segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

O sofrimento e a vida

Rui Chafes, Burning in the forbidden sea2011 
(Gulbenkian/CAM, 2014)
Decorre o debate sobre a morte assistida ou a eutanásia. Ainda não compreendi bem as posições de uns e de outros, o que me parece é que estão por definir ou clarificar os conceitos em discussão ou práticas disponíveis, tais como: eutanásia, distanásia, morte assistida, recusa de cuidados de saúde, testamento vital, cuidados paliativos... Mas a indefinição não se fica por aqui, desde logo, é preciso esclarecer o que se quer dizer quando se fala de sofrimento intolerável, de desejo de morrer ou de dignidade e de vida digna; enfim, quando o tema é a vida abrem-se muitas portas, cada uma para uma ponta do mistério. 

Para ajudar à reflexão, deixo estas sábias palavras de José Tolentino Mendonça:

«Porque o sofrimento é uma estranha boca sem lábios, uma estranha língua sem palavras, um ininterrupto zumbido que se solta do próprio som, mas nunca mais nos solta. Invade-nos com o poderio e a frieza de uma colossal máquina de guerra. E abala tudo: das mínimas articulações do corpo às dobras imensas da alma.
Contudo, mesmo o sofrimento mais intolerável pede ainda para ser interpretado, e para sê-lo com a chave da vida. Desistir de escutá-lo até ao fim, e para lá do fim, é desistir de amparar a vida como ela é, na sua nua e vulnerabilíssima manifestação. É preferir uma qualquer idealização (ou fuga) que diz o que a vida deveria ser, como se fôssemos nós a decidir o que a vida é. E não somos. Pois quem pode, com verdade, considerar-se dono da vida? Não seremos antes guardadores, e apenas isso, apenas guardadores desse mistério que é maior do que nós?»

José Tolentino Mendonça, «Que coisa são as coisa: Não matarás», Expresso: Única, 27/02/2016.