorrência de personagens, seja pelo espaço físico e social, seja pela evolução de algumas situações, seja, principalmente, pela narradora/protagonista e pelo ponto de vista. O livro poderia mesmo ser lido como uma espécie de autobiografia romanceada em fragmentos, se é que a classificação quanto ao género é possível ou pertinente.

A ler. Recomendo.

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